A decisão do ministro André Mendonça que autorizou a 8ª fase da Operação Compliance Zero descreve uma relação de proximidade entre o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro e o banqueiro Daniel Vorcaro, considerada pela Polícia Federal peça central para a liberação de bilhões de reais do Rioprevidência em operações ligadas ao Banco Master. Segundo a investigação, encontros reservados, viagens internacionais e contatos frequentes entre os dois antecederam decisões que favoreceram o banco.
O relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal aponta que a relação entre Castro e Vorcaro ultrapassava o ambiente institucional. Investigadores afirmam que o banqueiro custeou viagens ao exterior do então governador e mantinha interlocução direta com integrantes da cúpula do governo do Rio. Para a PF e o Ministério Público Federal, o vínculo pessoal ajudou a consolidar um “alinhamento político” que teria orientado a aplicação de recursos do fundo previdenciário estadual.
As suspeitas recaem sobre aportes de cerca de R$ 3,69 bilhões realizados pelo Rioprevidência entre outubro de 2023 e outubro de 2025 em Letras Financeiras e fundos associados ao Banco Master. A investigação sustenta que parte das operações ocorreu apesar de manifestações técnicas contrárias e alertas sobre riscos financeiros.
Na decisão, Mendonça afirma que os indícios reunidos “ultrapassam mera conjectura” e justificam as medidas de busca e apreensão para preservação de provas. O ministro também cita elementos que apontam para uma possível atuação coordenada dentro da estrutura do Rioprevidência para viabilizar os investimentos.
Segundo a PF, mudanças promovidas na direção da autarquia pouco antes do início dos aportes tiveram papel decisivo no avanço das operações. Investigadores suspeitam que cargos estratégicos foram ocupados por nomes alinhados ao grupo político de Castro para garantir a aprovação dos investimentos em desacordo com normas regulatórias.
Mensagens obtidas no celular de Vorcaro reforçariam essa tese. Em uma das conversas analisadas, a liberação de recursos estaria condicionada à manutenção do “alinhamento político” com o então governador. O relatório também cita o empresário Ricardo Siqueira Rodrigues, apontado como operador da aproximação entre o banco e agentes públicos. Segundo a PF, ele teria afirmado que o Rioprevidência tinha um “dono” responsável por autorizar os negócios.
A operação deflagrada nesta terça-feira (26/5) é a oitava fase da Compliance Zero. Foram cumpridos dez mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e no Distrito Federal por determinação do STF. A investigação apura possíveis crimes financeiros envolvendo aplicações do fundo previdenciário estadual em ativos ligados ao Banco Master.
Esta é a segunda ofensiva da PF contra Cláudio Castro apenas neste mês. Em 15 de maio, agentes já haviam realizado buscas na residência do ex-governador, na Barra da Tijuca, em uma ação que também teve como alvo o empresário Ricardo Magro, do grupo Refit.
