O debate sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho precisa considerar a realidade dos pequenos negócios brasileiros, responsáveis por grande parte da geração de empregos no país.
A avaliação foi feita pelo gerente adjunto de Estratégia e Transformação do Sebrae Nacional, Fausto Ricardo Keske Cassemiro, durante a abertura do CB Debate Escala 6x1: Em Busca do Equilíbrio na Jornada de Trabalho, realizado pelo Correio nesta terça-feira (26/5).
Ao apresentar dados de uma pesquisa realizada pelo Sebrae entre fevereiro e março de 2026 com cerca de 8,3 mil empreendedores em todo o país, Cassemiro afirmou que a discussão sobre a proposta já alcançou grande parte do setor.
Segundo ele, 87% dos entrevistados disseram estar cientes da proposta de alteração da escala de trabalho que prevê o fim do modelo 6x1, enquanto 13% afirmaram desconhecer o tema.
Entre os empresários que conhecem a discussão, a percepção sobre os efeitos da eventual mudança ainda é dividida. De acordo com o levantamento, 51% acreditam que a alteração não teria impacto sobre os negócios, 27% avaliam que o efeito seria negativo, e 11% consideram que a medida poderia gerar impactos positivos. Outros 11% disseram ainda não conseguir dimensionar os efeitos da proposta.
“O empreendedor do Brasil, dada a sua dimensão, é uma miríade, um caleidoscópio de empresas, de empreendedores, setores econômicos de vários cantos do Brasil”, afirmou Cassemiro ao destacar que os impactos variam conforme a atividade econômica.
Segundo ele, setores como pet shops, clínicas veterinárias, hotéis, restaurantes e alimentação tendem a demonstrar maior preocupação com efeitos negativos. Em contrapartida, áreas ligadas à economia criativa enxergam possibilidade de crescimento da demanda, impulsionada pelo aumento do tempo de lazer dos trabalhadores.
Empreendedorismo e produtividade
Durante o debate, o representante do Sebrae destacou o peso dos pequenos negócios na economia brasileira. Segundo os dados apresentados, o país possui atualmente 24,7 milhões de empreendedores. Desse total, 13,4 milhões são microempreendedores individuais (MEIs), 9,4 milhões são microempresas e 1,8 milhão são empresas de pequeno porte (EPPs).
Cassemiro ressaltou, ainda, que dois em cada três pequenos negócios no Brasil não possuem empregados, sendo compostos apenas pelo próprio empreendedor.
Na avaliação do Sebrae, o principal desafio para adequação a possíveis mudanças na jornada de trabalho está no aumento da produtividade. O gerente afirmou que os pequenos negócios respondem por cerca de 26,5% do Produto Interno Bruto (PIB) empresarial brasileiro, embora representem 95% das empresas do país.
“Esse é o nosso desafio quando a gente fala dessa questão da escala 6x1”, disse. Para ele, as pequenas empresas enfrentam maior dificuldade de produtividade em comparação às médias e grandes companhias.
Tripé para adaptação
Como forma de preparar os empreendedores para eventuais transformações no mercado de trabalho, o Sebrae defende um modelo baseado em três pilares: produtividade, gestão e inovação.
No campo da gestão, Cassemiro destacou a importância do planejamento financeiro e da organização das escalas de trabalho. Segundo ele, muitos empreendedores iniciam atividades sem formação em administração financeira, o que dificulta a adaptação a mudanças que possam elevar custos operacionais.
Já na inovação, o Sebrae aposta na ampliação de programas de tecnologia voltados aos pequenos negócios, como o Sebraetec, para impulsionar ganhos de produtividade. “O Sebrae está se preparando para ser o braço direito do empresário para que a gente possa realmente fazer essas mudanças”, afirmou.
Ao encerrar a participação, Cassemiro defendeu que a discussão sobre a jornada de trabalho não deve ser encarada como uma disputa entre patrões e empregados. “A gente não entende como se fosse uma dicotomia. Não tem jogo perde-perde. A gente quer construir um jogo ganha-ganha, tanto para os empreendedores quanto para os trabalhadores”, concluiu.
