A decisão do governo norte-americano de classificar as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas incendiou a pré-campanha eleitoral. Até então comedido nos comentários sobre o possível adversário nas urnas, o presidente Lula deixou a moderação de lado e partiu para cima do senador Flávio Bolsonaro. Além de acusá-lo de traidor da pátria, praticamente o chamou de miliciano durante um discurso raivoso em Sergipe.
O filho 01 do clã Bolsonaro também elevou o tom. Além de afirmar que a viagem para os Estados Unidos foi mais benéfica para o Brasil do que as políticas de segurança pública dos governos petistas, o senador reiterou uma suposta conivência do governo Lula com o crime organizado. "Vocês já viram um presidente da República tratar integrantes de PCC e Comando Vermelho como 'nossos criminosos'?", disse, na noite de sexta-feira, no evento de lançamento da pré-candidatura de Sergio Moro para governador do Paraná. "'Nossos criminosos, Lula? Não, seus criminosos. A soberania que a gente defende é a soberania do povo brasileiro, é a soberania das 50 milhões de pessoas que vivem sob o domínio de narcoterroristas", prosseguiu.
Flávio Bolsonaro afirmou o que entende por terrorismo no Brasil. "Um governo paralelo impondo violência, covardia, medo. O povo brasileiro não aguenta mais viver com medo por causa desse tipo de gente. E você escolhe defender esses marginais, ao invés de defender as vítimas dele, Lula? Não, o tempo deles está acabando e o seu também", avisou.
Crise diplomática
Independentemente da definição conceitual de terrorismo e até mesmo da corrida eleitoral, o fato é que a crise diplomática entre Washington e Brasília é uma consequência do avanço do crime organizado no Brasil. O atual estágio transnacional do PCC resulta de seguidas falhas em políticas de segurança pública no âmbito federal e estadual. Há décadas se discutem medidas, no Congresso Nacional, para conter o avanço das facções no país; o Parlamento conta com uma bancada da bala, favorável ao confronto direto contra bandidos; o governo federal, em particular o presidente Lula em seu atual mandato, hesita em criar um Ministério da Segurança Pública. Preferiu envidar esforços em favor de uma PEC que segue perdida nos corredores do Congresso. E os estados, ao longo dos anos, têm perdido a queda de braço com as facções criminosas.
Nesse confronto, as facções têm obtido vitórias em estados governados tanto pela direita quanto pela esquerda. Começando pelo Rio de Janeiro: a capital brasileira mais conhecida do mundo está dividida por grupos como Comando Vermelho, Terceiro Comando Puro e Amigos dos Amigos. Milhões de cariocas vivem sob o jugo de criminosos, além de milicianos. Nos últimos anos, o estado fluminense tem sido governado por políticos de tendência conservadora. E o que se observa é a infitração crescente do crime organizado na estrutura estatal, a ponto de um presidente da assembleia legislativa ser preso. O estado de corrupção permanente no Rio de Janeiro, com seguidos governadores presos ou com a polícia no encalço, dificulta uma ação mais firme do poder público. E amplia a vantagem do crime organizado.
Em São Paulo, o PCC completou 20 anos de atividade desde os conhecidos Crimes de Maio. Nascido nos presídios, o grupo adquiriu poder de fogo e de organização em seguidos mandatos de governadores de centro-esquerda à centro-direita. O atual ocupante do Palácio dos Bandeirantes, aliado do senador Flávio Bolsonaro, defende uma política de segurança de confronto. As estatísticas demonstram uma redução no número de homicídios, latrocínios, roubos e furtos. Mas o cenário ainda é desafiador, em razão da extensão das atividades criminosas da facção. As etapas da Operação Carbono Oculto indicam o grau de sofisticação da rede ilícita montada pelo PCC no mercado de combustíveis.
No Norte e no Nordeste do Brasil, o crime organizado se tornou um problema grave. Chama a atenção a situação na Bahia, estado historicamente governado por gestões petistas. O Atlas da Violência, divulgado na semana passada, enumera seis cidades baianas (Jequié, Juazeiro, Feira de Santana, Porto Seguro, Simões Filho e Camaçari) entre as mais perigosas do Brasil, com altas taxas de homicídio por 100 mil habitantes. As quatro cidades restantes no topo do ranking da violência ficam no Ceará, outro estado importante no mapa político do PT. São elas: Maranguape, Maracanaú, Itapipoca e Caucaia.
É consenso entre especialistas que a decisão do governo norte-americano de denominar o PCC e o CV terá efeitos limitados no Brasil, considerando questões como soberania. Mas é fato que o Estado brasileiro falhou ao permitir a ascensão de grupos organizados que só vêm ampliando o raio de ação ao longo do anos. O grave, na atual quadra, é que a crise de segurança pública se tornou um imbróglio diplomático, com reflexos na campanha eleitoral.
Neste cenário complexo, em meio à polarização eleitoral, é improvável que se chegue a um entendimento político. Haverá troca de acusações diariamente, sem um debate qualificado e racional sobre políticas de segurança pública. Terroristas ou não, os bandidos agradecem.
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