Entrevista | Maria do Carmo Cardoso | Presidente do TRF1

'Avançamos, mas ainda há obstáculos', diz Maria do Carmo Cardoso

Com mandato até 2028 à frente do tribunal, magistrada acredita que a presença de uma mulher em um posto de liderança ajuda a abrir caminho para outras

Desde abril na presidência do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, a desembargadora Maria do Carmo Cardoso está à frente de uma corte marcada pela diversidade. Com mandato previsto até 2028, a magistrada tem se dedicado a ouvir os servidores. "Estamos presentes em 12 estados e no Distrito Federal, com realidades completamente diferentes entre si", diz. Com uma trajetória na advocacia antes de ingressar na magistratura, a desembargadora está preocupada com a qualidade do serviço oferecido pela Justiça à sociedade. "É nas Seções Judiciárias que a Justiça Federal pulsa com mais intensidade, porque é ali que o cidadão encontra a instituição", conta. Maria do Carmo Cardoso também comentou sobre temas relevantes no Judiciário, como maior presença de mulher, combate ao assédio e uso de Inteligência Artificial. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

A senhora assumiu a presidência do tribunal em abril. O que já foi possível fazer neste início de mandato?

Eu tenho procurado dedicar esse início de gestão muito à escuta. O TRF1 é um tribunal com uma realidade muito diversa. Nós estamos presentes em 12 estados e no Distrito Federal, com realidades completamente diferentes entre si. Uma das primeiras preocupações foi justamente ouvir magistrados, servidores e gestores das Seções Judiciárias para compreender, de forma mais próxima, as necessidades de cada unidade. Eu sempre digo que é nas Seções Judiciárias que a Justiça Federal pulsa com mais intensidade, porque é ali que o cidadão encontra a instituição. Também iniciamos discussões voltadas ao aperfeiçoamento da gestão administrativa e da modernização tecnológica do tribunal. Mas tenho insistido em uma ideia: tecnologia é importante, mas ela precisa servir às pessoas. Nenhuma inovação faz sentido se não melhorar efetivamente a prestação jurisdicional.

Em seu discurso de posse, a senhora mencionou a urgência de haver mais mulheres nos espaços de poder. O que precisa ser feito para isso se tornar realidade?

Eu vivi muitas das dificuldades que outras mulheres viveram ao longo da carreira. Quando cheguei a Brasília, ainda muito jovem para advogar, a presença feminina em posições de liderança era muito menor do que hoje. Nós avançamos, sem dúvida. Mas ainda existem obstáculos que, muitas vezes, não aparecem de forma explícita. Por isso, eu acredito muito no exemplo. Quando uma mulher ocupa espaços de liderança com naturalidade, competência e equilíbrio, ela também ajuda a abrir caminhos para outras. Hoje temos magistradas, advogadas, professoras, procuradoras e servidoras extremamente qualificadas. O desafio é fazer com que essas trajetórias tenham cada vez mais visibilidade e oportunidades.

Recentemente o tribunal promoveu um evento sobre prevenção ao assédio e à discriminação. Como enfrentar esse problema que afeta toda a sociedade?

Esse é um tema que precisa ser tratado com muita seriedade e também com muita responsabilidade. O enfrentamento ao assédio começa pela educação e pelo respeito. Não existe ambiente institucional saudável quando as pessoas trabalham com medo, constrangimento ou sensação de invisibilidade. O que buscamos no tribunal é fortalecer uma cultura de respeito mútuo. As campanhas, os debates e as ações de conscientização têm exatamente esse objetivo. Muitas vezes, a prevenção é tão importante quanto a própria punição.

O TRF1 é responsável por cinco biomas no país. De que forma tem contribuído para a preservação ambiental?

A Primeira Região possui uma responsabilidade muito grande nessa área, porque temos jurisdição em cinco biomas: Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga e mata atlântica. A atuação do tribunal ocorre principalmente por meio do julgamento de questões que envolvem proteção ambiental, regularização fundiária, povos tradicionais, atividades econômicas e desenvolvimento sustentável. São temas complexos, porque, muitas vezes, envolvem interesses legítimos que precisam ser harmonizados. O papel do Judiciário não é escolher um lado, mas assegurar que a Constituição e a legislação sejam observadas, buscando equilíbrio e segurança jurídica.

O ex-presidente do STF Luís Roberto Barroso considera positiva a IA nos tribunais. A senhora concorda?

Eu vejo a inteligência artificial como uma ferramenta importante para auxiliar o Poder Judiciário. Nós lidamos diariamente com um volume muito grande de processos e informações. Ferramentas tecnológicas podem ajudar na organização desses dados e contribuir para maior eficiência. Mas faço sempre uma observação: a decisão judicial continua sendo humana. Nenhum sistema substitui a capacidade de reflexão, a experiência, a sensibilidade e a responsabilidade do magistrado. A tecnologia pode apoiar o juiz. Ela não pode substituir o juiz.

Como avalia a questão do contracheque único para o Judiciário?

Transparência é um valor fundamental para qualquer instituição pública. Ao mesmo tempo, esse é um tema que envolve aspectos técnicos, administrativos e normativos que precisam ser analisados de forma cuidadosa pelos órgãos competentes do Poder Judiciário. O importante é que qualquer medida adotada preserve a transparência das informações e a segurança jurídica dos sistemas existentes.

 

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