eleições 2026

Efeito da IA na corrida ao Planalto

Inteligência artificial deixa de ser uma questão tecnológica e passa a ocupar espaço estratégico nas propostas dos presidenciáveis

Flávio utilizou IA para divulgar vídeo em que aparece como artilheiro que ataca barcos de facções criminosas -  (crédito: Reprodução/Instagram pessoal)
Flávio utilizou IA para divulgar vídeo em que aparece como artilheiro que ataca barcos de facções criminosas - (crédito: Reprodução/Instagram pessoal)

A inteligência artificial (IA) deixou de ser um assunto restrito à tecnologia e passou a integrar dia a dia do brasileiro e, também, a agenda política nacional. Em ano de eleição presidencial, o tema ganha força entre os candidatos. Levantamento do Radar Governamental mostra que os cinco principais presidenciáveis abordam o tema, ainda que sob perspectivas distintas, desde a defesa de maior regulação até propostas voltadas para inovação, infraestrutura e uso da IA na administração pública.

Nos dados colhidos pelo Radar, os pré-candidatos incorporam a IA aos discursos, seja como ferramenta para impulsionar o desenvolvimento econômico, modernizar o Estado, fortalecer a segurança pública ou enfrentar desafios como a desinformação e a manipulação eleitoral. O estudo analisou declarações públicas, propostas para as eleições de 2026 e os programas de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão), identificando diferentes prioridades para o uso da tecnologia.

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O diagnóstico aponta que o debate sobre inteligência artificial ultrapassou o campo da inovação e começa a ocupar espaço nas estratégias políticas dos presidenciáveis. Lula faz duras críticas a ferramenta, ja tendo declarado em 2024: "Estou cansado de ouvir teoria, de ouvir falar nesse bicho de inteligência artificial. Num país que tem tanta gente inteligente, para que precisa de inteligência artificial? Porque não usamos a inteligência humana que temos aqui?"

Apesar da resistência pessoal de Lula, o governo mantém iniciativas voltadas à temática. Em 2024, foi lançado o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com o tema "IA para o bem de todos". O documento evoca princípios como o da necessidade de inserir o Brasil na "corrida para garantir o domínio das tecnologias de inteligência artificial". "Como nação soberana e comprometida com o bem-estar de nossa população, não podemos ficar à margem dessa revolução", aponta o texto. Uma das propostas relatadas no documento é a criação de uma "nuvem soberana". É apresentada a meta de investimentos na ordem de R$ 23 bilhões. Há ainda o foco de assegurar que a massificação da IA tenha como meta o "bem comum".

Flávio associa a tecnologia ao aumento da eficiência da gestão pública e mantém críticas ao que seu grupo político considera excesso de regulação das plataformas digitais — para eles uma forma de censura. Zema não só tem defendido, mas usado as ferramenata de IA em sua pré-campanha, criando vídeos críticos — como os que publicou contra o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Quando governador, ele lançou o novo Portal da Transparência do governo de Minas, que conta com IA em sua arquitetura.

Experiência local

Caiado leva para a campanha a experiência desenvolvida em Goiás, onde implementou um centro de excelência em IA e aprovou uma das primeiras legislações estaduais sobre o tema. "No nosso governo, criamos um centro de excelência e investimos R$ 720 milhões em cinco anos. Somos referência no Brasil e o único estado com regulamentação própria sobre inteligência artificial", disse.

Renan concentra suas propostas no uso da tecnologia para modernizar o Sistema Único de Saúde (SUS), mas destaca preocupação com o desemprego. "O positivo: os serviços públicos vão melhorar muito. Todas as vezes que uma pessoa foi a uma unidade básica de saúde, vai ser registrada, melhorando o atendimento. O lado ruim, e que pouca gente está falando, é que boa parte dos empregos vai desaparecer. E se não fizermos uma reforma grande, muita gente vai padecer. Precisamos olhar para as regiões Norte e Nordeste e criar empregos de qualidade por meio das terras raras", destacou.

Para o head do Radar Governamental e um dos coordenadores do levantamento, Olavo Soares, a principal conclusão da pesquisa é que a inteligência artificial deixou de ser um assunto periférico para se tornar um compromisso assumido por praticamente todos os pré-candidatos. "A gente percebe que todo mundo tem interesse genuíno em falar sobre o assunto e dizer que ele vai fazer parte de um eventual governo. A inteligência artificial está aí, vai acontecer. Não adianta fugir", adverte.

Apesar desse consenso, Olavo avalia que o debate permanece mais no campo das intenções do que das propostas concretas. Conforme observa, os presidenciáveis reconhecem o potencial transformador da tecnologia, mas ainda não detalham de que forma ela será incorporada às políticas públicas.

"A gente percebe que está muito na intenção. Os candidatos demonstram vontade de usar a inteligência artificial como ferramenta da gestão pública, mas ainda não explicam de maneira prática como isso vai acontecer. Esse grau de detalhamento ainda não apareceu", observa.

Questão de soberania

Na avaliação do advogado e especialista em inteligência artificial Matheus Puppe, a discussão ultrapassou há muito tempo os limites da inovação tecnológica e passou a ocupar posição estratégica na política, na economia e nas relações internacionais. Ele acredita que o tema será uma das pautas da eleição, mas o Brasil precisa evitar tanto o pânico tecnológico quanto o encantamento ingênuo.

"IA não é milagre e também não é ameaça inevitável. É infraestrutura de poder. O país que souber governar essa tecnologia com liberdade, responsabilidade e estratégia vai ganhar produtividade, soberania e competitividade. O país que tratar IA apenas como modismo eleitoral ou como risco abstrato vai ficar para trás", frisa.

Para Puppe, um dos maiores desafios do próximo governo será encontrar o equilíbrio entre inovação e regulação. Na avaliação dele, tanto o excesso quanto a ausência de regras podem comprometer o desenvolvimento do país.

"Se o Brasil regular demais, com medo da tecnologia, mata inovação, afasta investimentos, dificulta datacenters, sufoca startups e nos deixa dependentes de tecnologia estrangeira. Mas, se não regular nada, abre espaço para abuso eleitoral, discriminação algorítmica, uso indevido de dados pessoais, vigilância estatal sem controle, manipulação da opinião pública e decisões automatizadas sem transparência", destaca.

Segundo Puppe, o ambiente regulatório seráfundamental para definir a posição do Brasil na economia digital dos próximos anos. "O nível de regulação de novas tecnologias será determinante para atrair ou afastar empresas que serão responsáveis pelo domínio econômico e tecnológico do futuro", adverte.

Outro tema que deve ganhar protagonismo na campanha é o impacto daIA sobre o processo eleitoral. Com ferramentas capazes de produzir vídeos, áudios e imagens falsas em poucos minutos, cresce a preocupação com a disseminação de desinformação durante a disputa.

"A IA reduz brutalmente o custo da mentira. Antes, produzir uma fraude audiovisual convincente exigia estrutura. Hoje, qualquer grupo pequeno consegue criar conteúdo falso em escala, com aparência profissional e velocidade absurda", alerta.

Para enfrentar esse cenário, Puppe defende compromissos objetivos entre Justiça Eleitoral, plataformas digitais, partidos e candidatos. "É preciso garantir rotulagem de conteúdo sintético, rastreabilidade do impulsionamento, responsabilização pelo uso fraudulento da tecnologia e canais rápidos para contestação", orienta.

A principal decisão do próximo presidente será definir, conforme observa, qual posição o Brasil pretende ocupar na economia global da inteligência artificial. "Vamos ser apenas consumidores de ferramentas estrangeiras ou vamos desenvolver infraestrutura própria, datacenters, modelos nacionais, capacidade computacional, bases de dados qualificadas e uma política séria de formação profissional?", questiona, acrescentando que essa decisão extrapola o universo da tecnologia e alcança a soberania nacional.

"Quem controla dados, infraestrutura e modelos de IA terá vantagem econômica, política e geopolítica nos próximos anos", enfatiza

 

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postado em 29/06/2026 03:55
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