Na abertura da reunião ministerial no Palácio do Planalto, o presidente Lula voltou a abordar um problema crônico nas relações internacionais: a crise do multilateralismo. O chefe do governo brasileiro considera fundamental uma mudança na ordem mundial, marcada pela ação unilateral de grandes potências, de modo a alimentar sucessivas crises e guerras.
Lula pretende renovar o alerta para a crise do multilateralismo em breve — possivelmente, em 15 de junho. "Eu nem ia ao G7. Agora eu vou. Porque é preciso alguém tentar colocar ordem nessa coisa que está acontecendo de desmonte do multilateralismo, desmonte da democracia e desvalorização das instituições. Se a ONU não está funcionando hoje, não é destruindo a ONU que a gente vai consertar o mundo. É fortalecendo a ONU", argumentou o presidente.
Antes mesmo de assumir o terceiro mandato no Palácio do Planalto, ainda em 2022, Lula fez um giro internacional a fim de dar visibilidade à mudança eleitoral que acabara de ocorrer em uma das maiores democracias do mundo. Ficou conhecido, naquele período, o bordão "O Brasil voltou". Era um recado para o planeta de que o país reconhecido pelas belezas naturais, pela sua diversidade racial e pela cultura pacífica retornava ao circuito internacional após anos de um suposto apagão na política externa. Não seria exagero dizer que havia, ainda, uma mensagem de esperança ao mundo, de autoria do brasileiro identificado como "o cara" por Barack Obama.
Quatro anos depois, o otimismo de Lula esbarra no realismo que tem marcado as relações internacionais. O recrudescimento da guerra da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, e a eleição de Donald Trump em novembro de 2024 tornaram ainda mais desafiadora a ordem mundial. Em diversas ocasiões, até mesmo no plenário das Nações Unidas, em Nova York, Lula ficou rouco de insistir na reforma do Conselho de Segurança e em uma nova governança global, a fim de reduzir os diversos focos de tensão entre os países.
Mas o chefe do governo brasileiro tem falado para as paredes. O multilateralismo vem sofrendo sucessivos reveses, e não há sinal de contemporização. Pelo contrário: o governo Trump pretende levar adiante o lema "Make America Great Again", com medidas internas e externas que evidenciem o poderio norte-americano. A China, por sua vez, amplia a influência política à medida que o peso econômico se torna cada vez mais revelante. A Rússia mantém a histórica posição de ser um contraponto à Europa e aos Estados Unidos. E a União Europeia tenta calibrar a relação com outros atores internacionais em meio a movimentos internos, particularmente, da extrema-direita, que minam o projeto europeu.
Guerra tarifária, conflitos armados, emergência climática, combate à imigração, ameaças tecnológicas e recessão democrática tornam a conjuntura global complexa. E isso incomoda Lula. Na terceira década do século 21, a incerteza predomina na relação entre as nações. O modelo que assegurou a paz após a Segunda Guerra Mundial mostra sinais de exaustão, e os desafios contemporâneos como o avanço acelerado da tecnologia e a emergência climática demandam uma nova organização no âmbito global.
Interesse nacional
Como um novo entendimento está fora do horizonte, os governantes tendem a atuar em defesa dos interesses nacionais. Isso explica, em parte, o conjunto de medidas anunciadas pelo governo Trump. O protecionismo adotado pelo presidente norte-americano, em linhas gerais, não atinge apenas o Brasil. Representa uma política comercial defendida pelo presidente republicano desde o primeiro mandato na Casa Branca. E parte de uma premissa, controversa, de que as barreiras tarifárias auxiliarão a indústria da América.
Ameaçado por um novo tarifaço, Lula renova o discurso da soberania e reitera a disposição de se buscar um distensionamento internacional. Trata-se de uma preocupação legítima, compatível com as preocupações de um chefe de governo. Mas é, também, uma causa temporária, principalmente em caso de vitória de Flávio Bolsonaro em outubro. Claramente simpatizante do governo Trump, o pré-candidato faz questão de mostrar alinhamento ideológico com a atual administração dos Estados Unidos. E parte de ideias típicas do século 20, como a dicotomia entre direita e esquerda.
É improvável que as preocupações de Lula em relação ao multilateralismo produzam algum impacto na corrida eleitoral. No embate das urnas, será mais importante esclarecer o que o governo brasileiro tem feito para dirimir as novas ameaças tarifárias. Os adversários, por sua vez, deverão insistir na tecla de que o incumbente é responsável pela hostilidade dos Estados Unidos. São as perspectivas locais para um problema global.
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