
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro agora tem uma página e um movimento para chamar de seu. Trata-se do perfil "Imparáveis", iniciativa que, segundo interlocutores próximos, estava prevista para ser lançada apenas em 2027, no período pós-eleitoral. A reorganização interna no PL, contudo, acelerou os planos e antecipou a estreia do projeto.
A mudança ocorre poucas semanas após Michelle deixar o comando nacional do PL Mulher, estrutura que ajudou a consolidar desde 2022 e que se tornou uma das principais vitrines de sua atuação política. A reformulação promovida pela direção da legenda encerrou os trabalhos do gabinete da presidência da ala feminina e transferiu a administração das redes sociais para uma nova equipe, sob outra metodologia e agenda, encerrando um ciclo da ex-primeira-dama dentro da sigla.
Nos bastidores, a avaliação é de que a criação do "Imparáveis" representa mais do que um novo canal de comunicação. O movimento é visto por aliados como uma tentativa de preservar o capital político construído junto ao eleitorado feminino e manter uma estrutura própria de mobilização, independente das decisões internas do partido.
Em uma das primeiras publicações, o perfil afirma que "As batalhas nos fazem imparáveis. [...] Seja Imparável você também". Integrantes do antigo núcleo do PL Mulher já passaram a seguir a página e deixaram mensagens de apoio à ex-primeira-dama, sinalizando que parte da militância tende a migrar para a nova iniciativa.
Crise no clã
A antecipação do projeto também ocorre em meio a um período de desgastes na família Bolsonaro e de divergências sobre os rumos políticos do grupo. Conforme mostrou o Correio, interlocutores de Michelle demonstram crescente incômodo com a condução das articulações nacionais por parte do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A percepção entre aliados é de que o parlamentar tem concentrado decisões estratégicas sem o devido alinhamento com outros integrantes do entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O desconforto se intensificou nas últimas semanas diante de episódios envolvendo a organização da agenda política no país. Reservadamente, pessoas próximas à ex-primeira-dama avaliam que algumas costuras conduzidas pelo senador têm produzido atritos desnecessários com lideranças estaduais e reduzido o espaço de Michelle nas definições do grupo.
As divergências ficaram mais evidentes durante a passagem de Flávio Bolsonaro pelo Ceará. Enquanto o senador buscava reforçar a articulação regional da direita, aliados da ex-primeira-dama interpretaram a movimentação como mais um exemplo de decisões tomadas sem ampla construção interna, alimentando a percepção de que diferentes alas do bolsonarismo disputam protagonismo para o próximo ciclo eleitoral.
Apesar das tensões, pessoas próximas a Michelle afirmam que a estratégia não é romper com o partido, mas ampliar sua autonomia política. A aposta, segundo interlocutores, é fortalecer uma identidade própria, menos vinculada às estruturas formais da legenda e mais conectada diretamente com sua base de apoiadores, especialmente o público feminino e os segmentos evangélicos que impulsionaram sua projeção nacional.

Política
Política
Política