Especial para o Correio — Vanda Célia
É um orgulho escrever sobre os pais que tive. Ele, bem velho, calmo, contido e sempre lamentando as tentativas frustradas de endireitar as pessoas e o mundo. Ela, bem jovem, feliz e otimista, sempre rindo, e sempre acreditando que o mundo era mais azul que o céu na linha do horizonte de uma tarde de verão. É bom fechar os olhos e percorrer a fita do tempo. O tempo tem dessas coisas. As memórias aquecem o coração e a alma. Tanto que não me importo nada de estar a envelhecer.
Lembro da bonita relação do meu pai com a natureza. Ele era ecologista em um tempo que ninguém falava sobre preservação. E era genuinamente cristão no trato com os animais e com a vida. Por meio dos filhos, assegurou a continuidade e nos deixou lembranças de uma convivência extremamente amigável. Quase nunca levantou a voz ou se irritou.
Sei que minhas primeiras memórias sempre aparecem numa perspectiva feliz, dada pelos olhos da criança que era, mas, acredite, a realidade é que tive um pai antigo, mas generoso e amoroso. Um pai que soube ensinar que o amor é o único assunto da vida humana. Tudo se resume ao amor, sua presença ou sua ausência. É onde tudo converge e tudo irradia. É o que importa.
- Leia também: Cidade Nossa: O programado e a surpresa
Aliás, cada vez mais acho que a amizade segue quase as mesmas leis do amor, até na paixão e no desencanto. Amamos os nossos amigos com suavidade, persistência e desvelo. Sem amigos somos menos, menos felizes, menos completos, menos fortes, menos capazes. Mas, às vezes, como no amor, alguma coisa se parte, se quebra.
E, nesse ponto, podemos pensar: era de ti que eu gostava tanto? Era a tua voz que queria ouvir todos os dias, era a ti que queria contar tudo, era a tua opinião que eu procurava sempre? Eras tu o meu irmão?Nas sociedades humanas, como em qualquer ecossistema, o destino de uns influi no destino dos outros. Nossos amigos são parte de nós.
O que acontece na amizade, acontece no amor. Afinal, é por meio do sentimento que tentamos sobreviver um pouco mais fortes e um pouco mais humanos com nossas paixões, nossas alegrias e nossos desencantos. Não é por acaso que a passagem mais bonita da Bíblia está em 1Coríntios 13:1-7:
"Se eu tiver o dom de profecia, souber todos os mistérios e todo o conhecimento e tiver uma fé capaz de mover montanhas, mas não tiver amor, nada serei"...
"O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura os próprios interesses, não se ira, não guarda rancor".
"O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta".
Palavra de Deus Pai.
Vanda Célia Coura é jornalista em Brasília, onde trabalhou no Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Jornal da Tarde e Revista Época. Atualmente, faz assessoria de imprensa.
