Comportamento

Entre figurinhas e cartas: o encanto do colecionismo que atravessa gerações

De trocas no pátio da escola a feiras de colecionadores, o hábito de juntar figurinhas e cartas atravessa gerações, resgata memórias afetivas e conquista cada vez mais adultos dispostos a investir tempo e dinheiro

De trocas no pátio da escola a feiras de colecionadores, o hábito de juntar figurinhas e cartas atravessa gerações, resgata memórias afetivas e conquista cada vez mais adultos dispostos a investir tempo e dinheiro, na paixão pelo colecionismo.

De um lado, o fascínio por Pikachu, Charizard e um universo de criaturas que ensinam sobre amizade e aventura. D outro, a emoção de colar o último jogador no álbum da Copa e celebrar uma tradição que atravessa décadas. Seja nas cartas de Pokémon, seja nas figurinhas de futebol, o colecionismo continua encantando jovens e adultos, misturando nostalgia, paciência e uma boa dose de emoção a cada item conquistado.  

Mas o que antes era visto como uma brincadeira de troca de figurinhas no recreio escolar, hoje se tornou um universo de adultos apaixonados, que investem tempo e dinheiro — às vezes bastante — na busca por completude e memória. O hobby amadureceu, ganhou versões de luxo, comunidades organizadas e até espaços fixos de troca em feiras nerds e eventos especializados.  

Para o engenheiro de testes de software, Cast (como é conhecido nas redes), 29 anos, as cartas de Pokémon são muito mais que pedaços de papel ilustrado. São fragmentos de infância e de identidade. "Desde criança eu sempre tive fascínio pela franquia. Já tive cartinhas na época, mas acabei perdendo. Voltei a colecionar de forma mais séria em 2023", conta.  

Sua primeira lembrança é de uma carta promocional do Pokémon Celebi, distribuída nos cinemas durante a exibição do filme Pokémon 4. Hoje, ele exibe com orgulho expansões completas, como a Coroa Estelar, e algumas cartas avaliadas em milhares de reais. "Quando completei 100% de uma expansão, percebi que era o que eu queria para o meu hobby. O investimento é consequência. O que eu gosto mesmo é do colecionismo."  

Além da nostalgia, o colecionismo trouxe amadurecimento e conexões. "Aprendi sobre finanças, negociação e até habilidades sociais. Fiz muitos amigos, saio mais de casa e participo de eventos presenciais quase toda semana", diz. Cast relata que o universo Pokémon o tornou mais organizado e confiante. "É uma comunidade acolhedora. Gosto de ajudar quem está começando, por isso criei vídeos educativos nas minhas redes."  

Arquivo pessoal - Para Cast, o hobby vai além da nostalgia

Enquanto Cast cataloga cuidadosamente suas cartas, o analista de comunicação Wellington Melo, 30 anos, guarda com o mesmo carinho seus álbuns de figurinhas. Sua história começa em 2005, quando tinha 10 anos. "No Rio, quando você comprava o jornal de domingo, vinha um álbum grátis. Peguei o do Campeonato Brasileiro de 2005, e foi amor à primeira vista", recorda.  

Mesmo sem conseguir completar o primeiro álbum, "meus pais não tinham condições na época", Wellington mergulhou no mundo das figurinhas. Hoje, possui álbuns de Copas do Mundo, das Olimpíadas do Rio 2016 (evento em que foi voluntário) e até do Flamengo, seu time de coração. "Eles representam momentos que vivi. Cada álbum é um retrato de um tempo."  

Nos anos de Copa, as trocas se transformam em verdadeiros eventos populares. "Você vê 50, 100 pessoas de todas as idades trocando figurinhas. É mágico. O colecionismo transcende qualquer barreira", comenta. Ele lembra de um gesto marcante em 2018: "Faltava só uma figurinha, o escudo do Peru, fui a vários lugares tentando encontrar. Um vendedor descobriu e simplesmente me deu, sem cobrar nada".  

O analista comenta que em época de copa, as trocas são feitas online, nas redes sociais, ou indo aos lugares certos. “Aqui no Rio tem pontos certos em que são lotados, como grandes shoppings, e na Uruguaiana. Em alguns casos, troco, ou compro quando faltam 1, 2 figurinhas, e tudo feito de forma presencial. Até dentro do metrô eu já marquei para fazer trocas”.

Arquivo pessoal - O analista já investiu em álbuns de capa dura

Do pátio da escola às feiras geek  

Em uma época em que tudo parece digital, o sucesso dos álbuns e das cartas físicas mostra que o toque, o cheiro e o ritual ainda importam. O barulho ao abrir um pacote novo, a ansiedade por uma carta rara, a alegria de trocar uma repetida, são sensações que atravessam gerações.  

Nas escolas, o hábito das trocas sobrevive, mas agora tem continuidade fora delas. Muitos dos adultos que um dia sentavam no chão com bolos de repetidas hoje participam de feiras nerds, encontros de colecionadores e eventos de TCG (Trading Card Game). Nessas ocasiões, as pastas com cartas são exibidas como relíquias, e o espírito de comunidade se renova. “Algumas vezes por semana vou a lojas especializadas e participo de grupos de troca presenciais. É um espaço de amizade, não só de comércio”, explica Cast.

O preço da nostalgia  

 O hobby, porém, pode sair caro. Wellington diz que já perdeu a conta de quanto investiu nos álbuns. Para começar, investe cerca de R$ 200 para comprar os primeiros pacotes. Ele também diz que notou uma diferença de preços com relação aos anos passados. "Antigamente, um envelope custava na faixa de R$ 1 a R$1,50, mas agora chegou a R$ 6 no Mundial de Clubes deste ano." 

O crescimento do mercado também trouxe novos desafios. O aumento de preços é um dos mais sentidos por colecionadores. "Isso afasta muita gente. Mas ainda há quem colecione por amor, não por status." aponta Wellington. Cast concorda. "O mercado cresceu e é bom ver mais gente se divertindo, mas também há quem entre só pensando em lucro. É preciso equilíbrio. Colecionar é sobre prazer, não investimento."  

Apesar dos altos custos, ambos pretendem continuar colecionando por muitos anos. "Pokémon é geracional", diz Cast. "Quero colecionar com minha esposa e meus futuros filhos." Wellington compartilha o mesmo sentimento: "Enquanto estiver vivo, estarei trocando figurinhas por aí. A Copa de 2026 já está chegando!"  

 *Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

 


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