Relacionamento

Quanto tempo leva para superar um ex?

Pesquisas, relatos e especialistas explicam por que o apego emocional pode sobreviver por anos após um término de relacionamento

Não existem dois términos de relacionamento iguais. A frase pode soar como um clichê, mas resume com precisão uma das experiências emocionais mais complexas da vida adulta. Encerrar um vínculo afetivo não significa apenas deixar uma pessoa para trás, envolve romper rotinas, expectativas, projetos de futuro e, muitas vezes, uma identidade construída a dois. É por isso que, para muita gente, o fim de um namoro ou casamento pode doer tanto quanto uma dor física, mas, nesses casos, o tempo de recuperação não segue um calendário fixo.

Durante muito tempo, acreditou-se que, após o término, os laços afetivos permaneciam ativos, ainda que enfraquecidos, fazendo com que ex-parceiros continuassem, de alguma forma, a suprir necessidades emocionais um do outro. Outra linha defendia o oposto, a ideia de que esses laços são completamente abandonados e deixam de existir. Um estudo recente ajuda a entender melhor o que realmente acontece nesse intervalo entre o fim e o desapego total.

Uma pesquisa publicada em março de 2025 na revista Social Psychological and Personality Science analisou o comportamento emocional de 320 participantes que passaram por términos de relacionamento. Conduzido pelos pesquisadores Jia Y. Chong e R. Chris Fraley, o estudo buscou responder uma pergunta simples, mas difícil: quanto tempo leva, de fato, para alguém superar completamente um ex-parceiro?

Os resultados mostraram que, para a pessoa média, os laços afetivos não desaparecem de forma abrupta. Eles são gradualmente abandonados ao longo do tempo, levando, em média, 4,18 anos para se dissolverem de maneira significativa, com o ex de tornando apenas "alguém que a pessoa conhecia". 

O estudo também revelou que esse tempo não é igual para todos. A persistência do vínculo emocional é influenciada por fatores como o estilo de apego de cada indivíduo e, principalmente, o contato contínuo com o ex-parceiro. Pessoas que mantêm conversas frequentes, que seguem a vida do outro pelas redes sociais ou têm recaídas emocionais tendem a prolongar o processo de superação. Assim, embora a maioria eventualmente siga em frente, para algumas pessoas os resquícios do apego nunca desaparecem por completo.

Falta da rotina

Na prática, essa experiência é vivida de forma intensa e cotidiana, como relata Mariana Silva (nome fictício), 21 anos, estudante. Segundo ela, o término foi uma decisão conjunta, motivada pelo desgaste da relação. "O processo de término foi uma decisão dos dois porque o relacionamento já estava muito desgastado e tinha muitas brigas", conta.

Apesar do acordo mútuo, a dor veio com força depois. "O pior é a falta da pessoa no dia a dia. Eu namorei por três anos, então ele já estava inserido na minha rotina. Eu acordava dando 'bom-dia' e conversava por mensagem até dormir", relembra. Para ela, a ausência no dia a dia foi mais dolorosa do que a frustração com planos futuros que não se concretizaram.

"Eu sofri muito antes e depois também, mas acredito que depois do término eu sofri bem mais, pois senti falta de estar com a pessoa", diz. A quebra abrupta da comunicação e da convivência diária intensificou a sensação de vazio.

Questionada sobre quanto tempo levou para realmente seguir em frente, ela estima cerca de um ano a um ano e meio. "É esse tempo em média porque, antes disso, a gente ainda pensa na pessoa mesmo que nos detalhes", avalia. Ainda assim, reconhece que alguns comportamentos atrapalharam esse processo. "Eu acho que talvez o que tenha atrapalhado foi tentar saber da vida dele de qualquer forma. Por meio de fakes, sempre acompanhava as redes sociais."

Para lidar com a dor, Mariana buscou apoio nos amigos e em mudanças de hábito. "O que mais me ajudou a seguir em frente foram meus amigos", conta. A academia também se tornou um refúgio e uma ferramenta de reconstrução pessoal. "Depois do término, eu engatei muito mais nesse meio de saúde, mudança de vida, qualidade de vida." Apesar do sofrimento, ela não se arrepende da intensidade com que viveu o luto. Para ela, permitir-se sentir foi essencial para, aos poucos, deixar a dor ir embora.

Experiência semelhante viveu Henrique Almeida (nome fictício), 23 anos, estudante. Apesar do término também ter sido uma decisão comum, ele relata que sofreu mais após o fim da relação. "Senti os efeitos da abstinência da dependência emocional." Ele conta que levou cerca de oito meses para sentir que havia seguido em frente. "O que mais senti falta definitivamente foi da rotina", diz.

Ele reconhece que as recaídas e a manutenção de contato com a ex-parceira dificultaram a superação. Para ele, o que fez diferença, no fim, foi buscar ajuda profissional e retomar atividades que reforçam sua identidade individual. "O que mais me ajudou foi terapia e voltar a praticar hobbies que me faziam sentir 'eu mesmo'."

Processo de luto

Do ponto de vista psicológico, o término de um relacionamento é compreendido como um processo de luto. A psicóloga Flávia Bonani explica que não existe um tempo médio para superar alguém. "É totalmente individual", afirma. Segundo ela, algumas pessoas iniciam o luto ainda durante a relação, enquanto outras são surpreendidas por um fim inesperado e precisam de mais tempo para assimilar a perda.

As fases do término, segundo a especialista, são semelhantes às do luto tradicional, negação, barganha, raiva, tristeza e aceitação. "Essas fases não são lineares, elas podem oscilar, podem ter altos e baixos", explica. Para seguir em frente de forma saudável, Flávia recomenda terapia, falar sobre o término e buscar novas perspectivas de futuro. Manter contato constante com o ex, evitar o assunto ou se apegar a um futuro que não aconteceu são hábitos que podem prolongar o sofrimento.

A psicóloga e sexóloga Alessandra Araújo, da Clínica Via Vitae, reforça que a superação envolve a perda não apenas da pessoa, mas também do futuro idealizado. Ela explica que, para relacionamentos longos, é comum que o sofrimento mais intenso dure de seis meses a um ano, enquanto a normalização completa pode levar de um a dois anos. "O maior sinal de superação é quando o indivíduo pensa no ex sem sentir dor física ou emocional intensa", afirma.

Estratégias pós-término

Nesse contexto, a chamada "regra do contato zero" surge como uma das estratégias mais recomendadas por especialistas. "Bloqueie o ex das redes sociais, pelo menos temporariamente, e delete o número de telefone. Cortar toda e qualquer comunicação com o ex é essencial para que o cérebro pare de receber a dose de dopamina (recompensa) que a simples visualização do perfil do ex proporciona", indica Alessandra Araújo. 

Outra estratégia comum no pós-término é o que ficou conhecido como "era da vingança", não no sentido literal, mas como uma mentalidade de reconstrução pessoal. Trata-se de usar a dor como combustível para investir em si mesmo, seja por meio de novos hobbies, autocuidado, terapia, seja por mudanças de vida mais profundas, como foi exemplificado por Mariana e Henrique. Ao final desse processo, muitas pessoas percebem que o término, apesar de doloroso, foi um ponto de virada necessário.

Além disso, é importante evitar uma "última despedida" logo após o término, especialmente se o encontro for para renegociar ou buscar intimidade, pois, segundo Alessandra Araújo, o contato físico ou a intimidade emocional imediata confunde o cérebro, que interpreta o ato como reconexão e recompensa, e não como o fim. 

"A despedida só é útil se for um encontro breve, em ambiente público, focado em fechar questões logísticas (bens, documentos…) e reforçar a decisão do fim. Se a intenção é buscar conforto ou reviver a paixão, a 'despedida' só prolongará o sofrimento", ressalta a psicóloga e sexóloga.

Hábitos que atrapalham a superar o término

  • Evitar o assunto, fingir que está bem.

  • Manter contato constante com o ex.

  • Apegar-se ao futuro que não aconteceu, aquele que você sonhava que poderia viver ao lado daquela pessoa.

  • Tentar evitar o luto, como se estivesse tudo bem.

Fonte: psicóloga Flávia Bonani

Hábitos que ajudam a superar o término 

  • Contato Zero (digital e físico): cortar todo o contato com um ex por um período de tempo após o término, ou permanentemente.

  • Ressignificar o lazer: crie um cronograma de atividades que preencham os horários antes dedicados ao ex-parceiro. Comece um curso, volte para a academia, chame amigos para sair. 

  • Fazer a lista da realidade: quando a idealização bater, pegue um papel e escreva todos os motivos pelos quais o relacionamento não funcionou, incluindo os defeitos do ex e as brigas. Leia essa lista sempre que sentir saudades da "perfeição" que só existe na memória.

Fonte: Alessandra Araújo psicóloga e sexóloga da Clínica Via Vitae

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