
Quando se olha ao redor, o sentimento é de que a tecnologia tomou conta de todos os espaços. Mesas de restaurante, reuniões familiares e até mesmo aquelas saídas dominicais para tomar uma boa cerveja. Os olhares foram substituídos pelas telas, e as interações reais, pelo que parece, perderam a força. No entanto, ainda existem aqueles que resistem às mudanças do mundo, preservando o que há de melhor na vida: a beleza de rir com conhecidos e desconhecidos, de ouvir histórias e de se identificar com elas.
De certa maneira, a internet repele experiências inéditas. É como se o acaso e o orgânico dessem lugar ao imediatismo. Assim, as pessoas deixam de sair de casa para ficarem no dedilhar das telas e dos vídeos. Incomodada como isso, a nutricionista Ana Paula Calmon, 37 anos, ao lado da namorada e educadora física Nayara Monteiro, 29, criaram a comunidade Bora Viver (@boraviver.bsb), em outubro do ano passado.
O desejo veio de forma genuína, com o intuito de promover saúde para além dos protocolos tradicionais. "Ajudar as pessoas a se movimentarem mais, a saírem de casa, a se sentirem menos sozinhas — e, principalmente, a voltarem a querer viver. Sentíamos falta de um espaço onde fosse possível exercer nossa missão como profissionais da saúde de forma mais humana e coletiva, respeitando diferentes idades, corpos, ritmos e histórias", ressalta Ana Paula.
Ambas acreditam que cuidar da saúde torna qualquer processo mais leve, possível e menos doloroso. "Com isso, nasceu o Bora Viver: uma comunidade que promove saúde por meio do pertencimento, da convivência e da conexão real entre pessoas. O projeto nasceu pequeno, experimental — e continua assim. Ainda estamos no começo, mas já é possível sentir a comunidade ganhando corpo, estrutura e, sobretudo, sentido."
O primeiro encontro ocorreu no Parque da Cidade, com 11 pessoas, em um evento chamado Bora Correr para Iniciantes. A proposta era simples: cada pessoa no seu ritmo, respeitando seus próprios limites. Rostos desconhecidos, que estavam ali para tentar viver o que há de melhor no mundo real. Ao final da corrida, as organizadoras promoveram um encontro gastronômico no Lilie Pâtisserie & Boulangerie, justamente para fortalecer o vínculo, a conversa e o sentimento de pertencimento.
"Desde o início, o maior desafio tem sido a adesão, especialmente em eventos gratuitos. Muitas pessoas se inscrevem e acabam não comparecendo, o que dificulta a organização e a logística. Curiosamente, nos eventos pagos — todos com valores acessíveis — não há desistências. Isso nos permite oferecer experiências mais cuidadosas, com degustações, kits de agradecimento e parcerias com produtores e negócios locais que realmente nutrem o corpo e a experiência", destaca a nutricionista.
Vivências reais
Hoje, a comunidade conta com 168 participantes no WhatsApp e 614 seguidores no Instagram, sendo cerca de 25 pessoas ativamente presentes nos encontros. "O que mais me emociona nessa jornada é a diversidade real que se encontra: idosos caminhando ao lado de jovens de 29 anos, mulheres de 50 anos trocando experiências com meninas de 30, pessoas de diferentes gêneros, histórias, cores, orientações e realidades sociais — todas juntas, movimentando o corpo, comendo e criando vínculos verdadeiros", conta Ana Paula.
A "delícia de propiciar encontros" está justamente em ver as pessoas vivendo, o que parece nadar contra a maré, especialmente em uma era tão tecnológica, em que o outro pouco se interessa pela história de quem está à sua frente. "Não existe vida sem troca, sem relação, sem encontro. Conseguir promover saúde e pertencimento no mesmo espaço é algo profundamente transformador", detalha. De acordo com Ana Paula, uma história que representa bem isso é a de uma participante que veio de Curitiba para morar em Brasília a trabalho. Ela encontrou o Bora Viver pelo Instagram e se inscreveu no Bora Correr para Iniciantes, mesmo estando sedentária e acreditando que não conseguiria correr.
- Leia também: Amizades moldam o cérebro e influenciam decisões de consumo, revela estudo
- Leia também: Amizades adultas: Afeto político e rede de sobrevivência emocional
"Disse que se sentiu encorajada ao ver, nos vídeos, pessoas de diferentes corpos e ritmos. No dia do encontro, chegou cheia de medos e bloqueios. Ela não correu, não trotou — caminhou. E foi acolhida. No fim, nos contou que aquela havia sido a primeira vez que se sentiu bem em um evento social desde que chegou à cidade. Aquilo foi simbólico. Aquilo foi pertencimento", finaliza. Com o crescimento exponencial, agora a comunidade promove diversos tipos de encontros.
Isso, de alguma maneira, simboliza que elas estão no caminho certo. "Temos o Bora Comer, Bora Correr (Iniciantes), Bora de um Café ao Outro, Bora Cozinhar, Bora Conversar, Bora Correr 10km, Bora Jogar, Bora Funcional, Bora Trilhar, Bora Plantar e Bora Dançar. Os encontros ocorrem toda semana, sendo ao menos um gratuito por mês. Os demais têm valores variados e acessíveis. "As atividades são abertas a pessoas de todas as idades. Para participar, basta acessar o link disponível na bio do Instagram (@boraviver.bsb), que direciona para a Comunidade no WhatsApp", completa.
O valor da conexão
Quando as histórias são partilhadas, boa parte das experiências são justificadas. É como se encontrar alguém parecido fizesse as distâncias sentimentais diminuírem. A psicóloga Andrea Chaves reforça que grupos de amizade cumprem um papel central na saúde emocional, especialmente em contextos de solidão urbana e de transição de vida. Para ela, amizades construídas em grupo exigem habilidades emocionais constantes, já que a convivência prolongada envolve diferenças, conflitos e a necessidade de negociação afetiva.
"Manter amizades ativas, presenciais e de longa data envolve muita habilidade emocional. Em grupos, você vai precisar perdoar, aprender a lidar com a diversidade e resistir às frustrações, porque a convivência coletiva exige maturidade emocional", afirma. Segundo Andrea, vínculos que se sustentam ao longo do tempo fortalecem a capacidade de lidar com adversidades e ampliam a tolerância às diferenças.
Ela aponta que a dificuldade contemporânea de manter amizades faz com que muitos vínculos se tornem descartáveis, o que impacta diretamente a saúde mental. "Quando as pessoas não conseguem sustentar relações, isso gera baixa resistência à frustração e alterações na percepção de valor e de sentido", explica.
No caso de grupos organizados, o impacto é ainda mais profundo. A psicóloga destaca que estar em grupo amplia habilidades de comunicação, convivência e pertencimento. "Sair para praticar uma atividade junto, estar em comunidade, influencia nas habilidades conversacionais e de interação. São aprendizados que só acontecem quando você está em comunhão com outras pessoas", diz a profissional.
Andrea ressalta que grupos de amizade também funcionam como redes de apoio fundamentais para a construção de expectativa de futuro. Ela explica que a sensação de ter com quem contar fortalece a segurança emocional e reduz o peso das inseguranças em momentos de mudança. "A expectativa de futuro se constrói nas relações. Saber que, diante de uma dificuldade, alguém vai pegar na sua mão, faz diferença", afirma.
Para a psicóloga, em fases de transição, como mudanças de cidade, identidade ou rotina, os grupos ajudam a atravessar esses períodos de forma mais saudável. "Quando você pode dividir a carga emocional, o caminho fica menos solitário. Grupos de amizade funcionam como uma rede de apoio real e ajudam as pessoas a transitar entre diferentes estações da vida", conclui.
Entre copos e conversas
O que começou com um vídeo despretensioso no TikTok transformou-se em um movimento de resistência à solidão digital em Goiânia e Brasília. O Clube do Litro (@clubedolitro), criado pela corretora de imóveis Thauana Martins Machado, 37 anos, nasceu de uma piada: um clube do livro em que a única regra era não precisar ler, apenas compartilhar uma cerveja e boa conversa.
Desde novembro de 2024, a iniciativa provou que a sede do brasileiro não é apenas por bebida, mas por conexão real em tempos de interações descartáveis. Diferentemente dos aplicativos de relacionamento, em que o foco é o par romântico, o Clube do Litro nasceu para ser um celeiro de amizades. Um lugar para que as pessoas pudessem se conhecer e compartilhar histórias de vida.
Embora casais tenham se formado naturalmente, Thauana mantém regras claras para preservar o ambiente: nada de propagandas, nada de conteúdo impróprio e foco total na convivência. "O início foi um desafio de transformar desconhecidos em conexões de verdade. No primeiro encontro, em Brasília, eram 80 pessoas que nunca tinham se visto. Hoje, já reunimos mais de 300 em um único evento", conta a fundadora.
Uma ferramenta contra a depressão
Para além do entretenimento, o grupo assumiu um papel social inesperado. Entre um brinde e outro, os relatos de transformação pessoal emocionam e acalentam. A fundadora revela que é comum ouvir de participantes que o grupo foi um "salvador" em quadros de depressão, luto por divórcios ou na adaptação de quem acaba de mudar para uma cidade nova e não possui rede de apoio.
Dessa forma, a dinâmica é viva: além do encontro oficial mensal, os membros se organizam semanalmente de forma orgânica. "O grupo vive realmente. Praticamente toda semana tem gente se encontrando em algum bar", explica.
Apesar do nome sugestivo, a fundadora faz questão de desmistificar o papel da bebida. O álcool é descrito como uma "desculpa" para as reuniões. Muitos membros não bebem e participam ativamente pela troca de experiências e conexões que podem ser criadas a partir desses encontros.
Em um mundo no qual a vida parece acontecer dentro de feeds infinitos, o Clube do Litro surge como um lembrete de que o "olho no olho" e a risada espontânea ainda são os melhores remédios contra o isolamento. "Nada substitui a presença de verdade. O foco é criar pertencimento e lembrar que a vida acontece fora da tela", acrescenta Thauana.
Rede de afeto
Como forma de conectar, empoderar e criar redes de apoio entre mulheres, nasceu a (@elashub.bsb), comunidade idealizada por Mariana de Souza Figueiredo, 24. Fundadora e presidente do grupo, ela é responsável pela criação, organização e direcionamento do espaço, pensado para acolher mulheres em diferentes fases da vida. Mais do que encontros sociais, a proposta é construir pertencimento, escuta e fortalecimento coletivo. A liderança ativa dela sustenta uma comunidade viva e em constante transformação.
A ideia do grupo surgiu a partir de uma experiência pessoal de solidão. Em março de 2024, após se mudar para Brasília para abrir uma cafeteria, Mariana se viu sem vínculos na cidade. A identificação veio de forma inesperada, ao perceber, nos comentários de um vídeo no TikTok, que muitas mulheres compartilhavam do mesmo sentimento. A comunidade nasceu como tentativa de preencher um vazio individual e rapidamente se transformou em uma resposta coletiva a uma dor comum.
"Eu me vi completamente sozinha. Em abril de 2024, navegando no TikTok, vi uma menina de Brasília que mostrava rolês legais e pensei: 'eu queria estar ali, mas não tenho com quem ir'. Entrei nos comentários e percebi que muitas mulheres se sentiam exatamente da mesma forma. Criei o grupo para tentar resolver minha solidão e ele acabou se tornando algo muito maior", comenta.
Atualmente, a ElasHub reúne cerca de 600 mulheres, mas o foco não está nos números. A rotatividade é natural e incentivada, como forma de manter o grupo ativo e participativo. A lógica da comunidade prioriza presença, envolvimento e troca real. Para Mariana, mais importante do que crescer é garantir que as conexões criadas sejam genuínas e sustentáveis ao longo do tempo.
Os encontros são um dos principais diferenciais do grupo. Espalhados por diferentes regiões da capital, eles ocorrem de forma simultânea e acessível, evitando grandes deslocamentos. As atividades vão além do lazer e incluem cafés, trilhas, exercícios físicos, ações voluntárias e, futuramente, cursos e iniciativas formativas. A diversidade de formatos e valores busca garantir que todas possam participar dentro de suas realidades.
"Criamos grupos locais, para aproximar mulheres que moram perto, e eventos simultâneos, para que ninguém precise atravessar a cidade. Também pensamos muito nos custos. Normalmente são quatro eventos por mês, com valores variados, do mais acessível ao um pouco mais elaborado, para que todas consigam participar dentro da sua realidade", explica. Com regras claras e organização definida, a ElasHub se apresenta como uma rede de apoio feminina. Respeito, escuta, atividade e hierarquia fazem parte dos combinados que sustentam o grupo.
Pertencer pelo esporte
Se na ElasHub a amizade nasce como resposta à solidão e se transforma em uma rede de cuidado entre mulheres, no T Mosqueteiros (@sctmosqueteiros) o pertencimento também surge da necessidade de existir com segurança. Em comum, os grupos compartilham a busca por espaços onde o afeto seja elo e a presença não precise ser explicada. A força do encontro aparece como elemento central na construção de vínculos.
O grupo surgiu como resposta às barreiras enfrentadas por pessoas transmasculinas em espaços tradicionalmente excludentes. Um dos fundadores do coletivo é Tatto Oliveira, 46 anos, que acompanha desde o início a construção do grupo. O que começou como um time de futebol se consolidou, ao longo do tempo, como um espaço de convivência, apoio e fortalecimento coletivo.
A ideia nasceu em 2019, durante rodas de conversa realizadas no Centro de Cidadania LGBTI Laura Vermont, equipamento da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo. Naquele contexto, o debate sobre o acesso de pessoas trans ao esporte evidenciou o impacto positivo da prática esportiva na saúde mental e no convívio social. O futebol apareceu, então, como uma ferramenta de inclusão e criação de vínculos.
Atualmente, o T Mosqueteiros conta com 53 pessoas no time oficial e outras 101 que participam de forma eventual ou demonstram interesse em integrar o grupo. A organização é feita por uma comissão interna, responsável por diferentes frentes, como encontros presenciais, treinos, eventos e ações de apoio social. Os treinos ocorrem na Nossa Arena, na Barra Funda, São Paulo, local que desde 2022 se tornou a casa do time e um ponto de fortalecimento do futebol inclusivo.
O funcionamento do grupo é sustentado por regras claras, baseadas no respeito e na convivência segura. Não são toleradas práticas de LGBTfobia, racismo, violência ou qualquer forma de discriminação. Para participar dos treinos, é necessário compromisso com o coletivo, frequência e atenção à própria saúde. A principal diretriz é a conexão entre os integrantes e a responsabilidade com as pessoas que fazem parte do grupo.
Para Tatto, jogar em um espaço pensado para pessoas trans muda completamente a experiência esportiva. "Não se preocupar se alguém vai me tirar de dentro de um banheiro. Ter a segurança de saber que é um lugar onde a ideia principal é praticar esporte e socializar." Segundo ele, as transformações percebidas ao longo do tempo vão além do campo. "É de tudo um pouco. Vivências pessoais com as mudanças hormonais no corpo, viver essas vitórias juntos e até a melhora no convívio com a família, que pode parecer simples, mas impacta diretamente a vida dessas pessoas", conta.
Com o passar do tempo, o que nasceu como um time também se tornou um espaço de amizade e acolhimento. Jogar em um ambiente pensado para pessoas trans elimina medos cotidianos e permite que o foco esteja no esporte e na socialização. Fora das quatro linhas, o grupo fortalece vínculos, autoestima e trajetórias individuais.
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

Revista do Correio
Revista do Correio
Revista do Correio