
Há quem defenda que conflitos amorosos também têm prazo de validade. É dessa lógica que nasce a chamada “regra das 24 horas”, conceito que viralizou nas redes sociais como uma forma de conter discussões longas e preservar relacionamentos em crise. O princípio é: se algo que o parceiro fez te incomodou, isso deve ser comunicado em até 24 horas.
Passado esse período, a orientação seria deixar o assunto morrer. Para muitos internautas, a estratégia funciona como um freio emocional, evitando mensagens impulsivas e confrontos desnecessários. "Isso me ajudou muito. Descobri que ignorar alguém por 24 horas para poder me acalmar é muito melhor do que reagir de forma exagerada e enviar uma mensagem emocional", relatou um internauta em um vídeo sobre o tema.
Outro internauta reforçou: “Uso esse método há anos. Funciona sempre. Só para constar, às vezes você precisa de 48 horas e isso não tem problema.” Já um terceiro acrescentou: “Aprendi isso nos últimos anos. É melhor esperar e processar a situação antes de discutir. Responder de imediato magoa as pessoas.”
Apesar da popularidade, especialistas alertam que a regra está longe de ser uma solução universal. Para a terapeuta de casais Krista Norris, o limite de tempo pode ser útil em contextos específicos. “Para casais que habitualmente evitam conflitos ou reprimem suas emoções, um limite de tempo pode funcionar como uma estrutura saudável de responsabilização”, afirmou em entrevista ao The Post. Segundo ela, isso ajuda a evitar que o ressentimento se acumule de forma silenciosa.
Ainda assim, Norris ressalta que prazos rígidos podem ser prejudiciais, especialmente quando um dos parceiros se sente pressionado a conversar antes de estar emocionalmente regulado. Como ela própria resume: “A regulamentação deve vir antes da resolução.”
A psicoterapeuta Sanya Bari concorda e aponta que antecipar conversas delicadas pode piorar o cenário. “Forçar uma ‘conversa de 24 horas’ tarde da noite, após um dia de trabalho estressante, muitas vezes leva a uma postura defensiva ou a dizer coisas que você não queria dizer — e não a uma resolução”, explicou ao The Post. De acordo com especialistas, essa pressão é ainda mais arriscada em relações marcadas por traumas, desequilíbrios de poder ou problemas de confiança não resolvidos.
A psicóloga e sexóloga Alessandra Araújo explica que, durante os momentos emocionais, a amígdala pode tomar as rédeas da conversa, levando a falas agressivas das quais nos arrependemos depois. “A regra ajuda a regular emoções quando o objetivo é limpar o ruído da raiva para que a mensagem central (a mágoa) seja ouvida. Se eu falo no calor do momento, o parceiro foca na minha agressividade e não no motivo da minha dor”, acrescenta.
Por outro lado, pode virar silenciamento se, após as 24 horas, a pessoa decidir que "não vale mais a pena falar" só para evitar o desconforto do confronto. “O conflito não resolvido não desaparece; ele apenas se transforma em ressentimento silencioso”, argumenta Alessandra. Assim, a tática funciona melhor para perfis impulsivos ou com tendência à reatividade, cujo córtex pré-frontal (o lado racional) volta a operar após a mágoa, podendo ser prejudicial para pessoas com apego ansioso e evitativo — gerando uma ansiedade paralisante, taquicardia e pensamentos catastróficos, ou usando o dia como uma desculpa legítima para nunca mais tocar no assunto.
Ainda existe um risco da dúvida da própria percepção durante o período. Alessandra justifica que a intensidade da dor diminui naturalmente, e a pessoa pode pensar: "Ah, eu estava sendo sensível demais, deixa para lá". “O problema é que, se o comportamento do parceiro que causou a mágoa se repetir, aquela dor guardada voltará acumulada. A pausa deve servir para mudar a forma da conversa, não para cancelar o conteúdo dela”, diz.
Caso a regra das 24 horas não pareça uma boa opção, Alessandra sugere alternativas mais flexíveis:
- O "check-in" de temperatura: Em vez de 24 horas, pergunte: "Em que nível de 0 a 10 está sua calma para falarmos disso?". Se ambos estiverem acima de 7, a conversa acontece.
- A pausa de 20 minutos: A ciência mostra que o corpo leva cerca de 20 a 30 minutos para metabolizar a adrenalina de uma discussão. Às vezes, meia hora de caminhada ou um banho já são suficientes para retomar o diálogo sem o peso de um dia inteiro de espera.
- Escrita terapêutica: Durante a espera, escreva o que sentiu. Isso ajuda a organizar os fatos e retira a carga explosiva da fala.
“A regra de ouro não é o tempo de espera, mas a responsabilidade afetiva. Se você pede tempo, você é o responsável por trazer o assunto de volta quando estiver calmo”, conclui. No fim das contas, mais importante do que cumprir um cronômetro de 24 horas é saber quando pausar, respirar e escolher o melhor momento para comunicar o problema.
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@helpmeharlan Life Tip 972: Follow the 24-Hour Rule #lifetip #conflict #clarity ? original sound - Harlan Cohen
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