
Em um mercado cada vez mais acelerado, a Lourie escolhe caminhar na contramão da obviedade. A marca paulista aposta na construção minuciosa, na força dos materiais e na precisão do caimento para criar peças que não dependem de grandes estampas ou discursos evidentes para se destacar. A identidade nasce na estrutura, com volumes amplos, alfaiataria repensada e detalhes que funcionam como código interno de reconhecimento.
Criada por Michaela Guizardi e Stephanie Sahyoun ainda na faculdade, a marca surgiu de maneira quase que natural. A primeira coleção foi pensada a partir da parceria criativa que as duas já cultivavam. “Ela já tinha uma marca de customização e eu sempre participei muito do processo criativo. A gente estava na faculdade e falou, de forma super despretensiosa: vamos fazer uma coleção juntas?”, conta Michaela. O nome veio de uma persona imaginária que representaria o espírito da marca. “Foi super orgânico, sem investimento alto, poucas peças, sem seguir calendário. A marca foi crescendo assim.”
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No início, eram apenas duas coleções por ano. Hoje, os lançamentos são mensais. “A gente brinca que tem um ano que leva mais a sério e chama de marca mesmo”, afirma Stephanie, lembrando que a profissionalização veio junto com a loja física e o site estruturado.
A Lourie nasceu voltada ao feminino, mas a modelagem ampla abriu espaço para outras possibilidades. “A nossa modelagem sempre foi muito oversized. Algumas peças pensadas para o feminino começaram a ser usadas por homens”, diz Stephanie. Atualmente, cerca de 30% da coleção é unissex, incluindo jeans e camisetas. Mesmo assim, a proposta não é dividir por gênero. “A gente não acredita muito em fazer uma área masculina. Gostamos de trabalhar com peças mais largas, com uma silhueta mais quadrada”, explica Michaela.
Os tecidos são parte central da identidade. A escolha prioriza fibras naturais e processos mais conscientes. “A gente evita ao máximo tecidos sintéticos, como poliéster. Procura fibras naturais pelo caimento, pelo toque e também pela sustentabilidade”, afirma Michaela. Segundo ela, além do visual, a durabilidade e a decomposição mais fácil das fibras naturais pesam na decisão.
O cuidado com o acabamento é outro diferencial. Stephanie destaca que o foco vai além da estética imediata. “A gente presta muita atenção nos detalhes e quer que a cliente tenha a roupa durante muitos anos. Costura, tecido, tudo precisa estar perfeito. ”A personalidade da marca aparece de forma sutil. “Raramente você vai ver uma estampa. Vai ver mais detalhes: botões, aviamentos, coisas personalizadas para a identidade da marca”, diz Stephanie. Michaela complementa: “A gente ama um bom básico, uma alfaiataria com corte bonito, um jeans que caia perfeitamente. E sempre adiciona um detalhe, como um bordado no bolso ou um botão que a gente desenha.”
Mesmo com lançamentos frequentes, a Lourie busca manter uma lógica atemporal. “A gente procura trabalhar com o mais clássico possível para que a roupa não seja descartada por tendência”, explica Michaela. O processo criativo parte de referências já consolidadas, reinterpretadas para o presente.
Para Stephanie, os detalhes ajudam a garantir essa permanência. “Nunca é algo que você vai olhar e pensar que daqui a um ano não quer mais usar. Os detalhes são pequenos e pensados para não ficarem ultrapassados.”
A marca também analisa tendências, mas com filtro próprio. “Quando vê algo vindo, como renda, por exemplo, a gente pensa em como transformar isso em algo atemporal, que fique no armário e não canse em seis meses”, afirma Michaela.
Entre os próximos passos está a criação da linha Limited Edition, uma subcoleção com materiais ainda mais exclusivos. “São tecidos que seriam inviáveis para a coleção inteira, como organza de seda pura ou um matelassê importado. A gente trouxe isso como peças mais premium, com etiqueta diferenciada”, explica.
O crescimento, segundo elas, continua orgânico. “A gente não tem um ‘daqui a um ano quero estar em tal shopping’. Vai muito conforme o que está acontecendo”, diz Stephanie. Ainda assim, a ambição é clara: “A gente quer muito crescer e atingir novas pessoas.”
Com 24 e 25 anos, as fundadoras reconhecem o aprendizado constante. “Como a gente é muito nova, está aprendendo muita coisa no dia a dia”, destaca Stephanie. Entre tentativa e construção, a Lourie consolida uma linguagem própria, marcada menos pelo excesso e mais pela intenção.

Revista do Correio
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