Essencial para o funcionamento do corpo, o fígado atua de forma silenciosa na desintoxicação do organismo, no metabolismo e na digestão. Ainda assim, hábitos comuns do dia a dia, como alimentação desequilibrada, uso excessivo de medicamentos e consumo frequente de álcool, podem comprometer sua saúde. Por emitir poucos sinais quando está sobrecarregado, o cuidado com o órgão exige atenção constante.
Segundo a médica hepatologista e gastroenterologista Carolina Augusta Matos, o fígado é considerado um órgão silencioso porque não possui terminações nervosas internas. "Ele não costuma doer, e a dor é uma das principais manifestações que fazem as pessoas procurarem atendimento médico", explica. Além disso, o órgão apresenta alta capacidade de adaptação, compensação e regeneração, o que permite que continue funcionando mesmo quando lesionado. Por esse motivo, o diagnóstico de doenças hepáticas costuma ocorrer em fases mais avançadas, seja por agressões prolongadas pelo álcool, infecções virais como hepatite B e C, seja pela esteato-hepatite.
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Na prática clínica, muitos diagnósticos surgem a partir de exames de rotina. "É muito comum a gente fazer o diagnóstico por causa de um exame alterado", diz Carolina. Alterações em exames laboratoriais, testes de triagem para hepatites virais, doações de sangue ou exames de imagem solicitados por outros motivos podem revelar sinais de doença hepática. Em ultrassonografias, por exemplo, já é possível identificar gordura no fígado, alterações anatômicas compatíveis com cirrose e sinais indiretos de doença avançada, como o aumento do baço.
Apesar da conhecida capacidade de regeneração do fígado, Carolina alerta que agressões crônicas e prolongadas podem levar a um ponto irreversível. "Chega um momento em que o fígado não consegue mais se regenerar." Assim, para manter o fígado saudável ao longo do ano, a médica recomenda evitar o consumo excessivo de álcool, controlar o peso corporal, praticar atividade física regularmente e adotar uma alimentação equilibrada. O controle de doenças como diabetes, hipertensão e colesterol elevado também é essencial. Outro ponto de atenção é a automedicação e o uso indiscriminado de suplementos. "Muitos chás, fitoterápicos, anabolizantes e medicamentos manipulados para emagrecimento podem ser tóxicos para o fígado", alerta.
Sinais de que algo não vai bem
Os sintomas nem sempre aparecem logo de início, mas, quando surgem, geralmente indicam fases mais avançadas da doença hepática.
- Olhos amarelados (icterícia)
- Aumento do volume abdominal por acúmulo de líquido
- Cansaço excessivo
- Náuseas
- Dores ou desconforto abdominal
- Urina escura e fezes claras
- Hematomas com facilidade
- Perda de apetite
- Febre e alterações na coloração da pele
- Sangramentos sugestivos, como nas gengivas ou no trato digestivo
- Alterações neurológicas, como confusão mental
Prevenção
- Evitar o consumo excessivo de álcool
- Controlar o peso corporal
- Praticar atividade física regularmente
- Adotar uma alimentação equilibrada
- Manter o controle de doenças como diabetes, hipertensão e colesterol elevado
- Evitar a automedicação e o uso indiscriminado de suplementos
- Manter as vacinas em dia, especialmente contra hepatites
- Realizar acompanhamento médico periódico
- Evitar o consumo excessivo de chás, fitoterápicos, anabolizantes e medicamentos manipulados para emagrecimento
Fonte: Nathália Trevizoli, médica hepatologista
Os mais vulneráveis
- Obesos
- Diabéticos
- Pessoas com colesterol elevado
- Indivíduos que consomem álcool com frequência
- Pessoas com histórico de hepatite viral
- Quem faz uso crônico de medicamentos
- Pacientes com doenças autoimunes
- Pessoas com histórico familiar de doenças no fígado
Fonte: Nathália Trevizoli, médica hepatologista
Exames fundamentais para detectar problemas no fígado
- TGO (AST) e TGP (ALT)
- Gama-GT (GGT)
- Fosfatase alcalina (FA)
- Bilirrubina (total e frações)
- Albumina
- Tempo de protrombina (TP/INR)
- Ultrassonografia abdominal
- Elastografia hepática (FibroScan)
- Sorologias para hepatites virais (A, B e C)
Doenças mais comuns
- Esteatose hepática (gordura no fígado): associada ao sobrepeso, à má alimentação, ao sedentarismo e a doenças como diabetes e colesterol alto
- Hepatites virais (A, B e C): infecções causadas por vírus que podem evoluir de forma silenciosa por anos
- Hepatite alcoólica: inflamação do fígado provocada pelo consumo excessivo e prolongado de álcool
- Cirrose: estágio avançado das doenças hepáticas crônicas, caracterizado pela perda progressiva da função do órgão
- Lesão hepática por medicamentos ou suplementos: causada pela automedicação ou pelo uso prolongado e indiscriminado de remédios, chás, fitoterápicos e anabolizantes
- Câncer de fígado: geralmente associado à cirrose e a doenças hepáticas crônicas não tratadas
Tratamentos
O tratamento varia de acordo com a causa, o estágio da doença e as condições de saúde do paciente. Em muitos casos, a intervenção precoce evita a progressão para quadros mais graves.
- Mudança de hábitos, com redução ou suspensão do álcool
- Alimentação equilibrada e prática regular de atividade física
- Controle de doenças associadas, como diabetes, obesidade e colesterol alto
- Uso de medicamentos específicos, como antivirais para hepatites
- Suspensão ou ajuste de medicamentos tóxicos ao fígado
- Acompanhamento médico com exames periódicos
- Transplante de fígado, indicado apenas em casos avançados
Palavra do especialista
O consumo ocasional de álcool em grandes quantidades pode causar danos permanentes ao fígado ou o risco está apenas no uso frequente?
Essa é uma dúvida muito comum e importante. O risco não está apenas no uso frequente, mas também no consumo ocasional de grandes quantidades de álcool. Esse tipo de ingestão pode causar inflamação aguda do fígado, aumento abrupto das enzimas hepáticas e piora de uma gordura hepática já existente. Na maioria das pessoas saudáveis, esse dano tende a ser reversível. No entanto, em quem já tem esteatose hepática, obesidade, diabetes ou faz uso crônico de medicamentos hepatotóxicos, o impacto pode ser mais intenso e cumulativo, acelerando a progressão da doença hepática ao longo do tempo. Não é apenas a frequência que importa, mas também a dose e o contexto metabólico.
Após períodos de excesso, o que de fato ajuda o fígado a se recuperar?
O fígado tem uma grande capacidade de regeneração, desde que receba as condições adequadas. O principal passo é suspender o consumo de álcool, mesmo que temporariamente, para reduzir a sobrecarga do órgão. Além disso, manter uma boa hidratação, adotar uma alimentação equilibrada, rica em alimentos naturais e com baixo teor de gordura e ultraprocessados, faz muita diferença. Um sono de qualidade também é fundamental, assim como a retomada gradual da atividade física, mesmo que de forma leve. Outro ponto essencial é evitar a automedicação, principalmente o uso frequente de analgésicos e anti-inflamatórios, que podem ser tóxicos para o fígado quando usados sem orientação médica.
Quais práticas são mitos quando o assunto é “limpar” ou desintoxicar o fígado?
É mito acreditar em detox com chás, sucos ou produtos milagrosos que prometem ‘limpar o fígado’. Essas fórmulas não têm respaldo científico e, em alguns casos, podem até ser prejudiciais. Também não é correto pensar que é possível compensar excessos com jejuns prolongados ou dietas radicais, que acabam sobrecarregando ainda mais o organismo. O fígado não precisa de produtos específicos para se desintoxicar, ele precisa de hábitos saudáveis mantidos de forma contínua. A recuperação do fígado acontece com acompanhamento médico e mudanças reais no estilo de vida, não com soluções rápidas.
Daniela Carvalho é médica hepatologista e doutora em Ciências da Saúde, com atuação na clínica Gastrocentro
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte
