Comportamento

O preço do topo: quando a ambição pode virar doença?

A busca incessante por sucesso e status pode mascarar transtornos psicológicos, gerando ciclo de dependência química no cérebro

O desejo pelo sucesso é a linha de chegada para muitas pessoas. Isso, em inúmeras áreas, não somente a profissional. Hoje, no entanto, a linha que separa o desejo saudável de crescer da obsessão patológica pela prosperidade está cada vez mais tênue. Em uma sociedade que prioriza a profissão como o principal marcador de identidade, a ambição — antes vista apenas como combustível para a evolução — tem se transformado em fonte de sofrimento, isolamento e adoecimento físico. 

Segundo especialistas em saúde mental, o fenômeno não é apenas individual, mas o reflexo de um modelo social que incentiva a autoexploração e a competitividade tóxica. Recentemente, um grande astro do cinema, o ator Timothée Chalamet, estrelou o longa Marty Supreme. Ele, inclusive, é um dos francos favoritos ao Oscar de Melhor Ator. No filme, seu personagem carrega o sonho de se tornar um dos melhores mesatenistas do mundo. 

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E para alcançar esse tão famigerado topo, acaba vivendo situações de extremo risco, deixando a família e os amigos em contextos perigosos. Assim, fica o questionamento: qual é o limite entre o sucesso e o esgotamento mental? Até onde as pessoas podem ir, de maneira saudável, rumo àquilo que preenche seus corações? Para o psicanalista e professor de psicologia na Uniceplac Paulo Henrique Roberto, a centralidade do trabalho no imaginário moderno é o primeiro passo para esse desequilíbrio. 

"Não há quem não busque sucesso desenfreadamente. Pense no modo como nos apresentamos pela primeira vez para um novo conhecido — pela profissão, pelo que fazemos", observa. De acordo com o psicanalista, essa busca incessante deixa marcas profundas na clínica contemporânea. "Temos atendido inúmeras queixas de sentimentos de vazio, solidão, medo, cansaço e exaustão. São sujeitos esvaziados de sentido porque nunca estão satisfeitos", explica Roberto.

Ainda na visão do psicanalista, há determinados pontos, presentes nesse debate, que não podem ser esquecidos. Essa discussão precisa levar em conta a forma como o capitalismo molda as relações, principalmente, no contexto de trabalho. "Esse sistema forjou distanciamento e criou a concepção do 'sonho americano', no qual somos todos capazes de termos tudo que almejamos, embora o outro em nossa narrativa seja o vilão", explica. 

Desse modo, para conquistar tudo o que se deseja, não importa de quem o indivíduo precise se livrar, dado o contexto de competitividade. "Não se trata meramente de uma questão patológica, não é só isso, trata-se dos modelos relacionais estabelecidos em ambiente de pura hostilidade", acrescenta. Portanto, fato é que, tanto no filme quanto na vida real, os sacrifícios naturais em busca das próprias aspirações podem, em algum momento, serem postos em cenários doentios e prejudiciais ao corpo e à saúde mental.

O vício na antecipação

A ciência explica que esse comportamento altera o funcionamento cerebral, criando uma espécie de "dependência química" de conquistas. O sistema de recompensa passa a funcionar em um ciclo vicioso de dopamina. "O sujeito apresenta picos dopaminérgicos cada vez mais curtos com rápida habituação. O prazer se desloca para a antecipação, nunca após a conquista. Assim, há excitação plena no planejamento e vazio imediato após o sucesso", detalha Paulo Henrique Roberto.

O doutor em psicologia Vladimir Melo corrobora com essa análise, destacando que o ambiente de trabalho moderno funciona como um esquema de estímulos e recompensas constantes. "Existem situações que criam expectativas cada vez maiores e que nos levam a trabalhar sem parar. Como diz o filósofo Byung-Chul Han, nos exploramos sem a necessidade de uma outra pessoa para fazer esse papel", pontua.

Embora a ambição possa ser um traço de personalidade, em muitos casos ela surge como sintoma secundário de quadros clínicos mais complexos. Vladimir Melo esclarece que, no transtorno de personalidade narcisista, a busca por poder vem acompanhada de falta de empatia, necessidade constante de ser admirado e excessivo investimento na própria imagem.

Já Roberto aponta que, em pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), a ambição pode se tornar um comportamento obsessivo e busca por performance exacerbada, em que o indivíduo nunca sente que a atividade que realiza é suficiente. "Então, há exigência contínua em melhoria, o que pode causar sofrimento para o sujeito que cobra um alto grau de expectativa sobre si e sobre o mundo."

O corpo pede socorro

Quando a mente não consegue "desligar" da busca pelo topo, o corpo costuma manifestar o estresse de forma sintomática. De acordo com Vladimir Melo, cada indivíduo possui um "órgão alvo" que sofre as consequências dessa pressão constante. Para os especialistas, o marcador claro da transição para a patologia é quando o desejo de crescer invade todos os espaços da vida e prejudica as relações interpessoais.

"A ambição é saudável quando representa vontade de evoluir. No entanto, quando se ignora regras, a saúde física ou mental de colegas e se torna uma obsessão, a pessoa entrou numa dinâmica tóxica e deve receber assistência", finaliza.

Manifestações físicas comuns do estresse por ambição 

Doenças de pele: Psoríase, dermatites e vitiligo.

Problemas respiratórios: Crises de asma e rinite.

Distúrbios neurológicos: Enxaquecas crônicas e insônia.

Doenças autoimunes: Relatos frequentes em pacientes sob alta pressão.

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