Comportamento

O algoritmo do desespero: os danos causados pelo vício em jogos de azar

O vício em jogos de azar virou motivo de saúde pública no Brasil. O Ministério da Saúde acaba de lançar um guia de cuidados que formaliza o tratamento dos dependentes como prioridade do SUS

O vício em jogos de azar pode destruir famílias e minar a autoestima do indivíduo
     -  (crédito: Freepik/ Seva Levitsky)
O vício em jogos de azar pode destruir famílias e minar a autoestima do indivíduo - (crédito: Freepik/ Seva Levitsky)

As promessas de renda extra e ascensão social. O peso das dívidas atravessando a felicidade do lar e destruindo famílias. Quando parece que não existem mais alternativas, muitos recorrem a caminhos sem saída. Nos últimos anos, a dependência em jogos de azar cresceu de maneira exponencial, especialmente com o surgimento de inúmeras plataformas virtuais. O que era considerado "entretenimento", agora, pode causar sérios prejuízos psicológicos e emocionais. 

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E o que era uma brincadeira de celular tornou-se uma crise sanitária nacional. O Ministério da Saúde lançou, no dia 23 de janeiro, o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, um documento que formaliza o tratamento do vício em apostas como uma prioridade do Sistema Único de Saúde (SUS). Entre 2018 e 2025, os atendimentos relacionados ao jogo patológico explodiram, evidenciando um rastro de destruição financeira e emocional.

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O documento oferece orientações práticas para as equipes da rede pública, especialmente da Rede de Atenção Psicossocial (RAPs), reforçando que o cuidado deve ser feito de forma integrada, desde a atenção primária até os Centros de Apoio Psicossociais (CAPs), hospitais e serviços de urgência, conforme a gravidade de cada caso.

Diferentemente da dependência química, em que o gatilho é uma substância externa, o vício em jogos (ludopatia) opera por meio da "incerteza". Segundo o psiquiatra Alexandre Valverde, referência em dependências comportamentais, o cérebro do apostador libera dopamina na expectativa da vitória, criando um ciclo idêntico ao de drogas como a cocaína. "A questão é que, com o tempo, a pessoa fica acostumada com esse disparo de dopamina e ela precisa cada vez de mais estímulo para conseguir ter aquela reação inicial."

Assim, segundo o profissional, o indivíduo tende a aumentar o consumo e o risco das apostas, da mesma maneira que uma pessoa que ingere álcool vai aumentando cada vez mais a quantidade. Hoje, a acessibilidade digital agrava o prognóstico. "Enquanto um dependente químico enfrenta barreiras físicas para obter a droga, o apostador tem o cassino no bolso 24 horas por dia. O pecado mora ao lado. Então, fica muito fácil da pessoa sucumbir a isso", alerta o psiquiatra.

O rastro da destruição

A teoria ganha contornos dramáticos na vida de Roberto Antônio (nome fictício), 35 anos. Pai de dois filhos, viu-se perdido quando mergulhou em um oceano repleto de prazeres efêmeros. Tudo começou em 2022, quando passou a observar influenciadores digitais divulgando casas de apostas. "Pensei comigo mesmo: talvez seja uma forma de conseguir renda extra e ajudar nas contas de casa."

Por duas semanas, começou a jogar, só que de maneira equilibrada, às vezes apostava R$ 10 e outras, R$ 50, nada exagerado. "Eu quase não estava perdendo, sempre ganhando. Comecei a postar links nas minhas redes sociais e ganhava bônus com as pessoas que acessavam meus links", relembra. Como um homem de família, apesar de estar em busca de melhorar a vida financeira, Roberto tinha uma boa reserva de emergência, estimada em R$ 8 mil.

No entanto, ele decidiu pegar todo o dinheiro e apostar. Para sua surpresa, conseguiu acumular R$ 37 mil. "Nesse momento, pensei em largar tudo e viver de apostas, forma fácil de ganhar", ressalta. O ganho inicial foi a armadilha final. "Senti uma sensação de poder absurda, dinheiro fácil sem sair do celular, pensei em largar tudo e viver de apostas", conta Roberto.

Ele pediu demissão, investiu toda a sua rescisão e, em menos de dois meses, perdeu R$ 56 mil. O desespero o levou a um empréstimo bancário de R$ 15 mil, perdido em uma única aposta de "olhos fechados". O resultado foi a ruína total: "Perdi a minha esposa, meus filhos, casa, tudo. Vendi até mesmo a TV e a máquina de lavar de casa para tentar conseguir apostar mais". 

Hoje, Roberto vive em uma quitinete, faz bicos e emagreceu 20 quilos, carregando as cicatrizes do vício. Contudo, tenta sanar as marcas deixadas por um momento que não deseja mais recordar ou repetir. Faz terapia semanalmente e busca, consigo mesmo, reorganizar e deixar os rumos da própria história. 

A psicologia do transe 

O design dos aplicativos, como muitos sabem, é um convite especial para aqueles que querem jogar,  projetado para manter o usuário em estado de transe. A psicóloga e neuropsicóloga Ingrid dos Santos Miranda Rodrigues explica que sons de vitória, luzes e o "reforço intermitente" (recompensas aleatórias) são ferramentas para reduzir a percepção do tempo e criar uma ilusão de controle. "Essa arquitetura é especialmente perigosa para crianças e adolescentes, cujos cérebros ainda não amadureceram a região do córtex pré-frontal, responsável pelo controle inibitório", detalha.

"Até essa fase (25 anos), o risco de a pessoa ter pouco controle sobre o próprio comportamento, ser capturada por esses mecanismos de recompensa é muito maior", afirma a especialista. O tratamento, agora integrado ao SUS, prevê desde a terapia cognitivo-comportamental até o uso de fármacos, como a naltrexona para controlar a fissura. Para as famílias, a orientação é clara: é preciso apoiar, mas sem se tornar um facilitador.

"O comportamento familiar de assumir responsabilidades financeiras que não são próprias, evitar que as consequências do comportamento cheguem até a pessoa, encobrir dívidas ou flexibilizar limites são condutas que contribuem para a manutenção do problema", adverte a psicóloga. A reconstrução da autoestima e da confiança é o maior desafio pós-vício. 

Do ponto de vista emocional, na avaliação de Ingrid, os danos emocionais são expressivos. "Instala-se, com frequência, um padrão de irritabilidade, ansiedade e vazio emocional, que pode evoluir para quadros mais graves, incluindo ideação suicida", acrescenta. Em um nível mais amplo, a dependência afeta profundamente os vínculos e as relações familiares e sociais, gerando sofrimento coletivo e abalando a confiança entre todos os envolvidos. 

Para sobreviventes como Roberto, o jogo deixou de ser diversão para se tornar uma lição amarga sobre a fragilidade da vida diante de um algoritmo de apostas. Todavia, a psicóloga acredita que a recuperação é, sim, possível e real. Com acompanhamento terapêutico e a elaboração desse período complexo, o indivíduo pode voltar a sentir prazer em viver, ter autoestima e consertar os erros cometidos.

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postado em 01/02/2026 06:00
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