
A paracoccidioidomicose (PCM) é uma micose sistêmica negligenciada no Brasil, causada por fungos do gênero Paracoccidioides e associada ao contato com o solo, especialmente em áreas rurais e de desmatamento. A infecção ocorre pela inalação de partículas presentes na poeira levantada ao revolver a terra e não há transmissão de pessoa para pessoa. Embora atinja principalmente os pulmões, a doença pode comprometer outros órgãos e, quando o diagnóstico demora, deixar sequelas permanentes.
Especialistas alertam que os sintomas costumam ser silenciosos e facilmente confundidos com outras enfermidades respiratórias. “A PCM tem sinais e sintomas que muitas vezes são lentos a aparecer e bastante inespecíficos, o que significa que eles podem se parecer com muitas outras doenças. É importante que a pessoa se atente ao próprio corpo e busque seu médico ou o posto de saúde se tiver febre ao longo de um grande período, ou se perder peso sem estar fazendo dieta. Tosse constante durante semanas ou meses, e feridas na pele ou na boca e nariz também”, afirma André Moraes Nicola, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília e pesquisador da Rede Biota Cerrado e da Rockefeller University, em Nova York.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
- Leia também: Entenda como o TDAH pode afetar o desempenho e a rotina dos universitários
- Leia também: Síndrome vasovagal: entenda a condição que causou o desmaio de Ivete Sangalo
Ele reforça que sintomas respiratórios persistentes não devem ser ignorados. “Tosse persistente ou falta de ar não são só um incômodo que vai passar, podem ser uma série de doenças diferentes que precisam ser diagnosticadas e tratadas", detalha. A doença tem tratamento, mas o tempo é determinante para evitar complicações.
“A PCM tem cura, sim, usando fármacos que a gente chama de antifúngicos. O tratamento é longo, podendo demorar vários meses, mas se feito corretamente, elimina o fungo do corpo da pessoa. O problema é que, se demorar muito para começar a tratar, o fungo pode destruir muito do corpo e, mesmo que a infecção seja curada, sobram cicatrizes que vão causar problema (sequelas). Imagina o pulmão, alvo mais frequente do fungo. Cheio de cicatrizes fibrosas, ele não consegue mais se expandir tão bem durante a respiração. Diagnosticar e tratar o mais cedo possível é muito importante”, explica Nicola.
Entenda a doença
Paracoccidioidomicose (PCM): micose sistêmica causada por fungos do gênero Paracoccidioides.
Transmissão: inalação de partículas do fungo presentes no solo. Não há transmissão de pessoa para pessoa.
Quadro clínico
Formas agudas e subagudas
Febre
Aumento dos linfonodos (ínguas)
Alterações laboratoriais
Formas crônicas
Tosse crônica
Falta de ar
Febre prolongada
Perda de peso
Sudorese
Lesões em pele e mucosas
Diagnóstico
O diagnóstico deve considerar o histórico de exposição ao solo e sintomas persistentes. “Toda tosse crônica precisa ser investigada. Existem causas tanto infecciosas quanto não infecciosas que podem levar a esse sintoma. Então, entre as possibilidades infecciosas, a gente tem, no Brasil, a tuberculose, por sermos um país endêmico, inclusive com uma prevalência maior do que a paracoccidioidomicose. Nos pacientes que têm fatores de risco, que têm exposições de risco, a gente precisa colocar paracoccidioidomicose como um diagnóstico diferencial”, afirma Luciana Oliveira de Medeiros Marques, infectologista clínica.
Tratamento
Antifúngicos por período prolongado
Antibióticos
Acompanhamento médico regular
Grupos de risco
Segundo Nicola, o principal fator de risco é o contato direto com o solo. “O maior fator de risco para a PCM é ser ou ter sido trabalhador rural, que lida com solo. Isso porque o fungo vive no solo, esse é o lugar que ele prefere.” A doença também está relacionada a contextos sociais mais amplos. “A PCM, como muitas outras doenças infecciosas, é parte importante do que especialistas chamam de ciclo de pobreza e doença. Desafios socioeconômicos aumentam o risco da doença, e pessoas doentes com sequelas têm uma queda na produtividade e na renda, porque dependem, principalmente, de trabalho que exige muito do corpo.”
Prevenção
Uso de equipamentos de proteção individual (EPI)
Máquinas agrícolas com vedação adequada
Redução das desigualdades sociais
Palavra dos especialistas
O avanço do desmatamento pode fazer com que essa doença se torne mais comum nos próximos anos?
Existe uma ligação da PCM com desmatamento e expansão da fronteira agrícola. Profissionais de saúde e pesquisadores já há bastante tempo observaram aumento dos casos em regiões de expansão da fronteira agrícola. Uma possibilidade é que o desmatamento e o uso do solo para agricultura possam causar desequilíbrio no ambiente em que o fungo vive no solo, e aumentar as chances de infecção. Isso ainda não está provado, mas poderia ser uma explicação para a observação do aumento de casos em algumas regiões e um exemplo de como a saúde humana é profundamente interconectada ao ambiente onde vivemos.
André Moraes Nicola é professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília e pesquisador da Rede Biota Cerrado e pesquisador na Rockefeller University, Nova York.
A prevenção estaria relacionada ao uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI)?
Para esses trabalhadores rurais, o uso do EPI é adequado ao fazerem esses trabalhos nas lavouras. E também alguns tipos de máquinas adequadas para certos tipos de trabalho que revolvam mais a terra. O uso de EPIs e algumas máquinas agrícolas adequadas e com vedação de cabine permite ao lavrador não entrar em contato diretamente com esse ar contaminado.”
Luciana Oliveira de Medeiros Marques é infectologista clínica no Hospital Sírio-Libanês de Brasília e preceptora da Residência de Infectologia do Hospital Universitário de Brasília.
Saiba Mais

Revista do Correio
Revista do Correio
Revista do Correio