
Para quem não conheceu o Maurício Dinepi, aí vai uma memória: foi condômino dos Diários Associados, diretor comercial do Correio Braziliense e diretor-presidente do grupo dos Diários Associados Rio de Janeiro. Mas o Maurício que guardo na memória é o homem das pequenas lições engraçadas.
Os nossos almoços no Rio vinham de longa data. Revezávamos o mando de campo: ora no Leblon Shopping, perto da casa dele, ora no Flamengo, perto da minha. No meu território havia um ritual fixo: no restaurante Majórica o prato não variava — bacalhau na brasa, acompanhado de um bom vinho branco. Nesses encontros tinha um detalhe: nunca falávamos de Diários Associados, pois ele era condômino e eu colaborador. Assim ficava bom para ambos.
Aprendi com ele a arte das relações institucionais na ocasião em que convivemos aqui em Brasília. Levava-me para as inaugurações e recepções e tinha um método simples: chegar cedo, ser visto pelo anfitrião e sair logo depois. Quando o assunto era posse ou lançamento de livro, posicionava-se de modo que o vissem, e, imediatamente, o homenageado ia ao seu encontro.
Gostava de repetir algumas máximas:
— Se você se sentar numa mesa de blackjack e, na segunda rodada, ainda não descobriu quem é o pato, pode ter certeza de que é você.
Nos almoços havia também outra frase clássica:
— Não me deseje bom apetite. Apetite eu tenho muito. Me deseje é boa digestão.
Era gago, mas fazia discursos elegantes. Uma vez, depois de ouvi-lo falar numa festa promovida pelo Jornal do Commercio no Copacabana Palace, fui cumprimentá-lo:
— Maurício, você não gaguejou nenhuma vez.
Ele respondeu:
— Depois eu te conto.
Dias depois, explicou-me o segredo: orientação partiu do fonoaudiólogo para que ele evitasse certas palavras e combinações difíceis. Estratégia simples, resultado perfeito.
Dinepi sabia rir dos próprios revezes e na ocasião que teve que colocar três pontes de safena, batizou-as com os nomes de três desafetos. Era extremamente ansioso e também agradecido aos amigos que o ajudaram na descida, como é o caso do Kiko Caputo, que ganhou uma das causas mais importantes da vida dele. Imagine para uma pessoa angustiada esperar uma decisão judicial por duas décadas. Eu e o Kiko é que sabemos.
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No nosso último almoço, achei Maurício abatido, falando baixo — bem diferente do homem vibrante que sempre conheci. Mas quando mencionei a estreia do musical 100 anos de Diários Associados, ele se animou. Combinamos de nos encontrar no dia da estreia, no Teatro João Caetano.
Chegou elegante, como sempre, acompanhado da filha Juliana. No intervalo, conversou com os diretores da peça, Tadeu Aguiar e Eduardo Bakr, e fez questão saudar o Stepan Nercessian, o Chatô do espetáculo, com um " boa noite, patrão".
Uma semana depois, no dia 4 de abril, Maurício partiu.
Hoje, quando penso nele, a imagem que me vem é a mesma de sempre: uma pessoa prática, com raciocínio ágil. Mas prefiro pensar que o nosso último encontro foi emocionante para nós dois, pois nem todos têm a sorte de se despedir assim — celebrando a história de um grupo de comunicação que ele ajudou a construir. E o Maurício teve esse privilégio.
Miguel Jabour é colunista e assessor de relações institucionais do Correio

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