
*Ricardo Afonso Teixeira
Algumas pessoas acusam a lua como culpada por uma má noite de sono e até por mudanças no estado mental. Será que isso não passa de um mito? Para entender melhor essa questão, pesquisadores de vários pontos do mundo estudaram o perfil de sono das crianças e sua relação com as fases da lua.
Esse estudo foi realizado com crianças, já que elas são menos sujeitas a fatores que sabidamente influenciam o padrão do sono, como o estresse. Os resultados mostraram que na lua cheia as crianças dormiam cinco minutos menos do que na lua nova. Não foi possível detectar outras mudanças de comportamento das crianças nas diferentes fases da lua.
Um pesquisa anterior já apontava que temos uma tendência a dormir menos no período da lua cheia, mas dessa vez dentro de um laboratório de sono e com adultos. A proposta inicial do estudo não foi a de avaliar a influência da lua sobre o sono, mas anos depois, numa mesa de bar e na lua cheia, os pesquisadores tiveram o insight de fazer uma avaliação retrospectiva para ver se a fase da lua tinha alguma influência nos resultados.
Dito e feito. A análise apontou que na lua cheia os voluntários tinham o sono mais superficial, demoravam cinco minutos a mais para pegar no sono e dormiam cerca de 20 minutos a menos. Além disso, na lua cheia os níveis do hormônio melatonina mostraram-se reduzidos.
Sabemos que a concentração da melatonina varia com o grau de luminosidade, mas o interessante é que o efeito lua cheia foi independente da luminosidade do ambiente, já que o estudo foi todo conduzido entre quatro paredes. A melhor explicação é um ritmo biológico circalunar que já foi demonstrado em animais marinhos. Isso pode ter representado uma vantagem evolutiva ao fazer com que caçadores e coletores dormissem menos para aproveitar a luminosidade generosa da lua cheia.
Mas o efeito da lua cheia no comportamento humano ainda tem muitos mistérios. Quando eu fazia residência médica em neurologia eu não levava muito a sério quando alguns pacientes com epilepsia me falavam que na lua cheia as crises eram mais comuns. Alguns anos depois o periódico da Academia Americana de Neurologia publicou uma pesquisa apontando que as observações dos “supersticiosos” estavam certas.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília

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