
O outono traz consigo um alerta que vai muito além da gripe comum. O Vírus Sincicial Respiratório (VSR), historicamente conhecido por causar bronquiolite em bebês, revela-se agora como uma das maiores ameaças à longevidade e à saúde de adultos com mais de 50 anos e idosos. Enquanto o sistema público de saúde foca na imunização contra a influenza, o VSR circula silenciosamente, sendo responsável por 45% das internações por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) no Brasil no primeiro semestre de 2025. Com uma taxa de letalidade que chega a 30% em idosos com comorbidades, o vírus não apenas põe em risco a vida, mas pode causar o que especialistas chamam de "morte social", a perda definitiva da autonomia.
Embora a população esteja acostumada com a vacinação anual contra a gripe, o VSR apresenta números mais alarmantes em diversos cenários clínicos. Dados da Fiocruz e boletins InfoGripe mostram que o VSR superou a influenza em notificações de SRAG nos últimos três anos consecutivos.
De acordo com a infectologista e líder de vacinas da GSK, Lessandra Michelin, o quadro clínico do VSR pode se confundir facilmente com outras infecções respiratórias comuns. Ela alerta que pessoas com doenças crônicas têm maior risco de complicações e não devem esperar a evolução dos sintomas em casa. Apesar de não existir um tratamento para os vírus, medidas são tomadas para os sintomas. “A gente indica hidratação, repouso, alimentação e, muitas vezes, tem medicação sintomática para descongestionar o nariz, para febre e para algum sintoma de tosse excessiva”, ressalta.
- Leia também: Gripe avança no Brasil e já causa mais de 1,6 mil morte este ano
- Leia também: Bronquiolite e pneumonia: como reconhecer os primeiros sinais em crianças
O vírus costuma durar entre cinco e sete dias, podendo se estender até duas semanas em indivíduos com imunidade comprometida. A médica também destaca a importância do diagnóstico sempre que possível e reforça que a prevenção é o principal caminho. Segundo ela, a vacinação contra gripe, covid-19 e VSR reduz significativamente o risco de hospitalização pelos principais vírus respiratórios em circulação. A prevenção, embora disponível na rede privada, ainda enfrenta o desafio do desconhecimento e da falta de acesso universal no SUS.
Principais sintomas
-
Dor de garganta
-
Congestão nasal
-
Espirros
-
Tosse
-
Dor de cabeça
-
Febre
VSR X influenza no Brasil
Prevalência em internações (1º Semestre):
2023: 41% VSR | 14% Influenza
2024: 43% VSR | 22% Influenza
2025: 45% VSR | 27% Influenza
Gravidade em comparação à gripe
- 2,7 vezes mais chances de desenvolver pneumonia
- Duas vezes mais chances de admissão em UTI
- Duas vezes mais chances de intubação ou óbito
Risco de óbito em hospitalizados por SRAG por VSR
-
Crianças (menores de 4 anos): 1% podem ir a óbito
-
Adultos (50+ anos): 14% podem ir a óbito
O "gatilho" para doenças crônicas
Para quem vive com diabetes, problemas cardíacos ou doenças pulmonares, como doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e asma, o VSR funciona como um estopim inflamatório. O vírus ataca a proteína de fusão (Proteína F) para entrar nas células respiratórias, desencadeando uma inflamação sistêmica que pode desestabilizar placas de aterosclerose no coração ou levar à falência renal.
O risco de hospitalização por comorbidade
- DPOC: risco 13,4 vezes maior
- ICC (insuficiência cardíaca): risco sete vezes maior
- Diabetes: risco 6,6 vezes maior.
- Asma: risco 3,6 vezes maior
- Obesidade: 38% dos hospitalizados por VSR apresentam essa condição
A barreira do SUS e o acesso à vacina
Atualmente, a vacina contra o VSR para adultos (RSVPreF3 adjuvantada) está disponível, principalmente, na rede privada. Embora recomendada pelas sociedades brasileiras de Imunizações (SBIm) e de Geriatria e Gerontologia (SBGG) para adultos 60+ e aqueles entre 50 e 59 anos com comorbidades, o acesso no SUS ainda é restrito.
Especialistas reforçam que o impacto real na saúde pública, a redução de filas em UTIs e leitos, só virá com coberturas vacinais elevadas, o que depende da inclusão da vacina no Programa Nacional de Imunizações (PNI) para grupos de risco.
O peso da recomendação médica
A adesão à vacina depende quase inteiramente do papel do médico:
- Paciente quer / Médico recomenda: 87% de adesão
- Paciente não quer / Médico recomenda: 70% de adesão
- Paciente quer / Médico NÃO recomenda: apenas 8% de adesão
Impacto pós-alta de internação
- Um em cada três pacientes idosos morre após um ano da internação por VSR
- Um em cada quatro necessita de uma nova internação em menos de três meses após a alta
Efetividade da vacina adjuvada
Estudos mostram até 76% de prevenção contra hospitalizações e 100% de proteção contra casos graves em populações vacinadas na Dinamarca.
Palavra dos especialistas
Idosos e grupo de risco
"O vírus condena e a bactéria executa. O VSR abre as portas para pneumonias bacterianas graves. No paciente com DPOC, ele causa uma perda acelerada da função pulmonar. Aquele idoso que antes saía com o neto, após uma internação por VSR, pode passar a depender de oxigenoterapia ou cadeira de rodas. É o que chamo de morte social”, afirma a pneumologista, professora titular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pesquisadora e coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Asma e Inflamação das Vias Aéreas (NUPAIVA), além de coordenadora da Comissão de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), Rosemeri Maurici.
Risco de infarto
"O risco de infarto é três vezes maior na primeira semana após a infecção pelo VSR. A inflamação que o vírus causa desestabiliza o sistema cardiovascular. Entre pacientes com insuficiência cardíaca que se internam por VSR e descompensam, a mortalidade em 12 meses chega a assustadores 45%”, destaca o cardiologista, professor livre-docente da Faculdade de Medicina da USP e membro da Comissão de Vacinas da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Múcio Tavares.
Doenças crônicas e longevidade
"O idoso brasileiro não envelhece 'limpo', ele traz consigo uma média de oito doenças crônicas. Sete dias acamado por uma infecção faz o idoso perder de 10% a 15% de sua massa muscular. A vacina não é só sobre evitar o vírus, é sobre manter a capacidade de andar, de lembrar e de viver com dignidade”, ressalta a geriatra e clínica geral, presidente da Comissão de Imunizações da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e médica assistente da Unifesp, Maisa Kairalla.
Diabetes e VSR
"O diabetes gera uma disfunção imunológica. O VSR causa uma descompensação glicêmica tamanha que pacientes que controlavam a doença apenas com comprimidos, muitas vezes, precisam ser insulinizados durante e após a infecção. É uma complexidade que impacta toda a longevidade”, explica o endocrinologista e professor da Universidade Unigranrio, Rodrigo Mendes.
Fontes: as falas dos especialistas foram apresentadas em uma mesa redonda durante evento promovido pela GSK Brasil em São Paulo, ao qual a repórter viajou a convite
