
Em apartamentos cada vez menores, rotinas corridas e longas jornadas fora de casa, um problema silencioso tem ganhado espaço dentro dos lares brasileiros: a obesidade em pets. À primeira vista, tudo parece confortável, caminhas macias, ração de qualidade e até petiscos como forma de carinho. Mas, por trás desse cuidado, muitos cães e gatos vivem uma realidade distante do que sua biologia exige, com pouco movimento, excesso de alimento e estímulos insuficientes.
O resultado aparece no corpo e na saúde. Assim como nos humanos, o excesso de peso em animais domésticos não é apenas uma questão estética, mas um fator de risco para uma série de doenças e limitações.
De acordo com a professora de medicina veterinária Manuela Teixeira, do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), a obesidade em pets é consequência de um conjunto de fatores que se acumulam no dia a dia. "Primeiro, há a tendência da raça. Mas também há a questão de morarem em apartamentos, confinados em pequenos espaços e, muitas vezes, os proprietários não os levam para passear ou fazer exercícios", explica.
A alimentação também tem papel central nesse cenário e, muitas vezes, é conduzida de forma equivocada. Embora as rações superpremium sejam formuladas para oferecer alta qualidade nutricional, elas exigem controle rigoroso de quantidade. "Essas rações devem ser fornecidas nas quantidades recomendadas pelo fabricante, de acordo com o grau de atividade física do animal. No entanto, muitas vezes os tutores não observam isso e acabam oferecendo mais do que o necessário", diz.
Segundo Manuela, existe ainda um fator cultural que contribui para o problema: a associação entre comida e cuidado. "Os tutores acham que a porção indicada é pouca, ficam com pena do animal e acabam oferecendo mais. Existe essa cultura de que é preciso comer em quantidade, mas, no caso dessas rações, ocorre o contrário: os animais comem cada vez menos quantidade para fazerem pequenos volumes de fezes. Tudo isso acaba levando-os à obesidade", completa.
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Por que os pets engordam
Se a rotina e a alimentação já ajudam a explicar o problema, há ainda fatores biológicos que tornam alguns animais mais propensos ao ganho de peso. A predisposição genética é um deles. "Algumas raças têm maior facilidade em engordar, como golden retrievers, labrador, pug, buldogues e Shih-tzu. No caso dos goldens e labradores, por exemplo, são animais mais glutões, o que favorece ainda mais o ganho de peso", explica Manuela.
Além da genética, o metabolismo influencia e muda ao longo da vida. Animais mais velhos tendem a se exercitar menos e, consequentemente, acumulam mais gordura corporal. A castração é outro ponto de atenção. "Animais castrados, sejam machos, sejam fêmeas, têm o metabolismo reduzido e podem ganhar peso com mais facilidade", completa a professora.
Essa relação é reforçada pelo médico veterinário João Paulo Lacerda, do curso de medicina veterinária do Unipê. Segundo ele, após a castração, é comum que o apetite aumente, ao mesmo tempo em que o gasto energético diminui. Sem ajustes na rotina, o resultado é previsível. "Sem o controle da alimentação e do nível de atividade, o animal passa a ingerir mais calorias do que gasta, favorecendo o ganho de peso", afirma.
No dia a dia, porém, são os hábitos dentro de casa que mais pesam na balança. Entre os erros mais comuns está a ideia de que cães e gatos enjoam da ração, o que leva muitos tutores a trocar constantemente o alimento ou complementar a dieta com outros itens. "Eles não têm o paladar tão desenvolvido quanto os humanos e não enjoam facilmente. Se o animal está bem adaptado a uma ração, não há motivo para mudar", orienta Manuela.
Outro comportamento frequente e prejudicial é o impulso de "melhorar" a refeição. "Muitos tutores sentem pena da ração, acham que é sem graça, e acabam adicionando outros alimentos. Isso, geralmente, resulta em um acréscimo calórico desnecessário", alerta.
Comportamento e rotina
A rotina seguida também influencia muito no peso dos animais. "Muitas vezes, os animais pedem comida incessantemente ao redor da mesa. Se dividirmos a quantidade diária recomendada de ração no número de refeições que a família faz e os colocamos para comer ao mesmo tempo que a família, diminuímos essa presença insistente. Isso evita que acabemos fornecendo algo extra, o que levaria ao excesso alimentar", recomenda Manuela.
Além disso, a especialista explica que se a família estabelecer uma rotina de passeios, de descer com os cães várias vezes ao dia, especialmente para quem mora em apartamento, ou de brincar com os gatos, isso melhora significativamente as chances de eles não ganharem peso.
A obesidade também pode estar ligada ao emocional do pet, como questões de tédio e falta de estímulo. Lacerda explica que animais entediados tendem a buscar na comida uma forma de estímulo. "A ausência de desafios, brincadeiras e interação pode levar ao chamado 'comportamento alimentar por tédio', aumentando a ingestão calórica sem necessidade fisiológica", completa. A ansiedade é outro fator que merece atenção, podendo desencadear comportamentos compulsivos, incluindo a ingestão exagerada de alimentos.
A melhor solução, em ambos os casos, é o enriquecimento ambiental, que estimula o animal física e mentalmente, reduz o tédio e aumenta o gasto energético. Mudanças simples, como incluir brinquedos interativos, alimentação em dispositivos que exigem esforço, circuitos, arranhadores para gatos e variações no ambiente, além de ajudar no emagrecimento, melhoram significativamente o nível de satisfação do animal.
Consequências
Muito além de uma aparência "fofa", o excesso de peso em cães e gatos está diretamente ligado ao desenvolvimento de uma série de doenças que comprometem a qualidade e, em alguns casos, a expectativa de vida dos animais.
Segundo Manuela, os impactos da obesidade vão desde problemas articulares até alterações metabólicas importantes. O sobrepeso impõe uma carga extra ao corpo que não foi biologicamente planejado para suportá-la. Com o tempo, articulações passam a sofrer desgaste, movimentos simples se tornam difíceis e a disposição diminui gradativamente. Ainda assim, muitos tutores demoram a perceber que algo está errado ou até associam o corpo mais robusto a um sinal de saúde. "Infelizmente, ainda existe a cultura de que o animal mais gordinho é mais saudável, mas isso não é verdade", reforça.
Em alguns casos, os efeitos da obesidade são ainda mais severos por causa das características físicas de determinadas raças. Cães braquicefálicos, como os de focinho achatado, apresentam naturalmente maior dificuldade respiratória, e o excesso de peso agrava esse quadro.
Entre os exemplos mais emblemáticos está o dachshund, popularmente conhecido como salsichinha. Por conta do corpo alongado e da estrutura da coluna, esses cães têm uma predisposição natural a problemas vertebrais, condição que se agrava significativamente com o excesso de peso. "A coluna desses animais tem pontos de apoio mais distantes, e a obesidade faz com que eles manifestem problemas articulares muito mais cedo", explica a professora.
Tratamento e controle
Segundo João Paulo, o processo saudável de emagrecimento para o pet deve sempre ser gradual e supervisionado por um médico veterinário. "A estratégia envolve três pilares: ajuste calórico da dieta, escolha de um alimento balanceado específico para controle de peso e aumento progressivo da atividade física", explica.
O especialista ressalta que exercícios não funcionam sozinhos, e a reeducação alimentar é indispensável. "O controle do peso depende principalmente do balanço energético, ou seja, calorias consumidas versus calorias gastas. A reeducação alimentar é essencial e inclui: controle de porções de alimentos, redução de petiscos, escolha de dietas com menor densidade calórica e, em alguns casos, alimentos terapêuticos. O exercício vai entrar como complemento essencial, ajudando a preservar a massa muscular, melhorar o metabolismo e aumentar o gasto energético", complementa.
Assim como o tratamento, a prevenção também se constrói no dia a dia e, muitas vezes, com ajustes simples na rotina. De acordo com Lacerda, incorporar hábitos saudáveis à rotina dos animais é o caminho mais eficaz para manter o peso sob controle. “Passeios regulares, sessões diárias de brincadeiras e o uso de brinquedos interativos ajudam a manter o animal ativo e estimulam o gasto energético”, orienta.
Assim como o tratamento, a prevenção se constrói no dia a dia e, muitas vezes, com ajustes simples na rotina. De acordo com Lacerda, incorporar hábitos saudáveis à rotina dos animais é o caminho mais eficaz para manter o peso sob controle. "Estimular atividades que imitem comportamentos naturais, como farejar, explorar e 'caçar', também contribui para um estilo de vida mais saudável", acrescenta.
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

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