Comportamento

Da atenção à rejeição: busca por validação pode esconder um transtorno

O transtorno de personalidade histriônica afeta relações, autoestima e a forma como pacientes lidam com emoções e validação

O transtorno de personalidade histriônica afeta, principalmente, os relacionamentos  -  (crédito: Reprodução/Magnific)
O transtorno de personalidade histriônica afeta, principalmente, os relacionamentos - (crédito: Reprodução/Magnific)

Busca persistente por atenção, instabilidade emocional e necessidade constante de validação externa. Pessoas com o transtorno de personalidade histriônica (TPH) costumam viver relações intensas, reagir de forma exagerada a críticas e sentir grande desconforto quando não estão em evidência. Apesar de afetar diretamente vínculos afetivos, autoestima e vida social, o quadro ainda é pouco conhecido fora dos consultórios e frequentemente confundido com "drama", carência ou excesso de emoção.

O assunto ganhou repercussão mundial durante o julgamento entre Amber Heard e Johnny Depp, quando uma psicóloga contratada pela defesa do ator afirmou que Amber apresentava traços compatíveis com TPH e transtorno borderline. A exposição do caso colocou o transtorno no centro das discussões sobre saúde mental e levantou debates sobre diagnóstico, estigmas e os limites da exposição pública de questões psiquiátricas.

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O TPH faz parte do grupo dos transtornos de personalidade caracterizados por instabilidade emocional e dificuldade nas relações interpessoais. O quadro envolve padrões persistentes de comportamento que impactam diretamente a forma como a pessoa se percebe e se relaciona com os outros. A psiquiatra Ana Caroline Santana explica que o transtorno vai além de uma personalidade expansiva. "O diagnóstico só é feito quando esses comportamentos causam sofrimento real ou prejuízo importante nas relações e na vida cotidiana", afirma.

Em muitos casos, a necessidade de validação é tão intensa que a ausência de atenção passa a ser percebida como rejeição. Isso afeta relações afetivas, vínculos familiares, amizades e até o ambiente profissional.

"Gostar de aparecer"

Pessoas com TPH costumam apresentar forte expressividade emocional, teatralidade e necessidade frequente de reconhecimento. Dependendo do contexto, podem agir de maneira sedutora, dramatizar situações ou reagir de forma intensa a críticas e frustrações. O psicólogo Douglas Coutinho explica que o transtorno está ligado à forma como a pessoa constrói a própria identidade emocional.

Segundo ele, o principal ponto de diferenciação está na intensidade desses comportamentos. Nem toda pessoa expansiva ou emocional apresenta um transtorno de personalidade. "Muitas vezes, a expansividade é apenas uma característica daquela pessoa. O que chama atenção no TPH é a repetição desse padrão e o impacto que ele causa na vida do paciente", reforça Ana Caroline.

Entre os sinais mais comuns estão o desconforto em não ser o centro das atenções, emoções intensas e instáveis, necessidade constante de aprovação e tendência a perceber relações como mais íntimas do que realmente são. Também é comum que a autoestima fique muito dependente da reação das outras pessoas. Quando não recebem validação, pacientes podem experimentar sensação de vazio, insegurança e sofrimento emocional importante.

Na prática, os impactos costumam aparecer principalmente nos relacionamentos. Conflitos frequentes, desgaste emocional e vínculos instáveis fazem parte da realidade de muitos pacientes. "As relações acabam se tornando cansativas para ambos os lados porque existe uma necessidade constante de reafirmação afetiva", explica Douglas.

Diagnóstico exige cuidado

O diagnóstico do transtorno é feito por psicólogos e psiquiatras a partir de avaliação clínica detalhada. Não existem exames laboratoriais ou testes de imagem capazes de identificar o problema. Os profissionais observam padrões persistentes de comportamento, histórico emocional e a forma como a pessoa se relaciona em diferentes contextos da vida. Episódios isolados de impulsividade ou dramatização não são suficientes para caracterizar o quadro.

Segundo Ana, um dos maiores desafios está justamente no diagnóstico diferencial. "Muitos comportamentos do TPH podem se parecer com outros transtornos, como borderline, bipolaridade e transtorno de personalidade narcisista", explica. Embora exista semelhança entre alguns sintomas, os especialistas destacam que a motivação emocional costuma ser diferente em cada caso.

No transtorno borderline, por exemplo, o sofrimento geralmente está ligado ao medo intenso de abandono. Já no TPH, a angústia costuma surgir diante da perda de atenção e validação. No caso da bipolaridade, as mudanças de humor aparecem em episódios mais duradouros. No TPH, as oscilações emocionais tendem a ser rápidas e muito influenciadas pelo ambiente e pelas relações.

Outro ponto que exige atenção é o histórico de estigmatização do transtorno. Durante muito tempo, o diagnóstico foi associado, principalmente, às mulheres, devido ao viés cultural conhecido por "histeria" (do grego hysteria, traduzido, útero), o que fez especialistas alertarem para a necessidade de avaliações sem estereótipos de gênero. 

Além disso, o TPH raramente aparece sozinho. Quadros de ansiedade, depressão e somatização costumam surgir associados ao transtorno. "Muitas vezes, o paciente procura ajuda não pelo transtorno em si, mas por crises afetivas, sensação de rejeição ou dificuldades nos relacionamentos", afirma a psiquiatra.

Redes sociais

Em uma rotina marcada por curtidas, visualizações e necessidade constante de exposição, especialistas apontam que as redes sociais podem potencializar características histriônicas já existentes.

Para pessoas que dependem fortemente da validação externa, o ambiente digital funciona como uma espécie de reforço imediato. A lógica das plataformas, baseada em engajamento e aprovação, tende a alimentar ainda mais a busca por reconhecimento. "A ausência de retorno pode gerar uma angústia desproporcional e intensificar esse ciclo", explica Ana.

Isso não significa que as redes sociais causem o transtorno. O que os especialistas observam é que o ambiente digital favorece padrões ligados a comparação constante, necessidade de aceitação e exposição emocional.

O tratamento do TPH tem como principal eixo a psicoterapia. O acompanhamento ajuda o paciente a compreender padrões emocionais, fortalecer a autoestima e desenvolver relações mais estáveis. "A ideia não é mudar completamente a personalidade da pessoa, mas ajudá-la a construir vínculos menos dependentes da aprovação externa", elucida Douglas. Em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico também é importante para controlar sintomas associados, como ansiedade intensa e episódios depressivos.

É  importante lembrar do apoio familiar durante o tratamento. Estabelecer limites saudáveis, evitar reforçar comportamentos prejudiciais e incentivar o acompanhamento profissional fazem parte do processo. Pois com o tratamento adequado, o transtorno é "reduzido" e, com isso, o paciente consegue desenvolver formas mais saudáveis de lidar com a própria autoestima.

 

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postado em 31/05/2026 06:00
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