Saúde

Hipertensão arterial pulmonar: entenda as causas, os sintomas e os tratamentos

A hipertensão arterial pulmonar avança com sintomas confundidos com cansaço e pode levar a diagnóstico tardio e risco ao coração

A falta de ar ao subir uma escada, o cansaço fora do comum ou uma tontura inesperada podem parecer sinais banais do dia a dia. Mas, em alguns casos, esses sintomas escondem uma condição pouco conhecida: a hipertensão arterial pulmonar (HAP). Rara e progressiva, a doença afeta os vasos sanguíneos dos pulmões e pode comprometer diretamente o funcionamento do coração, especialmente quando não é identificada a tempo.

Nos pulmões, a HAP provoca alterações estruturais que dificultam a circulação do sangue. Segundo a pneumologista Gilda Elizabeth, há espessamento e enrijecimento das paredes das artérias pulmonares, o que reduz o calibre desses vasos. "Isso aumenta a resistência à passagem do sangue, elevando a pressão dentro dessas artérias e fazendo com que o coração precise trabalhar mais", explica. Com o tempo, esse esforço contínuo pode levar à sobrecarga cardíaca.

Os primeiros sinais costumam ser discretos, o que contribui para que a doença passe despercebida. A falta de ar durante esforços simples e episódios de tontura estão entre os sintomas iniciais mais comuns. Como esses sinais também aparecem em diversas outras condições, a HAP raramente é considerada como primeira hipótese. "Os sintomas podem estar presentes em inúmeras doenças", afirma a especialista, o que ajuda a explicar a dificuldade no diagnóstico.

O cardiologista Marcelo Bergamo destaca que muitos pacientes são inicialmente tratados como se tivessem ansiedade ou falta de condicionamento físico. "O que chama atenção é a progressão. A falta de ar aparece em esforços cada vez menores, pode vir acompanhada de cansaço desproporcional, tontura e até desmaios", diz. Diferente de outras condições, os sintomas tendem a piorar ao longo do tempo.

Para chegar ao diagnóstico correto, é necessário um processo cuidadoso de investigação. Exames como ecocardiograma, tomografia de tórax, espirometria e o teste de caminhada de seis minutos ajudam a levantar suspeitas, mas a confirmação definitiva ocorre por meio do cateterismo cardíaco direito. Esse caminho, no entanto, nem sempre é rápido. Por se tratar de uma doença rara e pouco lembrada, muitos pacientes passam por diferentes especialistas antes de obterem respostas.

Embora não tenha cura, o tratamento pode retardar a progressão da doença e melhorar a qualidade de vida. Ao reduzir a pressão nas artérias pulmonares, é possível aumentar a tolerância ao esforço e diminuir os sintomas. Ainda assim, especialistas alertam para a importância do diagnóstico precoce. "Falta de ar frequente não deve ser considerada normal, especialmente se estiver piorando", reforça Bergamo. Reconhecer os sinais e buscar avaliação médica pode ser decisivo para o futuro do paciente.

Sintomas 

  • Falta de ar 
  • Fadiga 
  • Tontura e desmaios 
  • Inchaço (edema)
  • Dor no peito 
  • Palpitações 
  • Cianose (coloração azulada)

Doenças associadas 

  • Doenças pulmonares crônicas 
  • Apneia obstrutiva do sono 
  • Anemia falciforme 
  • Esquisitossomose
  • HIV
  • Hipertensão portal (cirrose)
  • Doença dos tecidos conjuntivo
  • Cardiopatias congênitas 

Genética e idade 

  • HAP idiopática: forma primária da doença 
  • HAP hereditária: mutações genéticas transmissíveis 
  • Mais comuns em mulheres, podendo surgir em qualquer fase da vida, embora seja mais comuns em jovens adultos 

Fatores de risco 

  • Uso de medicações e drogas 
  • Gestação 

Gravidade

  • A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica como gravidade IV,  a classe de maior risco
  • Sem tratamento, a doença pode levar à insuficiência cardíaca direita e à morte

Dados

  • Estima-se que afete cerca de 8 mil pessoas no Brasil, com 5 mil em tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) 
  • No mundo, a incidência é de 2,4 casos por milhão/ano
  • O diagnóstico é comum em mulheres (duas vezes mais que homens) e geralmente diagnosticada entre 30 e 60 anos
  • O diagnóstico pode levar, em média, dois anos desde o início dos sintomas, que costumam ser confundidos com outras doenças cardíacas ou pulmonares
  • Cerca de 35% dos pacientes estavam aposentados por invalidez e 21% afastados por doença, devido à limitação de atividades simples

 Tratamento 

  • Anticoagulantes 
  • Diuréticos 
  • Oxigênio 
  • Transplante de pulmão e de coração
  • Dieta, repouso e mudança de estilo de vida

Como diferenciar 

A HPA é parecida com outras doenças respiratórias (asma ou bronquite), porém, a anamnese e o exame físico são inegociáveis para o diagnóstico. No entanto, quando observa-se que os sintomas não melhoram com o tratamento de uma doença especifica, torna-se necessário prosseguir com a investigação.

Palavra do especialista

O que acontece no organismo do paciente com a progressão da doença?

Ocorre um aumento da resistência nos vasos pulmonares. Isso faz com que o lado direito do coração precise trabalhar mais para bombear o sangue para os pulmões. Com o tempo, esse esforço leva à dilatação e à falência do ventrículo direito. O organismo passa a receber menos oxigênio de forma eficiente, o que explica o cansaço, a limitação física e outros sintomas sistêmicos.

Quais são as opções de tratamento disponíveis atualmente no país? Ele está acessível pelo SUS ou ainda existem muitas barreiras para os pacientes?

Hoje, temos um arsenal terapêutico mais amplo no Brasil, incluindo medicações que atuam em diferentes vias da doença. Em alguns casos, utilizamos terapia combinada desde o início. Também há indicação de oxigenoterapia, anticoagulação em situações específicas e, em casos avançados, avaliação para transplante pulmonar. Já sobre o acesso pelo SUS, ele existe, mas ainda enfrenta desafios. Alguns medicamentos estão disponíveis em protocolos específicos, porém o caminho até o diagnóstico e a chegada a centros especializados ainda é uma barreira importante. Além disso, nem todas as terapias mais modernas estão amplamente acessíveis na rede pública.

Com acompanhamento adequado, o paciente consegue manter qualidade de vida?

Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, muitos pacientes conseguem manter uma boa qualidade de vida. Eles podem realizar atividades do dia a dia, com algumas adaptações. O acompanhamento regular em centros especializados é essencial para ajustar o tratamento e monitorar a evolução da doença.

Marcelo Bergamo é cardiologista com residência em cardiologia e ecocardiografia pela PUC Campinas. Integra a equipe do Hospital Santa Bárbara e da Unimed

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

 

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