Por Dani Neri
Quem é de Brasília e tem contato com a cultura da cidade muito provavelmente sabe quem é Hugo Rodas, e como ele marcou a cidade com sua irreverência artística. Um ícone. Um provocador. Basta dar um Google — tem vídeos, entrevistas, matérias, pesquisas. Um universo a se mergulhar.
Ele era incansável. Um gorila. Trabalhou até os últimos dias, num período de pós-reclusão da pandemia, quando ainda não podíamos aglomerar a trupe inteira e então marcávamos ensaios individuais com ele em seu apartamento.
Quem foi dirigido por ele, ou foi seu aluno, tem ainda mais noção da sua força e vitalidade. Sua inquietude, sua entrega visceral. Ele nunca se conformava. Entregava-se de corpo, alma e coração — não estava ali só para dizer o que fazer, mas para mostrar com suas vísceras como queria. No auge dos seus 80 anos, presenciei muitas vezes Hugo descer até o chão em câmera lenta, provando que nenhum gesto é desperdiçado. Uma consciência corporal incrível. E ele gritava:
"Não pensa! Deixa o corpo te levar e encontrar os caminhos!"
Quero compartilhar o que pude presenciar desse estado de consciência no momento em que Hugo decidiu se despedir desta encarnação. E foi muito mágico.
Ele já estava há alguns dias no hospital. Já sabíamos que estava partindo. Fizemos daquele quarto um grande sarau, como ele gostava. Em um dado momento, quando sentimos sua mão mais fria, pedi a Gabi que cantasse uma das músicas que era trilha de um dos nossos espetáculos: o Hino ao amor, de Édith Piaf.
Ele já estava num sono profundo e respirava intensamente junto com as pausas da música. Fez isso com a música inteira — respirou fundo junto com a voz de Gabi, enquanto os amigos que estavam no quarto faziam uma roda ao seu redor. Eu estava ali segurando suas mãos e pude sentir sua respiração em sincronia com aquela voz. Depois de percorrer a música inteira naquela sincronia, com aquela melodia de rasgar o coração, chegando na última sílaba, na última nota — ele se foi.
Lançou-se para o Orum. E fez daquele último suspiro sua última aula. Um grand finale, como ele sempre nos ensinou. Foi incrível. Nós ao redor tentando entender — choramos, gritamos, aplaudimos, celebramos.
E para me surpreender ainda mais: quando fui buscar a tradução da última estrofe da música, ela dizia:
"Teremos para nós a eternidade
No azul de toda a imensidão
No céu não haverá mais problemas
Meu amor, acredite que nos amamos
Deus reúne os que se amam."
Mestre. Até o último suspiro.
*Dani Neri é atriz, musicista, produtora cultural e integrante da Agrupação Teatral Amacaca
