
Especial para o Correio — José Manuel Diogo
O Dia Mundial da Língua Portuguesa, 5 de maio, aproxima-se outra vez, com a sua bela vocação para discursos, fotografias oficiais, salões nobres e palavras como "patrimônio", "diversidade" e "futuro comum". Nada contra. Sou português, portanto respeito solenidades. Vivo no Brasil há tempo suficiente para saber que uma cerimônia, quando bem servida de café e microfone, pode salvar uma manhã inteira. Mas há qualquer coisa na língua portuguesa que escapa sempre ao protocolo. Felizmente.
A língua portuguesa foi proclamada pela Unesco como dia mundial em 2019, depois de a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) já ter escolhido o 5 de maio, em 2009, para celebrar a língua e as culturas que nela se reconhecem.
Brasília entende isso melhor do que parece. Aqui chegam sotaques de todos os Brasis. O "oxente" encontra o "bah", o "uai" atravessa o Eixo Monumental, o "meu rei" entra discretamente no Itamaraty, e o "pois não" português tenta sobreviver sem parecer antiquado. Brasília foi desenhada para organizar o país, mas a língua, como sempre, desorganiza com talento. É talvez a sua maior virtude democrática.
Há quem pense que celebrar a língua portuguesa é defender uma herança. É pouco. Herança é aquilo que se recebe; língua é aquilo que se continua a inventar. O português não é um museu com bandeiras arrumadas por ordem alfabética. É uma feira, uma biblioteca, uma fronteira, uma canção, uma piada, uma carta de amor mal escrita e um despacho ministerial excessivamente longo.
É Camões, sim, mas também Cartola. É Machado, Clarice, Pepetela, Mia Couto, Sophia, Conceição Evaristo, Germano Almeida, José Craveirinha, Paulina Chiziane, Chico Buarque, Adélia Prado, Ondjaki e aquela senhora de Ceilândia que resume em três frases o que muitos seminários não conseguem explicar em três dias.
O Brasil, convém lembrar, é hoje a grande potência demográfica da língua portuguesa. Isso não lhe dá propriedade sobre a língua, mas dá responsabilidade. Portugal guarda a origem histórica; o Brasil dá-lhe escala, invenção, ruído e desobediência. Angola e Moçambique dão-lhe futuro africano. Cabo Verde dá-lhe música e travessia. Timor dá-lhe resistência.
Talvez por isso Brasília seja um bom lugar para pensar o português. A cidade nasceu de um plano, mas só existe plenamente porque foi ocupada pela vida. A língua também. Gramáticos fazem avenidas; o povo inventa atalhos. Academias fixam normas; crianças desfazem-nas no recreio. Estados assinam acordos; escritores desobedecem com elegância. A língua portuguesa continua viva porque nunca coube inteiramente em Portugal, nem no Brasil, nem em nenhuma sala de conferências com tradução simultânea.
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O erro mais comum é tratar a língua como instrumento de nostalgia. Não é. A língua portuguesa é uma infraestrutura de futuro. Serve para negócios, diplomacia, ciência, cultura, inteligência artificial, educação, cinema, música, literatura, turismo, comércio e afeto. Serve para vender software em Recife, fazer poesia em Luanda, discutir clima em Belém, estudar em Coimbra, filmar em Maputo, cantar na Praia, legislar em Brasília e rezar em Díli. Uma língua com essa geografia não pode contentar-se em ser celebrada uma vez por ano com flores institucionais.
O que falta, portanto, não é orgulho. Orgulho há de sobra, às vezes até mal administrado. Falta estratégia. Falta circulação real de livros, professores, artistas, filmes, ideias, bolsas, editoras, residências, plataformas digitais e políticas públicas. Falta perceber que a língua portuguesa será tão forte quanto a sua capacidade de criar mercado, comunidade e imaginação. Sem isso, vira medalha de lapela: bonita na fotografia, inútil no bolso.
No dia 5 de maio, haverá discursos. Eu próprio farei o meu — na mui nobre e invicta cidade do Porto, em Portugal, onde este ano a associação que fundei decidiu cantar Camões. Mas eu gostava que, além de discursos, houvesse mais passagens compradas, mais livros atravessando alfândegas, mais autores brasileiros em cidades portuguesas fora de Lisboa, mais portugueses lendo escritoras negras brasileiras, mais africanos nos centros de decisão da lusofonia, mais Brasília no mapa cultural do Atlântico e menos cerimônia para dizer o que a vida já sabe.
A língua portuguesa não precisa que a venerem de pé. Precisa que a ponham a circular. E, em Brasília, onde até o silêncio parece pedir credenciamento, talvez seja bom lembrar que uma língua só é verdadeiramente mundial quando consegue sair do salão nobre e apanhar, sem escolta, o primeiro voo da tarde.
José Manuel Diogo é presidente da Associação Portugal Brasil 200 anos.
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