Dor na lombar, crises de enxaqueca e uma rotina puxada fizeram a estudante Ana Lyvia Blower, 24 anos, entrar em um consultório de acupuntura pela primeira vez, em 2017. Não foi curiosidade nem busca por terapias alternativas. A indicação veio do médico.
"Eu tinha muitas dores de cabeça. Não havia nenhum diagnóstico específico, nada como sinusite ou outro agravamento. Era dor de cabeça, dor lombar, questões ligadas ao estresse e à rotina. A acupuntura foi indicada junto com a medicina convencional", conta.
O que começou como complemento virou parte importante do cuidado com a própria saúde. Ao longo dos anos, ela alternou períodos de tratamento e pausa. Hoje, já com diagnóstico de enxaqueca, diz perceber diferenças importantes.
"A acupuntura ajudava muito. Eu evitava crises fortes. Quando a dor vinha, fazia massagens nos pontos indicados pela médica e também a auriculoterapia com sementes. Para mim, funciona", relata.
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A experiência de Ana não é isolada. Em um país em que procedimentos ligados às Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) cresceram de 7,1 milhões em 2023 para 10 milhões em 2025, segundo o Ministério da Saúde, terapias ancestrais atravessam fronteiras culturais e chegam cada vez mais a consultórios, hospitais e unidades públicas.
No Sistema Único de Saúde (SUS), são oferecidas 29 práticas integrativas. Entre elas estão acupuntura, eletroacupuntura, ventosaterapia, meditação, yoga, tratamento ayurvédico, fitoterapia, massagem, automassagem e práticas corporais ligadas à medicina tradicional chinesa.
A oferta, porém, varia conforme a estrutura dos municípios e a organização dos serviços locais. As práticas podem ser encontradas em Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Centros de Práticas Integrativas, Centros de Convivência e outros equipamentos da rede pública.
A política nacional reconhece essas práticas como complementares aos protocolos clínicos estabelecidos, e não substitutivas. O objetivo, segundo a pasta, é ampliar possibilidades terapêuticas para profissionais de saúde e pacientes.
O crescimento, porém, vem acompanhado de perguntas, como o que dessas tradições milenares já encontrou respaldo científico? O que permanece no campo cultural e filosófico? E como equilibrar saber ancestral e medicina baseada em evidências?
O corpo em equilíbrio
Com mais de dois mil anos de história, a medicina tradicional chinesa parte de uma lógica diferente da medicina ocidental. Graduado pela Universidade de Medicina Tradicional Chinesa de Liaoning, Qin Jun explica que a acupuntura busca restaurar o equilíbrio do organismo.
"O corpo precisa estar em equilíbrio. Quando algo sai do lugar, pressão alta, pressão baixa ou algum desequilíbrio, a acupuntura atua para ajudar o organismo a recuperar esse equilíbrio", detalha.
Segundo ele, a tradição chinesa trabalha a ideia de linhas energéticas invisíveis no corpo. "São caminhos que não vemos, mas sentimos. O corpo manifesta sinais quando algo não está funcionando bem."
Qin também destaca diferenças entre Brasil e China. "No Brasil, muitas vezes se usam apenas as agulhas. Na China, a prática tradicional costuma combinar diferentes técnicas para potencializar os resultados", destaca.
Na experiência clínica dele, as queixas mais frequentes são dores. "Dor de cabeça, coluna, joelho, braço. Muitas pessoas sentem melhora rapidamente", reforça.
Para Qin Jun, a acupuntura parte de uma lógica construída ao longo de milhares de anos de observação clínica. "Quando existe um problema interno, o corpo manifesta sinais. Há pontos específicos que refletem esses desequilíbrios", explica.
Na visão tradicional chinesa, o cuidado não está apenas ligado ao tratamento quando a doença já se instalou, mas também à prevenção. "Na China, muitas vezes, o tratamento começa pela acupuntura. Quando não melhora, pensa-se em outros recursos. Aqui, muitas pessoas ainda procuram primeiro remédio, exame ou cirurgia", avalia.
A visão tradicional chinesa, porém, convive com um debate constante no Ocidente sobre mecanismos fisiológicos, evidência científica e critérios clínicos. É justamente nesse ponto que especialistas em medicina integrativa defendem ampliar o olhar sem abandonar critérios técnicos.
Entre tradição e ciência
Embora a busca por abordagens integrativas cresça, especialistas defendem que complementar não significa substituir. A ginecologista e obstetra Erika Pimenta afirma que há espaço para integração, desde que exista responsabilidade. "Integrar não significa abandonar a ciência. Significa ampliar o olhar sem perder responsabilidade técnica", diz.
Para ela, o olhar integrativo surgiu justamente da percepção de que o ser humano não funciona de forma fragmentada. "Corpo e mente estão interligados o tempo todo. Emoções podem impactar processos físicos e alterações físicas também afetam diretamente saúde mental, comportamento, sono, cognição e qualidade de vida", explica.
Laura Mocellin, médica com atuação em transtornos metabólicos e hormonais, também vê a prevenção como um ponto de aproximação entre saberes tradicionais e medicina contemporânea. "Muitas tradições médicas antigas valorizavam prevenção, alimentação, sono, manejo emocional e relação entre corpo e mente. Hoje sabemos que esses fatores realmente têm impacto sobre inflamação, imunidade, saúde hormonal e doenças crônicas", afirma.
Segundo a médica, a procura crescente por abordagens complementares também está relacionada à forma como pacientes desejam ser atendidos. "Muitos pacientes sentem necessidade de serem vistos de maneira mais ampla e não apenas pela doença isoladamente", observa.
Ela afirma perceber aumento do interesse por estratégias ligadas à longevidade, à qualidade de vida, ao equilíbrio hormonal, à saúde intestinal e à prevenção. "Existe uma mudança de comportamento. As pessoas querem participar mais ativamente do próprio cuidado", acrescenta.
Apesar disso, alertas para a substituição são importantes. "Existe um risco real quando as pessoas começam a acreditar que tudo pode ser tratado apenas com abordagens integrativas", destaca Erika Pimenta.
A médica relata um caso marcante: "Uma paciente tinha um exame com suspeita importante para câncer de mama. Um profissional disse que ela não tinha nada após uma avaliação sem validação diagnóstica. Felizmente, ela procurou acompanhamento médico e o câncer foi confirmado por biópsia."
Laura Mocellin reforça a preocupação e o desafio de evitar que crenças substituam diagnósticos. "O principal risco aparece quando práticas complementares são usadas como substituição absoluta da medicina baseada em evidências, especialmente em doenças graves", afirma.
Segundo ela, redes sociais também ampliaram a circulação de promessas irreais. "Existe muita informação sem embasamento científico. Detox milagrosos, curas rápidas e terapias sem segurança comprovada."
Ainda assim, Laura vê espaço para integração. "Meditação, yoga, manejo do estresse, qualidade do sono e hábitos saudáveis têm impacto direto sobre inflamação, imunidade, hormônios e doenças crônicas."
Ayurveda: cinco mil anos depois
Se a medicina chinesa busca equilíbrio energético, o ayurveda, sistema tradicional originário da Índia, propõe uma visão integrada entre corpo, mente, hábitos e ambiente.
Atmo Danai, responsável pela formação em ayurveda do Instituto Atmo Danai, explica que a escola busca preservar a tradição sem ignorar a realidade contemporânea. "Nosso trabalho é construir uma ponte entre essa tradição ancestral e um formato contemporâneo de ensino, preservando sua essência e profundidade", conta.
Segundo ela, a formação inclui estudos teóricos, práticas corporais, alimentação ayurvédica, meditação e atividades supervisionadas. "O ayurveda não surgiu dentro do modelo científico moderno ocidental, mas isso não impede o diálogo. Hoje existe um esforço internacional crescente para investigar seus princípios e resultados de forma criteriosa", enfatiza Atmo Danai.
Ela atribui o crescimento da procura ao estilo de vida contemporâneo. "Vivemos um momento de sobrecarga física, emocional e mental. Muitas pessoas buscam formas de cuidado que ultrapassem a lógica de tratar sintomas."
Para Atmo, o ayurveda oferece uma proposta mais ampla. "Rotina, alimentação, sono, respiração e autoconhecimento fazem parte desse cuidado", diz.
Energia, relaxamento e bem-estar
Outra prática que ganhou espaço nos últimos anos é o reiki. Sandra Avramidis, psicanalista e especialista em hipnose clínica, define o método como uma terapia energética complementar. "O reiki atua no campo sutil do ser humano, promovendo equilíbrio entre corpo, mente e emoções", explica.
As sessões ocorrem com o paciente em ambiente tranquilo enquanto o terapeuta posiciona as mãos em pontos específicos. Entre os objetivos mais buscados estão relaxamento, redução da ansiedade, manejo do estresse e bem-estar emocional.
Sandra reforça que a prática não substitui tratamentos médicos, que ela é "complementar". Em alguns atendimentos, a profissional também utiliza cristais. "Eles não substituem a técnica. Funcionam como recurso complementar para ampliar relaxamento e favorecer experiências mais sensoriais."
Alimentação ancestral
Se algumas tradições apostam em agulhas e energia, outras passam pelo prato. No Cura Cozinha Orgânica, em Brasília, a alimentação virou filosofia. "O alimento precisa trazer prazer, saciedade e bem-estar", afirma Cristina Roberto, proprietária do restaurante.
A inspiração vem de diferentes referências, como ayurveda, cozinha oriental, macrobiótica, culinária mineira tradicional e conhecimentos ancestrais. "Tudo o que a terra dá para a gente deveria ser aprendido e aproveitado."
Cristina trabalha com alimentos orgânicos, produtos minimamente industrializados e uma lógica de variedade alimentar. "Precisamos de folhas, raízes, frutos, cereais, leguminosas. Quanto mais diversidade, melhor", afirma.
A relação com esse universo ganhou força após um câncer enfrentado durante a pandemia. "Eu estava vivendo meu processo de cura. Pensava muito em como o alimento poderia fazer parte desse cuidado", conta.
Ela faz questão de destacar limites. "Existe a medicina. Mas existe também a nossa parte no processo."
Hoje, o restaurante virou ponto de encontro de famílias, idosos e até crianças. "As pessoas estão percebendo que comida saudável também pode dar prazer."
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