
A agressão a um cabeleireiro em São Paulo por uma cliente insatisfeita com um procedimento capilar e a repercussão da disputa entre uma influenciadora e um salão de beleza em Alphaville colocaram em evidência um desafio enfrentado diariamente por muitas empresas do setor: como lidar com a insatisfação do consumidor antes que ela se transforme em uma crise.
O debate acontece em um momento de expansão do segmento. Segundo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), cerca de 236 mil pequenos negócios de beleza foram abertos no Brasil em 2025, um crescimento de 18,5% em relação ao ano anterior. Para Saulo Abrahão, empresário do setor da beleza, fundador do salão Duo+ e criador da Mentoria Voe Alto, a maioria dos conflitos poderia ser evitada com processos mais claros e uma comunicação eficiente desde o primeiro atendimento.
“A cliente não compra apenas um procedimento. Ela compra uma expectativa ligada à autoestima e à própria imagem. Quando essa expectativa não é bem construída ou não é bem conduzida, aumentam as chances de frustração e de conflito. O preparo técnico é essencial, mas a forma como o salão se comunica também faz toda a diferença”, afirma.
Quando uma reclamação foge do controle
Nos dois episódios que ganharam repercussão nacional, a insatisfação tomou caminhos diferentes. Em São Paulo, uma cliente foi detida após atacar um cabeleireiro dentro do salão. Já no caso envolvendo uma influenciadora digital, uma reclamação sobre valores cobrados evoluiu para uma disputa pública nas redes sociais, com troca de acusações, mobilização de seguidores e possibilidade de desdobramentos judiciais.
Segundo Saulo Abrahão, um dos erros mais frequentes é tratar toda reclamação como se representasse, necessariamente, uma falha técnica. “Existe diferença entre um serviço executado de forma inadequada e um resultado que não corresponde à expectativa criada pela cliente. Quando há erro, a empresa precisa assumir a responsabilidade e buscar uma solução. Quando o procedimento foi realizado corretamente, mas a expectativa era incompatível com a realidade, o caminho passa pelo diálogo e pelo esclarecimento”, orienta.
Expectativas bem alinhadas reduzem problemas
Na avaliação do empresário, muitos problemas começam antes mesmo do atendimento. Explicar as limitações técnicas, apresentar referências realistas, detalhar custos e confirmar que a cliente compreendeu todas as etapas do procedimento são medidas que ajudam a reduzir desentendimentos.
Outro ponto importante é identificar sinais de desconforto ainda durante o atendimento. Mudanças de comportamento, insegurança em relação ao resultado, questionamentos repetitivos ou demonstrações de frustração não devem ser ignorados. “Quando a cliente demonstra que algo não está bem, a equipe precisa agir rapidamente. Esperar que o problema se resolva sozinho costuma apenas aumentar o desgaste”, explica.

O atendimento faz diferença na solução
Se a reclamação acontecer dentro do salão, a orientação é evitar discussões diante de outros clientes e conduzir a conversa para um ambiente reservado. O objetivo deve ser compreender exatamente o motivo da insatisfação e realizar uma nova avaliação técnica antes de tomar qualquer decisão.
Quando a manifestação ocorre dias depois, por telefone ou mensagens, a postura também deve ser cautelosa. “Muitas empresas entram imediatamente na defensiva. O ideal é ouvir a cliente, convidá-la para uma reavaliação e identificar se existe uma falha objetiva ou apenas uma percepção diferente sobre o resultado”, explica.
Saulo Abrahão ressalta que o reembolso não deve ser tratado como solução automática. Dependendo da situação, a correção do procedimento ou o atendimento por outro profissional pode ser suficiente para restabelecer a confiança da cliente. Em casos de erro comprovado, porém, assumir a responsabilidade demonstra profissionalismo e preserva a credibilidade da empresa.
As redes sociais ampliam o impacto das crises
As redes sociais também mudaram a forma como esses conflitos se desenvolvem. Uma reclamação publicada na internet pode alcançar milhares de pessoas em poucas horas, o que torna ainda mais importante uma resposta equilibrada.
“Nunca vale responder no impulso ou expor conversas particulares. Mesmo quando o salão acredita que agiu corretamente, a postura precisa ser institucional, respeitosa e focada na solução. Muitas vezes, a maneira como a empresa administra a crise pesa mais para a reputação do que o problema inicial”, afirma o especialista.
Como preparar a equipe para situações de conflito
Para reduzir riscos, Saulo Abrahão recomenda que todos os salões tenham protocolos definidos para situações de conflito. Entre as principais orientações, estão:
- Ouvir a cliente sem interrompê-la;
- Evitar discussões em público;
- Registrar objetivamente a reclamação;
- Realizar uma avaliação técnica antes de qualquer decisão;
- Definir quem será responsável pelo atendimento do caso;
- Evitar respostas impulsivas nas redes sociais e priorizar canais diretos de diálogo.
“O treinamento da equipe não pode se limitar às técnicas de beleza. Comunicação, atendimento e gestão de conflitos também precisam fazer parte da rotina. Toda empresa está sujeita a enfrentar reclamações. O que diferencia um negócio profissional é a forma como ele conduz esses momentos. Uma crise mal administrada pode causar prejuízos muito maiores do que o valor de um procedimento”, conclui o especialista.
Por Carolina Lara
