
Por Daniele Felix*
Apesar de pouco frequente, o câncer afeta e interrompe a vida de muitas crianças no Brasil. Se descoberto precocemente, o tratamento atinge índice de cura de mais de 50%. No entanto, os tumores malignos ainda são a causa de cerca de 8% das fatalidades entre crianças e adolescentes. Segundo levantamento realizado pelo Ministério da Saúde em 2022, é a maior causa de morte por doenças na pediatria.
Nos pequenos, o mais comum é a leucemia linfoide aguda de células B, câncer hematológico — tipo que afeta o sangue, a medula óssea e o sistema linfático — que representa cerca de 25% dos casos, seguido pelo neuroblastoma, tumor extracraniano que afeta as glândulas suprarrenais e o abdômen, e pelos tumores do sistema nervoso central, cânceres não hematológicos, ou seja, que não afetam o sangue. Segundo a onco-hematologista pediátrica Simone Franco, esses são os três tipos mais frequentes na infância.
A coordenadora da oncologia infantil do Hospital Samaritano Carla Macedo, destaca, ainda, o tumor de wilms, que é o mais comum dos dois aos cinco anos. Além disso, há, também, o Linfoma, que pode ser Hodgkin ou não-Hodgkin, sendo que o Hodgkin tem maior índice de ocorrência em crianças. A principal diferença entre os dois está na presença das células Reed-Sternberg — células gigantes anormais — encontradas no linfoma Hodgkin.
Macedo explica que os indícios da doença costumam ser inespecíficos e podem se confundir com doenças comuns da infância. “O mais importante é observar sinais persistentes ou que se agravam ao longo dos dias”. Os sintomas são progressivos e não melhoram com medicação, o que é um alerta para procurar um médico e investigar as causas.
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Diagnóstico
O diagnóstico tardio ainda acontece e pode ocorrer porque os sintomas iniciais se parecem com os de infecções, viroses ou problemas ortopédicos comuns na infância.
A identificação precoce aumenta significativamente as chances de sucesso do tratamento e pode reduzir a necessidade de terapias mais agressivas e o risco de sequelas.
Sintomas mais comuns
Leucemia: Palidez, sangramentos, queda das plaquetas, mal-estar, febre e aumento dos gânglios (adenomegalias). A leucemia aguda costuma evoluir rapidamente. Os sintomas aparecem em um curto período, e a criança geralmente não consegue permanecer bem em casa por muito tempo, o que acaba levando ao diagnóstico em um prazo relativamente curto.
Retinoblastoma: Leucocoria — quando, em vez do reflexo vermelho habitual nas fotografias, aparece um reflexo esbranquiçado no olho —, estrabismo e nistagmo, que é o movimento involuntário dos olhos.
Neuroblastoma: Pode ocorrer dor abdominal, dor óssea e aumento do volume abdominal. Como geralmente é um tumor que cresce na região do abdômen, ele também pode comprimir estruturas e fazer com que a criança apresente dificuldade para urinar ou evacuar.
Tumores do sistema nervoso central: perda de marcos do desenvolvimento já adquiridos. Por exemplo, uma criança que sentava passa a não conseguir mais sentar; uma criança que falava deixa de falar; pode surgir estrabismo, dificuldade para engolir, dores de cabeça intensas e vômitos em jato, que podem indicar aumento da pressão intracraniana.
*Esses sinais não significam necessariamente câncer, mas justificam uma avaliação médica, especialmente quando persistem ou não têm uma causa identificada.
Tratamento
Nas crianças, o tratamento de câncer atinge níveis maiores de sucesso pois elas respondem melhor à quimioterapia, por exemplo. Atualmente a maioria das quimioterapias é ambulatorial e não requer internação, o que torna o atendimento mais humanizado e menos agressivo.
*Estagiária sob supervisão de Eduardo Fernandes
Palavra do Especialista
1. A descoberta tardia é comum? Em quais tipos?
Quando falamos em diagnóstico tardio, muitas vezes estamos nos referindo ao fato de a doença já ter sido identificada em estágio metastático. Isso não significa, necessariamente, que houve um longo tempo de evolução. Nos cânceres pediátricos, alguns tumores são bastante agressivos e podem se disseminar rapidamente. Há alguns anos, o acesso ao diagnóstico era mais difícil. Hoje, especialmente em Brasília, essa realidade mudou bastante. Contamos com centros especializados em oncologia pediátrica e maior acesso aos exames, inclusive pelo SUS. Por isso, considero que essa barreira foi, em grande parte, superada na nossa região. Ainda assim, o diagnóstico metastático continua sendo uma realidade na oncologia pediátrica, justamente porque muitos desses tumores apresentam crescimento muito rápido. Em contrapartida, eles também costumam responder muito bem à quimioterapia. Atualmente, cerca de 50% dos tumores pediátricos podem já estar metastáticos no momento do diagnóstico, mesmo quando a criança apresenta pouco tempo de evolução dos sintomas. Essa realidade pode variar bastante entre as regiões do Brasil. Em Brasília e nos grandes centros urbanos, houve uma melhora significativa no acesso ao diagnóstico e ao tratamento. Já em outras regiões do país, onde ainda não existem centros especializados em oncologia pediátrica, essa dificuldade de acesso pode impactar o tempo até o diagnóstico. Um exemplo clássico é o retinoblastoma. Em algumas regiões, principalmente no Norte do país, ainda é comum que as crianças cheguem ao serviço especializado com a doença mais avançada, muitas vezes já com perda do olho em decorrência da demora no acesso ao diagnóstico. Em Brasília, esse cenário é diferente. A maioria dos casos é diagnosticada ainda na fase intraocular, justamente porque o acesso ao atendimento especializado é mais rápido.
2. Existe algum cuidado preventivo para os primeiros anos de vida?
Na infância, não existe uma forma comprovada de prevenir o aparecimento do câncer. Diferentemente do que acontece em muitos cânceres do adulto, os tumores pediátricos geralmente não estão relacionados a fatores ambientais ou ao estilo de vida. Na maioria das vezes, a criança já nasce com alterações genéticas que, em determinado momento, podem levar ao desenvolvimento da doença. Por isso, o principal foco não é a prevenção, mas sim o diagnóstico precoce. Reconhecer rapidamente os sinais e sintomas permite iniciar o tratamento mais cedo e aumenta as chances de melhores resultados, evitando, por exemplo, que um tumor inicialmente de baixo risco evolua para uma condição de maior complexidade. Existem algumas crianças que apresentam síndromes de predisposição ao câncer. Nesses casos, é fundamental que elas sejam acompanhadas de perto para que qualquer alteração seja identificada precocemente. Embora seja sempre recomendado evitar a exposição da criança ao cigarro e a outros agentes nocivos, essas medidas fazem parte dos cuidados gerais com a saúde e não representam uma forma específica de prevenção do câncer infantil.
Fonte: Simone Franco, Onco-hematologista pediátrica

Revista do Correio
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