Acolhimento

Abraço que cuida: Abrace comemora 40 anos de existência como referência

Fundada em 1986 por pais de crianças com leucemia, a Abrace comemora 40 anos de existência como referência nacional no apoio a famílias durante o tratamento oncológico infantil no DF

 27/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF Hospital da Criança de Brasília José Alencar.  -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
27/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF Hospital da Criança de Brasília José Alencar. - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

A dona de casa Andreia Marim, 46 anos, e o filho, Isaac Teodoro, 8, enfrentam uma grande luta: o tratamento do câncer rabdomiossarcoma embrionário de bexiga e próstata. Após o diagnóstico em agosto de 2023, quando o menino tinha 5 anos, eles saíram de Porangatu (GO), para realizar o tratamento no Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB). Com gratidão e lágrimas nos olhos, Andreia revela o apoio que teve da Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace): "Eu não sei o que seria de mim sem eles". A família, que teve de morar na capital por mais de um ano, foi acolhida pela Abrace.

Hoje, Andreia e Isaac vivem em Porangatu e vêm a Brasília a cada 30 dias para fazer o acompanhamento no HCB, fundado pela Associação. O marido de Andreia, Vilmar Teodoro, morreu em 2021, quando Isaac tinha 3 anos. Ela relembra que, pela sua condição, Isaac precisava usar muitas fraldas por dia. "Eu ganho um salário. Sou viúva. Gastava mais de R$ 500 por mês só com fraldas". Andreia cuida de Isaac sozinha e, às vezes, tem o apoio da família, que também mora em Porangatu. "Quando a gente fica em Brasília, tem todo o suporte", comenta.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Esse apoio que Andreia, Isaac e mais de 20 mil famílias recebem desde 1986 da Abrace só é possível graças à história de Roberto Nogueira, 81, consultor empresarial; Maria Ângela Marini, 74, diretora administrativa; e um grupo de mães e pais de Brasília cujos filhos passavam por tratamento de leucemia no Hospital de Base do Distrito Federal na década de 1980. 

Nas idas e vindas do Hospital de Base, que tratava o câncer de sua filha Joanna, Maria Ângela, uma das fundadoras da Abrace e esposa de Roberto, primeiro presidente da Associação, tomou conhecimento de várias mães que moravam longe do hospital, ou até mesmo em outras cidades, e vinham para Brasília em busca de tratamento para suas crianças, sem lugar para ficar. Reunindo as famílias, surgiu uma rede de apoio entre mães e pais que se tornou a Abrace. O nome, segundo Roberto, surgiu primeiro na sigla. Depois, o significado foi construído.

Início

A Abrace foi, então, fundada em 1º de maio de 1986, após Maria Lucia de Andrade, Sebastião Magalhães, Ana Eleuza Batista, João da Purificação, Maria Zoé Leal, Reginaldo Cordeiro, Leoni Ferreira, Maria Ângela Marini e Roberto Nogueira se reunirem para construi-la. A sugestão foi da médica Maria Nazareth Petruccelli, chefe do Banco de Sangue do Hospital de Base. A ideia era criar uma instituição que apoiasse as famílias com crianças em tratamento na unidade. Naquela época, não existia um hospital especializado em oncologia pediátrica em Brasília. 

Inicialmente, a Associação funcionava no escritório de Roberto. Ele conta que toda terça-feira as mães iam ao Hospital de Base e depois visitavam o escritório. "Ficavam lá sentadas no corredor. Os vizinhos achavam aquilo diferente, mas depois compreenderam." Roberto conversava com as mães sobre a situação em que estavam. "Elas não sabiam qual era a doença, havia um estigma enorme com a palavra câncer. Uma das funções da Abrace também foi quebrar esse estigma e transformar a palavra câncer em algo natural para se conversar, conseguir medicamentos e avançar na qualidade hospitalar", citou. 

A Abrace atravessou muitos anos de cuidado e assistência até que, em 1999, Ilda Peliz, 75, presidente da Associação na época, fundadora do HCB e atual presidente do instituto que administra o Hospital da Criança, decidiu mover esforços com a Abrace para a construção de um hospital para o tratamento de crianças com câncer. Ilda, que perdeu a filha para a doença, relembra que a rotina de tratamento de sua filha sofria constantes mudanças no hospital: "Aquilo me revoltou tanto que falei: 'Eu vou tirar essas crianças daqui'". Sua jornada em busca de apoio financeiro por meio de doações e patrocínio se iniciou, e, em 2003, a Abrace recebeu o terreno do futuro Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB), no bairro Noroeste. 

Em 23 de novembro de 2011, a Unidade Ambulatorial do HCB foi inaugurada. Segundo Roberto Nogueira, a Abrace nasceu fundamentalmente para fazer a assistência social à criança e à família no Distrito Federal. Por isso, após a construção do Hospital, a Associação criou o Instituto do Câncer Infantil e Pediatria Especializada (Icipe), para realizar a administração do hospital. 

Com a inauguração do HCB, um novo momento se construiu na Abrace. "Quando uma pessoa da família está com câncer, a família toda adoece", apontou Ilda. Essa percepção motivou a criação de diversos programas de assistência na Abrace, como o Programa William, que apoia pacientes fora de cura terapêutica, com acompanhamento à família em suas casas e suporte psicológico, cama hospitalar e oxigênio. A presidente do Icipe diz: "Se não fosse a Abrace, muitas crianças já teriam morrido". 

União

Isis Magalhães, 71, oncologista e diretora-técnica do HCB, também participou do processo de construção do hospital e reforça o poder na união da sociedade civil para tornar o projeto realidade: "É inacreditável o poder dessa parceria. A sociedade civil se envolveu na causa, e nós, técnicos da saúde pública, acreditamos piamente que era possível".

Atualmente localizada na QE 25 do Guará II, a Abrace atende a 911 famílias, entre moradoras do Distrito Federal, de outros estados do Brasil e até mesmo da Venezuela, fornecendo moradia durante o tratamento das crianças. 

Uma das famílias apoiadas pela Abrace é a de Nathalia Maria Ribeiro, de 9 anos, que mora em Brazlândia. Nathalia foi diagnosticada com leucemia em fevereiro de 2025 e faz tratamento, desde então, no Hospital da Criança.

O acompanhamento da família pela Associação acontece há seis meses. Eles recebem dinheiro para combustível e orientações. Nathalia é cuidada e acompanhada pelo pai, Pedro Borges, e pela mãe, Núbia Ribeiro. Pedro conta que a esposa passou a trabalhar remotamente após o diagnóstico da filha: "A gente está fazendo essa correria, porque é toda semana. Agora é uma vez ou duas por semana, mas chegou a ser de cinco a seis vezes no Hospital da Criança. Era bem puxado."

Nathalia está no 4º ano do ensino fundamental e estuda em casa por meio do Regime de Estudos Domiciliares. O pai conta que ela não tem mais células de câncer, mas que o tratamento é longo. Relata que os custos com combustível para levar Nathalia ao hospital são altos, e que "nem esperava ter um apoio assim" da Associação. 

Noah Dourado, 2, e sua mãe, Deuzilma Dourado, 44, são outros beneficiados. Eles vieram de Palmital (MG) para o tratamento do câncer de Noah. A família mora na casa de uma amiga, em Brasília, mas recebe apoio da Abrace com o custeio de remédios e fraldas. "Eu me sinto muito acolhida", conta a mãe.

Em 2024, a Abrace foi eleita a melhor organização não governamental (ONG) do Distrito Federal. Alexandre Alarcão, 51, atual presidente e diretor de parceria e captação de recursos da Abrace, ressaltou a importância das doações e do trabalho voluntário. Atualmente, a ONG tem cerca de 10 mil doadores fixos, que ajudam, em média, com R$ 65 por mês. Voluntário desde a adolescência, o presidente se diz feliz por fazer parte dessa história.

*Estagiária com a supervisão de Tharsila Prates

 


  •  27/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF Hospital da Criança de Brasília José Alencar.
    27/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF Hospital da Criança de Brasília José Alencar. Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Ilda Peliz, motivada pela perda de sua filha para o câncer, decidiu mover esforços com a Abrace para a construção do Hospital da Criança de Brasília.
    Ilda Peliz, motivada pela perda de sua filha para o câncer, decidiu mover esforços com a Abrace para a construção do Hospital da Criança de Brasília. Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Andreia Marim, 46 e Isaac Teodoro, 8, na sede da Abrace, Guará II
    Andreia Marim, 46 e Isaac Teodoro, 8, na sede da Abrace, Guará II Foto: Gabriela Cidade
  • Associação fica na QE 25 no Guará II e atende a 911 famílias
    Associação fica na QE 25 no Guará II e atende a 911 famílias Foto: Gabriela Cidade
  • Sede da Abrace
    Sede da Abrace Foto: Gabriela Cidade
  • Roberto Nogueira
    Roberto Nogueira Foto: Paulo Lima/Divulgacao
  • Hospital da Criança de Brasília José Alencar, fundado pela Abrace
    Hospital da Criança de Brasília José Alencar, fundado pela Abrace Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  •  27/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF Hospital da Criança de Brasília José Alencar.
    27/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF Hospital da Criança de Brasília José Alencar. Foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  •  27/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF Hospital da Criança de Brasília José Alencar.
    27/04/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF Hospital da Criança de Brasília José Alencar. Foto: Minervino Júnior/CB
  • Assista a um vídeo com a história da Abrace
    Assista a um vídeo com a história da Abrace Foto: CB D.A Press
  • Google Discover Icon
postado em 01/05/2026 05:00 / atualizado em 01/05/2026 06:40
x