
Por Dr. Ricardo Afonso Teixeira
Pais, respirem fundo. Uma das tarefas mais difíceis que os pais têm nos dias de hoje é a de limitar o número de horas que os filhos ficam absorvido nos games, concorrendo com o tempo para atividade física, convívio familiar, sono, tarefas escolares, etc. Quanto à socialização com amigos, o mundo dos games até que não é dos piores, pois muitos jogam em plataformas que permitem que o jogo aconteça com outros amigos online, mas na maior parte do tempo eles jogam sozinhos mesmo, especialmente as crianças. Entretanto, do ponto de vista cognitivo, os games podem até trazer benefícios. Isso é o que aponta um estudo publicado pelo prestigiado periódico JAMA Network Open após uma avaliação de quase 2000 crianças americanas.
Este é o maior estudo feito até então para avaliar a relação entre a prática de videogames e desempenho cognitivo. Crianças com 9 a 10 anos de idade que jogavam três horas ou mais por dia pontuaram melhor em testes cognitivos envolvendo controle de impulsividade e de memória de trabalho quando comparadas a crianças que não jogavam. A Academia Americana de Pediatria recomendava que os eletrônicos fossem limitados a duas horas diárias em crianças maiores de seis anos. A partir de 2016, a mesma Academia publicou um novo documento mostrando-se um pouco mais flexível e não deu mais um limite fixo de horas, mas incentivou os pais a limitarem o uso dos eletrônicos visando a não concorrência com as atividades importantes de uma vida. Para as crianças entre 2 e 5 anos recomendou um limite de 1 hora por dia de eletrônicos e para as menores de dois anos, pequenos contatos de atividades inteligentes` sempre acompanhados dos pais.
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No presente estudo, além de terem apresentado um desempenho mais rápido nos testes cognitivos, os jogadores de videogame apresentavam maior ativação de áreas cerebrais envolvidas na atenção e memória medida por Ressonância Magnética Funcional. Curiosamente, tinham também uma menor ativação em áreas visuais o que sugere um processamento visual mais eficiente.
Vários estudos já tinham demonstrado uma associação entre a prática de jogar videogame e piora do comportamento e saúde mental entre crianças e adolescentes. O atual estudo sugere que existem também ganhos cognitivos. Na população estudada não houve maior prevalência, entre os jogadores, de depressão, comportamento agressivo e violento. Infelizmente, a pesquisa não separou categorias de videogames (e.g., esporte, aventura, luta) e o impacto cognitivo separado por tipo de videogame deverá ser explorado em futuros estudos.
Este ano, um estudo que envolveu 260 crianças finlandesas, e publicado no periódico Pediatric Exercise Science, revelou que aquelas que jogavam mais videogames na infância, a partir dos oito anos, e inicio da adolescência tinham melhor desempenho cognitivo. Dessa vez os pesquisadores demonstraram também o efeito positivo da atividade física sobre a cognição na faixa etária estudada. Os autores conclamam para que os pais incentivem o equilíbrio entre os videogames e atividade física, pois, nesse caso, dois mais dois pode ser maior que quatro.
*Ricardo Afonso Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp e neurologista do Instituto do Cérebro de Brasília
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