
Grudados nas mãos de toda a população, os celulares revolucionaram o comportamento humano desde o seu surgimento. No início da pandemia de covid-19 no Brasil, a palavra hiperconectividade tornou-se mais comum. Porém, novas formas de fuga do vício das telas também crescem, principalmente entre os mais jovens. As transformações acarretadas pela constância digital são diversas e podem ter impactos físicos e psicológicos.
Além do potencial viciante, prejudicial, o uso exagerado de celulares e computadores pode causar problemas de sono, ansiedade, isolamento e distorções de autoimagem devido a comparações constantes. Essas consequências se unem a outros riscos virtuais, como o cyberbullying, a exposição a golpes, o roubo de dados e a desinformação. Algo que parecia inofensivo torna-se uma ameaça que pode ser carregada para todos os lugares.
Segundo dados levantados pela empresa de cibersegurança NordVPN, o brasileiro médio passa cerca de 116 horas semanais conectado à rede. Ou seja, 66% das horas diárias da população são divididas com essas tecnologias. Grande parte dos usuários é composta por crianças e adolescentes, que cresceram em um período de isolamento social e tiveram a internet como ponto de fuga dos sentimentos da vida real. Porém, quando o vício se acentua, parte deles percebe a problemática dessa imersão digital.
Com esse contato constante desde a infância, os impactos neuropsicológicos tornam-se latentes. "Esse tipo de exposição é profundamente maléfico à saúde mental dos adolescentes e jovens, pois distorce a percepção da realidade numa fase em que eles acabam comparando suas vidas e autoimagem a ideias irreais e muitas vezes editadas, causando distúrbios de imagem, baixa autoestima e inadequação", explica a psicóloga infantojuvenil Claudia Vasconcellos.
Ela também reforça a influência da falta de tempo dedicado ao tédio e ao ócio. "Eles são importantes para o desenvolvimento da criatividade e do amadurecimento emocional, já que, em situações nas quais aparecem, forçam o cérebro a encontrar alternativas para combatê-los", destaca a profissional. Claudia ressalta que esses períodos longe do celular ensinam aos jovens a controlar a frustração, os medos e os anseios, além de ampliar a capacidade de autorregulação, o foco e a atenção profunda.
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As redes sociais mais consolidadas são as de rolagem contínua, que têm o design estruturado para sequestrar os níveis de dopamina a cada notificação, vídeo ou imagem, o que consolidou a epidemia de fadiga mental. O sistema de recompensas, motivação, sensação de prazer e regulação de humor não é ativado puramente pelo gosto das redes sociais. O corpo humano, por meio da dopamina — neurotransmissor essencial produzido pelo cérebro que atua como um mensageiro químico entre os neurônios —, é induzido a acreditar que a internet promove o bem-estar físico e mental.
Biologicamente, o cérebro recebe um estímulo de recompensa sem desfecho real quando a pessoa rola a tela sem parar. Ana Carolina Andorinho, neurologista, sustenta que as funções neurológicas funcionam nesses casos. "Quando temos hiperestimulação dopaminérgica, esse sistema de filtro do córtex pré-frontal se torna saturado e há maior distraibilidade. A capacidade de gerenciar tarefas e recorrer à memória de trabalho se torna comprometida. Diante de simulações virtuais, com prazer efêmero e sem desfecho real, o comportamento de busca se torna mais frequente", completa.
Nessa ótica, Isabela Brito, estudante universitária de 19 anos, sentia que seu tempo estava sendo tomado pelo celular. "Tinha muitas horas de tela e, quando usava os aplicativos de rolagem, como o TikTok e o Instagram, sentia ansiedade, e não conseguia fazer atividades do dia a dia sem o celular ao meu lado, como escovar os dentes e subir no elevador."
Por se tratar de um processo biológico natural, o ato de se desvencilhar das telas é dificultado. Nesse sentido, novas formas de lidar com a internet surgem cotidianamente, pensadas por desenvolvedores de sistemas e especialistas em saúde mental. Mas, para vencer o vício em celular, a solução é usar outros aplicativos? Parece contraditório, mas foi uma solução encontrada por especialistas pelo mundo.
Detox de dopamina
Algumas pessoas optam pelo "detox de dopamina", uma pausa estratégica para ajudar a reduzir a recepção de estímulos de recompensa rápida. Nesses casos, os indivíduos procuram maneiras de bloquear, ou pelo menos frear, o processo prazeroso associado a mexer no celular, de modo a restaurar o cérebro e reiniciar a capacidade de se concentrar em metas significativas de longo prazo.
Assim, a existência de aplicativos bloqueadores auxilia na diminuição do tempo de tela. O aplicativo Opal, utilizado por Isabela, funciona como uma "bengala" para os usuários focarem na vida à volta, e não no celular. Pelo aplicativo, a pessoa consegue impor regras para o próprio uso do aparelho, seja por limitação de horas, seja por aplicativos bloqueados. Quando surge a vontade de uso, o app só libera o acesso após um passatempo desenvolvido para sanar o desejo imediato de dopamina. Assim, quando o jogo é concluído, o usuário, muitas vezes, perde a vontade de acessar as redes sociais.
Ana Carolina comenta como o uso desse tipo de app pode, realmente, auxiliar no reequilíbrio da dopamina. "Um passo importante é reconhecer o comportamento de vício, para que o paciente possa incluir estratégias e metas para se desvencilhar dele. É válido usar o smartphone com metas predefinidas. Dessa forma, também se terá êxito em cumprir funções que possam ser, de fato, necessárias, além de ter a recompensa em finalizar o uso conforme o tempo determinado."
Isabela vê uma evolução no seu comportamento digital. "Meu tempo de tela não diminuiu drasticamente, mas não sinto a necessidade frequente de usar outros aplicativos. Agora, pego no celular para fazer atividades da faculdade e do trabalho ou para assistir a uma série, no máximo", detalha.
Nas redes sociais, um fenômeno crescente são os "sites de dopamina". Desenvolvidos na Coreia do Sul, esses aplicativos simulam compras de itens ou comidas que nunca chegam. As plataformas criam a sensação da experiência sem que ela aconteça de fato, puramente pelo prazer da expectativa.
Pedir comida ou fazer compras são algumas das atividades disponibilizadas nesses sites. O objetivo não é o resultado final, mas sim a experiência em si, o ritual e a expectativa. Luciana Mendonça Barbosa, neurologista e professora da Universidade Católica de Brasília (UCB), destaca que o cérebro humano não faz a diferenciação exata entre a realidade e o ambiente virtual. "A única diferença é que, quando esse processo se dá por causa de telas, ele acontece muito rápido, e isso é a receita perfeita para o desenvolvimento de vícios."
Como não há a recompensa física no final, o pico de dopamina é seguido por uma queda brusca, o que pode gerar uma sensação imediata de vazio. Para compensar, o usuário entra em um ciclo compulsivo de repetir o ritual, aumentando a tolerância do cérebro e exigindo estímulos cada vez mais frequentes. Para além do prazer imediato, essas plataformas oferecem uma falsa sensação de controle e abundância em um cenário socioeconômico no qual o consumo real se tornou inacessível para muitos jovens.
Para casos mais extremos, uma solução é desinstalar esses aplicativos que geram um desejo. A estudante de 19 anos Luma Canut, vez ou outra, desinstala redes sociais, pois notou uma falta de tempo para fazer atividades simples. "Vivia a vida na correria, exausta no fim do dia e, mesmo assim, sem o sentimento de realização ou conquista. Quando parei para analisar, percebi que a situação se resumia ao tempo excessivo perdido em vídeos de Reels, TikTok e YouTube. Mesmo parecendo loucura, já que vivenciar essas interações artificiais fazia parte do meu dia a dia, parecia impensável tomar uma atitude tão brusca como apagar tudo".
Para ela, os efeitos foram quase imediatos no processo de afastamento das redes, como maior foco e disciplina. "Fui substituindo esses antigos hábitos que me faziam mal por outros mais saudáveis, como ler um livro, estudar ou organizar o que estava fora do lugar, para que a minha mente também pudesse ser colocada em ordem", frisa Luma, que mantém uma relação saudável, com mais consciência, agora com as mídias.
*Estagiária sob a supervisão de Eduardo Fernandes

Revista do Correio
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