Comportamento

Ainda existem divas pop? O fenômeno que atravessa gerações

Da era das estrelas inalcançáveis às artistas que conversam com os fãs pelas redes sociais, o conceito de diva pop mudou, mas o impacto cultural dessas mulheres continua atravessando gerações

Mais do que cantoras, as divas pop se tornam símbolos de identidade, pertencimento e inspiração. No passado, a nível nacional, nomes como Rita Lee, Alcione e Gal Costa Soares eram essas figuras de representatividade. Tanto antes quanto agora, há quem viaje quilômetros para um show, passe horas em filas, decore coreografias e transforme letras de músicas em trilha sonora da própria vida. Embora a indústria musical tenha mudado nas últimas décadas, o fascínio por essas artistas continua vivo.

Se, antes, nomes como Madonna, Beyoncé e Lady Gaga eram vistos quase como figuras inalcançáveis, hoje artistas como Olivia Rodrigo, Charli XCX, Rosalía e Billie Eilish constroem carreiras em um cenário marcado pela velocidade das redes sociais e pela proximidade com os fãs. A pergunta, então, é se ainda existem verdadeiras divas pop. 

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Para o médico e criador de conteúdo sobre cultura pop Luís Trovó, o conceito mudou junto com a forma de consumir música. "Antes, as divas pareciam deusas inalcançáveis. Hoje, as artistas fazem muito sucesso, mas transmitem uma imagem mais próxima do público. O mercado, o relacionamento entre artista e fã e a velocidade do consumo mudaram", explica. Mesmo assim, ele acredita que o título continua existindo, embora com novos nomes. Entre as representantes da geração Z, cita Olivia Rodrigo, Sabrina Carpenter, Billie Eilish e Tate McRae. Já entre as artistas consolidadas, permanecem referências como Beyoncé, Lady Gaga, Adele, Rihanna e Taylor Swift.

Segundo Luís, conquistar o posto de diva vai muito além dos números. "É preciso revolucionar a indústria, impactar a vida das pessoas, posicionar-se socialmente e criar uma arte relevante. As grandes divas marcaram gerações porque transformaram cultura e comportamento."

Construção de identidade

Essa influência, aliás, vai muito além da música. A psicóloga clínica Laynara Paiva explica que essas artistas costumam representar desejos, conflitos e possibilidades com os quais o público se identifica. "Na adolescência e no início da vida adulta, buscamos referências para construir nossa identidade. Muitas divas pop simbolizam autenticidade, liberdade, superação e pertencimento. Uma performance, uma letra ou até a maneira como ocupam o próprio corpo no palco pode despertar sensações de potência e reconhecimento."

Ela ressalta que o vínculo criado entre fãs e artistas também tem uma importante função social. As comunidades formadas em torno dessas cantoras ajudam muitas pessoas a encontrar acolhimento e identificação, principalmente entre aqueles que não se sentem representados em outros espaços. "Compartilhar valores, emoções e experiências fortalece a identidade coletiva e reduz a sensação de isolamento", destaca.

É exatamente esse sentimento que acompanha o cirurgião-dentista Lucas Breno, 31 anos, fã declarado de Miley Cyrus. O primeiro contato aconteceu em 2006, quando assistiu à estreia de Hannah Montana. Desde então, nunca mais deixou de acompanhar a artista. "Ela sempre teve coragem de ser quem é e foi uma grande aliada da comunidade LGBTQIA . Cresci vendo essa postura, e isso influenciou diretamente a forma como construí minha autoestima e meu amor-próprio", conta.

A admiração se traduz em dedicação. Lucas passou madrugadas em filas para garantir um lugar na grade dos shows, e guarda com carinho a apresentação histórica da cantora no Lollapalooza de 2022. "São horas de espera, calor, fome e cansaço. Mas, quando as luzes se apagam, tudo vale a pena. Você percebe que não está apenas assistindo a um show, mas vivendo um momento do qual vai lembrar para sempre", diz.

Para ele, uma diva pop não é apenas alguém que emplaca sucessos nas plataformas digitais. "Ela constrói uma identidade artística, influencia gerações e deixa um legado que continua mesmo quando as tendências passam."

Outro exemplo dessa relação é o estudante de arquitetura e urbanismo Pedro Correia, 21. Admirador de Lana Del Rey, ele acredita que o fascínio pela artista nasceu da sinceridade presente nas letras. "É como se estivéssemos conversando com alguém próximo. Não é que eu me veja nela, mas sinto como se a conhecesse."

O primeiro contato veio na infância, por influência da mãe, que costumava comprar CDs para ouvir durante as viagens de carro. Entre eles estava Born to Die - The Paradise Edition, álbum que até hoje ocupa um lugar especial em sua memória. "As músicas conseguem transformar momentos difíceis em algo bonito. Elas me transmitiram tranquilidade em fases complicadas da minha vida."

Pedro também defende que ser diva pop não depende de recordes de audiência ou das posições nas paradas musicais. Para ele, a diferença está na capacidade de criar universos próprios. "Hoje, qualquer pessoa pode alcançar números impressionantes. O que permanece é a identidade artística. A Lana criou uma estética reconhecível, referências à literatura, ao cinema e à arte. Ela sempre quis transmitir uma mensagem, mais do que simplesmente ser ouvida."

Na avaliação do estudante, uma nova geração já começa a ocupar esse espaço. Além de Olivia Rodrigo e Billie Eilish, ele destaca Chappell Roan, PinkPantheress e Charli XCX, que conquistou novos públicos com a era Brat. "Todas elas criaram estéticas marcantes e construíram uma relação muito próxima com os fãs."

O papel das redes sociais

Se essa proximidade fortalece a conexão, também exige atenção. Para a psicóloga Laynara Paiva, as redes sociais transformaram a relação entre artistas e admiradores. "Hoje, existe a impressão de convivência diária. Acompanhamos bastidores, opiniões e momentos íntimos, o que favorece as chamadas relações parassociais — quando desenvolvemos um vínculo emocional com alguém que não faz parte da nossa convivência."

Segundo a psicóloga, esse tipo de relação pode ser positiva quando inspira autoestima, criatividade e senso de pertencimento. O problema surge quando a admiração deixa de ser saudável. "Se o humor, a autoestima e a identidade passam a depender excessivamente da vida daquela artista, existe o risco de sofrimento emocional. O ideal é que essas figuras sirvam como inspiração para que cada pessoa desenvolva sua própria identidade, e não para viver a partir da história de outra", explica.

Luís Trovó, criador de conteúdo sobre cultura pop, faz uma avaliação semelhante. Para ele, as divas pop continuam influenciando moda, comportamento e debates sociais, mas também podem alimentar relações de dependência. "Os benefícios aparecem quando as pessoas se sentem acolhidas e representadas. Por outro lado, a identificação excessiva pode gerar obsessão, conflitos nas redes sociais e até quadros patológicos."

No fim das contas, o conceito de diva pop está acompanhado as transformações da sociedade. Se antes essas mulheres eram vistas como figuras quase mitológicas, hoje elas dividem espaço com vídeos caseiros, transmissões ao vivo e comentários nas redes sociais. Ainda assim, seguem despertando paixões, moldando comportamentos e servindo de trilha sonora para diferentes fases da vida. 

 


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