Uma casa não precisa parecer nova para ser bonita. Nesta edição da CasaCor Brasília, é justamente o que carrega marcas do tempo que ajuda a construir os ambientes mais interessantes. Em meio a projetos sofisticados, o feito à mão, a madeira, os tons terrosos, a palha, o macramê, as esculturas de barro e os objetos que atravessam gerações ganham espaço. Mais do que tendências decorativas, são elementos que ajudam a contar histórias.
Sob o tema Mente e coração, a mostra ocupa a Casa do Candango, na 603 Sul, até 12 de outubro. São 40 ambientes assinados por 52 profissionais, que exploram diferentes maneiras de transformar a casa em refúgio, espaço de convivência e lugar de pertencimento. A memória afetiva aparece como um dos pontos de encontro entre projetos tão diferentes.
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A sensação é de que a decoração contemporânea, depois de anos flertando com o minimalismo e com espaços cuidadosamente planejados para parecerem impecáveis, agora quer mostrar que existe alguém vivendo ali. Fotografias, louças de família, peças artesanais, obras de arte e objetos trazidos de viagens deixam de ser meros complementos e passam a participar da arquitetura.
Na Casa Deca, assinada por Júlia Zardo e George Zardo, essa ideia aparece na construção de uma casa que parece ter sido formada aos poucos. Tons terrosos, verde, pedra e madeira aproximam o ambiente da natureza, enquanto uma coleção de obras de arte dá personalidade aos espaços.
A arte, ali, não funciona apenas como decoração. É parte da história imaginada para os moradores. "A gente fez uma curadoria de vários artistas. Como se fosse a coleção de alguém que morasse aqui e que tivesse essa memória", conta George. A escolha de materiais também segue essa busca por uma atmosfera mais natural. "Nós usamos materiais com texturas, com cores. Muito próximas da natureza", afirma o arquiteto.
A madeira aparece em diferentes projetos como um dos principais elementos para trazer calor aos ambientes. Ao lado dela, pedras naturais, fibras e tecidos ajudam a criar uma decoração menos rígida e mais tátil. O objetivo parece ser fazer com que os espaços sejam percebidos não apenas pelos olhos, mas também pela sensação que provocam.
Na Casa Deca, essa relação é levada também para a cozinha, que ganha protagonismo. "O maior espaço aqui é a cozinha, que a gente entende ser o lugar que você consegue mais agregar as pessoas. Criar memórias em volta de todo mundo que cozinha. E todo mundo que come aquilo que as pessoas cozinham", explica Júlia.
A ideia de que a casa deve parecer habitada também surge na maneira como as peças são dispostas. Em vez de ambientes que parecem cenários intocáveis, os projetos apostam em objetos que sugerem histórias anteriores e novas lembranças a serem criadas. "Cada parede que tenha quadros e arte transmite e provoca alguma emoção nas pessoas. É aquela casa que você quer ficar, que você sabe que tem personalidade, que alguém mora ali. E cada cantinho conta uma história. A gente quis resgatar isso", resume Júlia.
O valor inestimável
Se há um elemento que atravessa os ambientes, é a valorização do trabalho manual. Cestarias, palha, barro, macramês e peças artesanais aparecem como contraponto à tecnologia e às soluções produzidas em escala. A imperfeição deixa de ser um defeito e passa a ser justamente aquilo que confere identidade.
No Lar das Três Marias, da ON Arquitetura, a manualidade está diretamente relacionada à história das mulheres. O projeto de Luciana Canalli parte de três luminárias criadas em homenagem à mãe, à avó e à bisavó e amplia essa celebração para outras mulheres. "Eu quis fazer uma homenagem às mulheres da minha família, e estender isso de maneira geral. Isso refletiu na curadoria. Todo o mobiliário, as obras de arte e as peças artesanais e adornos são 100% feitos por mulheres", conta Luciana.
O ambiente também incorpora a ideia de casa-ateliê, aproximando o morar do fazer criativo. "Eu quis trazer um conceito de ateliê, então é uma sala com um ateliê integrado, um conceito que a maioria dessas mulheres que têm jornada criativa iniciam dentro de casa", explica.
Texturas e materiais ligados ao artesanato ajudam a reforçar a proposta. "Quis trazer também um ambiente vivo, pra parecer que tem uma artista morando aqui mesmo. Além disso, quis trazer texturas e materiais que fazem referência ao artesanato, à manualidade, a texturas brasileiras também."
A presença do barro é outro destaque. Entre as peças do projeto, está uma luminária desenvolvida em parceria com o Instituto Maria do Barro. "A gente tá lançando a luminária Colheita junto com o Instituto Maria do Barro. São várias frutas, e a ideia é que você possa encomendar e montar como quiser", destaca.
Objetos que atravessam gerações
Outra tendência que chama atenção é o retorno dos objetos familiares. Louças, discos, móveis e pequenos objetos que poderiam estar na casa de qualquer avó são incorporados aos projetos com naturalidade. A lógica é simples: aquilo que tem significado não precisa ser substituído por uma peça nova apenas porque a decoração mudou.
No ambiente Onde a Casa Pulsa — Living Gourmet, da Giovanna Leal Arquitetos, essa tendência ganha forma em um louceiro que funciona como centro da composição. O projeto mistura uma arquitetura contemporânea às raízes pessoais da arquiteta.
"Trouxemos como conceito uma casa que realmente traz aquela vibração de casa cheia, de conversa atravessada, para que a gente tenha sempre aquela sensação de casa de vó", conta Giovanna.
A memória familiar aparece diretamente nos objetos. "O louceiro é o centro do projeto, com as louças de casamento dos meus avós. Essa questão da arquitetura mais moderna com a questão das raízes que a gente carrega dentro da gente."
É uma decoração que não tenta esconder de onde veio. Ao contrário: deixa que as marcas pessoais sejam protagonistas. Essa mesma lógica ajuda a explicar a força dos tons terrosos e dos materiais naturais nesta edição. Marrons, beges, verdes, madeira, pedra e fibras formam uma paleta que remete não apenas ao Cerrado e à natureza, mas também ao aconchego. São cores que diminuem a distância entre o ambiente de mostra e a casa real.
Para arquiteta e uma das organizadoras da Casacor Brasília Eliane Martins, o tema da edição busca justamente aproximar a arquitetura das experiências humanas. "A proposta coloca em diálogo duas dimensões que muitas vezes aparecem separadas: a mente, ligada à razão, tecnologia, inovação e conhecimento; e o coração, relacionado ao afeto, à memória, à intuição e às relações humanas", ressalta.
Ela destaca que, em meio ao avanço da tecnologia, os espaços também passam a valorizar aquilo que é essencialmente humano. "Na arquitetura, no design e na arte, isso se traduz em espaços que não respondem apenas à função ou à estética, mas também à forma como nos sentimos, nos relacionamos e construímos pertencimento."
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