A vida no campo é o sonho daqueles que desejam uma rotina mais pacífica. Afinal, quem nunca pensou em largar tudo e viver em uma fazenda? É nessa paixão pelas peculiaridades da lida rural que muitos tentam mergulhar nessa cultura, mesmo a distância. Antes, a música era um fator conectivo, especialmente para quem morava na cidade. Agora, com as redes sociais a todo vapor, a moda e os trajes característicos das festas de interior também chegam aos grandes centros urbanos.
No passado, essas peças tradicionais eram vistas, somente, para serem utilizadas no dia a dia do trabalho rural. Contudo, a estética sertaneja — ou country — veio com força para se transformar em um fenômeno popular. Segundo a professora de moda Krystie Ribeiro, o movimento tem raízes sociológicas e econômicas profundas.
"O êxodo rural do século 20 trouxe a 'cultura caipira' para as metrópoles brasileiras, mas foi a força midiática, das novelas épicas às vitrines dos megaeventos, que romantizou o campo. Em tempos de caos e aceleração urbana, o ambiente rural tornou-se um refúgio aspiracional. Impulsionado pela narrativa econômica de que 'o agro é pop' e gera riqueza, o visual deixou de ser estigmatizado como antiquado para se consolidar como um símbolo de status e pertencimento", analisa Krystie.
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Essa migração do estilo interiorano para o centro do debate fashion não aconteceu por acaso. Trata-se de uma construção cultural e econômica que ganhou tração ao longo de décadas. A ascensão do estilo sertanejo no Brasil coincide com um movimento global de valorização do visual western. Grandes casas de moda internacionais levaram para os desfiles de Paris e Nova York chapéus estruturados, jaquetas com franjas e fivelas imponentes, conferindo um novo patamar de elegância à estética do campo.
Para Krystie Ribeiro, a moda funciona como um reflexo antropológico. "A moda atua como um espelho da antropologia cultural, e o mito do cowboy norte-americano exerce um fascínio que pavimenta o caminho para o sertanejo luxuoso. Quando grifes como Louis Vuitton, Dior e Ralph Lauren colocam chapéus estruturados e jaquetas franjadas nas passarelas de Paris, elas elevam a estética globalmente", afirma a especialista.
Os fenômenos musicais
Se a tradição pavimentou o caminho, o surgimento de novos subgêneros musicais e a força das redes sociais injetaram ritmo e modernidade nessa tendência. O agronejo, por exemplo, redefiniu o comportamento da juventude rural, mesclando o sertanejo com beats de funk, trap e música eletrônica. O resultado reflete-se diretamente no espelho: botas texanas agora dividem espaço com sneakers exclusivos, e fivelas de rodeio coexistem com logomarcas de grifes europeias.
O stylist Fernando Lackman ressalta que essa renovação é impulsionada pela dinâmica ágil das plataformas digitais. "O agronejo é um bom exemplo de como a cultura sertaneja está em transformação. Ele aproxima o universo rural de uma juventude conectada, urbana e muito influenciada pelas redes sociais. O TikTok e o Instagram aceleraram esse processo porque transformaram artistas e influenciadores em verdadeiros formadores de opinião. Um look usado por um cantor pode, em poucas horas, virar referência para milhares de pessoas. A moda sertaneja ficou mais rápida, mais democrática e também mais aberta a experimentações", analisa Lackman.
No centro dessa máquina de tendências estão os artistas sertanejos, que assumiram o papel de verdadeiros embaixadores do estilo. Lackman destaca que eles funcionam como vitrines capazes de reverberar escolhas estéticas por toda a cadeia do consumo. "Quando um cantor aparece usando determinada bota, uma jaqueta, uma camisa ou um acessório, aquilo rapidamente chega ao desejo do consumidor. E existe algo muito interessante nesse movimento: a mesma referência pode aparecer em diferentes níveis de mercado. Uma peça básica pode inspirar uma versão produzida pelo comércio popular e virar modismo", observa o stylist.
Elementos ícones, como o chapéu, a fivela, a bota e as franjas, permanecem intocáveis em sua essência, alterando-se apenas a forma como são compostos nas produções contemporâneas. "Alguns códigos são praticamente a assinatura do country. A bota, o chapéu e a fivela, principalmente, continuam muito fortes porque carregam uma história e uma identidade visual imediata. O que muda é a maneira de usá-los. A bota pode ser mais sofisticada ou exaggerated; o chapéu pode ganhar aplicações e serem feitos em materiais mais diversos; e a fivela pode se transformar em objeto de desejo."
Historicamente associado à masculinidade rústica, o visual country foi profundamente ressignificado pela presença e pelo protagonismo das mulheres. Ao mesclar elementos do sertanejo com peças sofisticadas e românticas, o público feminino ampliou as fronteiras da estética western. "Elas trouxeram sensualidade, feminilidade, alfaiataria, transparências, saias, vestidos e uma série de novas possibilidades para esses códigos. Hoje, a mulher não precisa necessariamente vestir um 'look country' completo. Ela pode usar uma bota western com um vestido romântico ou uma fivela com uma produção sofisticada", pondera Fernando Lackman.
Para o stylist, essa liberdade é justamente o que faz a estética sobreviver e continuar relevante. "O country contemporâneo é sobre o que faz sentido para cada pessoa e não sobre modismos curtos", completa. Se por um lado a estética esbanja apelo visual e aceitação comercial, por outro enfrenta dilemas urgentes quanto à sustentabilidade e à responsabilidade socioambiental. A cadeia produtiva da moda western é fortemente ancorada no couro bovino, no jeans de alta gramatura e em adornos metálicos.
Com a consolidação das pautas ESG (Ambiental, Social e Governança), o setor busca alternativas tecnológicas e inovadoras para continuar entregando a rústica durabilidade característica do estilo sem negligenciar o impacto ambiental e a ética animal. Krystie Ribeiro sinaliza que o futuro da moda country passa necessariamente pelo investimento em biomateriais e economia circular.
"Aqui reside o maior atrito contemporâneo da moda western. A espinha dorsal desse guarda-roupa é o couro bovino, o denim pesado de alta gramatura e a estamparia em metal maciço — materiais historicamente associados a um alto impacto ambiental. Diante de um consumidor pautado pelas métricas ESG, as marcas enfrentam o desafio de manter a durabilidade extrema e o apelo rústico sem ignorar a ética. A resposta do mercado tem sido a pesquisa tecnológica: a adoção crescente de biomateriais, como couro de cactos e micélio (cogumelo), o uso de algodão reciclado e a circularidade (upcycling) na ourivesaria country", finaliza a professora.
