
Ana Miletti*
As maneiras de trabalhar mudaram e, com essas alterações, as roupas ganharam novos sentidos. Vestimentas que transitam do home office para o trabalho presencial e até para o happy hour seguem códigos diferentes dos propostos antigamente.
Após o período da pandemia, o conforto ganhou ênfase, além da necessidade de mostrar a personalidade por meio dos looks. Durante décadas, vestir-se para o escritório significava seguir padrões uniformes e pré-determinados. Hoje, a estética se tornou mais livre e o fashion é saber se adaptar a cada situação.
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Estudo publicado na revista científica Fashion Practice demonstra um conceito conhecido como "cognição indumentária", no qual reflete sobre como as roupas têm poder sobre a mente das pessoas. Quando o indivíduo utiliza algo que o faz se sentir bem, o desempenho aumenta, segundo a pesquisa.
Essa construção do traje envolve entender uma série de fatores, como o perfil do setor, a cultura da empresa e as dinâmicas do dia a dia. Nesse sentido, as roupas passaram a mostrar, além da identidade, posicionamento e intenção. No cotidiano, manter essa consistência torna-se um desafio.
A consultora de imagem Karine Mendonça explica como pequenos toques, que não exigem um grande custo, podem contribuir para a montagem dessa imagem forte dentro dos escritórios. “A percepção de valor na imagem profissional depende mais do cuidado com a apresentação do que do preço das roupas. Ajustes de alfaiataria e manutenção da imagem pessoal podem ser cruciais para essa construção.” Ela discorre sobre como ajustes na bainha, nas mangas e na cintura fazem com que as roupas pareçam feitas sob medida.
Além disso, segundo ela, roupas passadas, sapatos limpos e cabelos arrumados elevam o nível de qualquer look, por serem a primeira impressão visual. Sara Miranda, de 19 anos, é estudante de direito e estagiária do Detran-DF. Ela explica que, apesar de as roupas não serem tão restritas como nos estereótipos, ainda há uma ideário na área de advocacia. "Eu, como estagiária, tento seguir o jeito como as pessoas em cargos mais altos se vestem. Não sinto uma pressão, mas também não quero aparentar desleixo."
Escolhas estratégicas
Com a correria, escolher a vestimenta diariamente é uma missão complicada e, muitas vezes, é preciso desenvolver o poder da multiplicação. Para evitar o consumo exagerado, guarda-roupas com peças clássicas ganham espaço.
Talita Martins, consultora comercial da Neuf, empresa de assessoria de imagem e visual, lembra que a estruturação do armário facilita o cotidiano. “Planejamento é uma ferramenta de produtividade. Reservar alguns minutos para organizar os looks da semana, considerando compromissos, reuniões e deslocamentos, reduz o estresse das manhãs e evita decisões por impulso”, ensina.
Nesse sentido, uma regra disseminada por especialistas da área é que, para um guarda-roupa funcional, cada parte de baixo (calça/saia) deve conseguir criar pelo menos três combinações com partes de cima diferentes. Essa lógica faz parte do conceito de armário cápsula: uma seleção inteligente de poucas peças, duráveis e versáteis, que se combinam entre si. Além de economizar tempo nas manhãs, a estratégia alinha a imagem profissional a um consumo mais consciente e sustentável.
As peças, no entanto, podem se encaixar em diversos contextos e formas de expressão. A assinatura do estilo vem acompanhada de identidade, com modelagens e acessórios diferentes. Camila Tonissi, 22 anos, recém-formada em arquitetura, percebeu uma necessidade de transição entre o ambiente acadêmico e o profissional."Eu costumo usar, principalmente, calças de alfaiataria ou jeans, camisas e blusas básicas que cobrem toda a barriga. Também uso vestidos longos, evitando usar mais curtos."
Além do básico
Para sair do básico de sempre, a aposta pode ser nos aspectos têxteis e nos padrões. Karine explica que o uso de texturas, em materiais como couro, linho, tweed e seda, e estampas discretas, com padronagens atemporais como risca-de-giz e poá micro, traz mais personalidade aos looks de trabalho. Ademais, as cores não neutras podem aparecer em detalhes, como em bolsas, sapatos ou até no batom.
Nessa ótica, os elementos complementares às roupas também atraem o olhar e transmitem uma mensagem. “As pessoas costumam olhar primeiro para o rosto e depois para os pés e acessórios”, complementa Karine. Assim, sapatos e bolsas desgastados desvalorizam looks bem montados.
A estrutura e o formato também influenciam a imagem. Sapatos com estrutura firme e bico fino ou alongado transmitem poder, autoridade e liderança. Calçados de bico redondo, tênis ou sapatilhas comunicam acessibilidade, praticidade e dinamismo. Além disso, bolsas estruturadas passam a mensagem de organização, profissionalismo e firmeza, enquanto bolsas muito moles ou desestruturadas passam uma imagem mais informal.
Karine ressalta que, a fim de comunicar intenção e elegância, sapatos e bolsas devem conversar em nível de formalidade e temperatura de cor, mas não precisam ser rigorosamente do mesmo tom. Essas dicas valorizam a vestimenta e marcam a identidade no ambiente de trabalho.
Um dos pontos mais relevantes, porém, é saber montar looks que respeitem as formas naturais do corpo. “Entender o próprio biotipo não significa seguir regras rígidas, mas reconhecer quais modelagens, tecidos e proporções favorecem sua silhueta e proporcionam conforto ao longo do dia. Quando conforto e bom caimento caminham juntos, a pessoa transmite mais segurança, naturalidade e presença — fatores que impactam diretamente a percepção profissional”, frisa Talita.
Ela relembra também que, com a ascensão na carreira, o look deve ganhar mais compromisso: “A imagem deve refletir a responsabilidade, a maturidade e o posicionamento exigidos pela nova função. Isso não significa abandonar a personalidade ou mudar completamente o estilo, mas fazer escolhas mais intencionais”. Nesse sentido, peças com melhor acabamento, cores bem coordenadas e um visual mais estruturado ajudam a comunicar liderança, autoridade e credibilidade. A imagem passa a reforçar a mensagem de que aquela pessoa está preparada para ocupar o novo espaço que conquistou.
Em quais peças investir para o ambiente de trabalho?
No guarda-roupa feminino:
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Blazer de alfaiataria em tom neutro: corte reto e bom caimento (preto, marinho ou bege/marrom).
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Calça de alfaiataria reta ou pantacourt: de preferência em tecido com bom caimento (encorpado, mas confortável).
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Camisa de botão branca ou off-white: de algodão estruturado ou seda/viscose.
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Blusa de malha encorpada ou tricô leve: com decote discreto (gola alta ou V suave).
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Vestido envelope ou tubinho estruturado: com comprimento mídi, fácil de transitar entre o formal e o casual elegante.
Para o guarda-roupa masculino:
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Blazer desestruturado ou costume marinho/cinza: sem ombreiras rígidas para garantir versatilidade.
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Camisa social clara (branca ou azul-clara): em tricoline de algodão.
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Calça de alfaiataria: nas cores bege, marinho ou cinza-chumbo.
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Camisa polo estruturada (se o dress code permitir): sem estampas ou logos chamativos.
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

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