
A minha geração aprendeu cedo a ter medo de dentista. Bastava ouvir o ruído daquele motorzinho para o corpo ficar tenso, o coração apertar. Não era exatamente uma ideia. Era uma memória física. Um pequeno estado de alerta instalado em algum lugar entre a infância e a cadeira reclinável. Por isso, sempre acho curioso observar meus filhos. Eles pertencem a uma geração que cresceu com outra relação com a saúde bucal. Prevenção, escovação, flúor, acompanhamento regular. Muitos jovens passam a vida toda sem uma única cárie.
Foi com esse pequeno repertório de traumas antigos que entrei, recentemente, numa clínica odontológica em Brasília e tive uma experiência que me fez pensar sobre uma coisa aparentemente simples :o que nos faz sentir seguros nas mãos de alguém? O lugar se chama Crool By Rios. Há duas unidades na cidade, uma na Asa Sul e outra no início do Lago Sul. À primeira vista, o que chama atenção é a beleza. A arquitetura, as obras de arte, a luminosidade, os equipamentos. Há alguma coisa ali que lembra mais uma clínica do futuro do que o consultório odontológico.
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Mas beleza, sozinha, não acalma ninguém. Tecnologia, também não. Ela ajuda, claro. E muito. Fazer exames, radiografias e escaneamentos no mesmo lugar, ter recursos de imagem sofisticados, planejamento preciso, equipamentos modernos... tudo isso transmite competência. Tem até televisão no teto exibindo imagens tranquilas, tudo parece dizer ao paciente: pode relaxar, aqui você está seguro.
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É justamente nesse momento que percebemos com mais clareza a diferença entre ser atendido e ser cuidado. Na Crool, o que mais me impressionou não foram as máquinas. Foram as pessoas. O doutor Cassiano e o doutor Rios, sócios da clínica, trabalham em áreas diferentes e complementares, da cirurgia ao planejamento odontológico mais complexo. Mas o que se percebe, ali, é que construíram algo que vai além da soma de especialidades: uma cultura de cuidado.
Em nossa primeira sessão, doutor Cassiano e eu trocamos confidências e até nos emocionamos juntos, ele contando do falecimento da mãe dele e eu da perda recente de meu pai. Estabelecemos logo de cara uma relação de afeto, respeito e admiração. Tenho sido atendida pela doutora Cinthya. Ela é jovem, bonita, muito competente e cheia de delicadeza. A maneira como pergunta se está tudo bem. Como explica. Como percebe uma tensão. Como respeita meu tempo. Como consegue ser precisa sem ser fria. Essas qualidades representam um superpoder diante de um paciente em um momento vulnerável e delicado.
Recentemente, o doutor Rios fez aniversário. Vi que foi celebrado pelos amigos, pela equipe e também por pacientes. Achei aquilo revelador. Porque existe um tipo de reconhecimento que dinheiro, título ou currículo nenhum produz: a gratidão de quem um dia colocou o próprio corpo nas suas mãos e se sentiu bem cuidado; é quando a competência do outro nos permite abandonar a vigilância... e no meu caso, mudar até as memórias... que (fato inédito) de agora em diante serão de alegria ao ir no dentista!
Revista do Correio
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