Crônica

Crônica da Revista: Concerto pela paz mundial

No Dia Internacional da Paz, orquestra e Peace Talks se unem em Brasília para lembrar que a paz se constrói antes que a guerra comece

rev maria paula 2009 -  (crédito: kleber sales)
rev maria paula 2009 - (crédito: kleber sales)

Há palavras que repetimos tanto que, às vezes, correm o risco de perder o sentido. Paz é uma delas.

Falamos em paz quando a guerra começa. Quando a violência explode. Quando o diálogo já fracassou. Quando as imagens do horror atravessam nossas telas e nos obrigam, por alguns instantes, a interromper a rotina. Pedimos paz quando ela já nos falta — quase como quem chama pela água depois que o incêndio tomou conta da casa.

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Mas a paz não pode ser apenas uma palavra de emergência.

Ela precisa ser aprendida, cultivada e praticada muito antes que a violência aconteça. Precisa estar presente na maneira como educamos nossos filhos, atravessamos nossas diferenças, reagimos ao contraditório e reconhecemos a humanidade de quem não pensa como nós. Porque a paz não nasce da ausência de conflitos. Nasce da capacidade de enfrentá-los sem transformar o outro em inimigo.

É por isso que, em 21 de setembro, Dia Internacional da Paz, Brasília escolherá fazer uma declaração.

Enquanto alguns declaram guerra, nós vamos declarar a paz.

Ao lado do maestro Cláudio Cohen, também embaixador da Paz, tenho a alegria de realizar, no Teatro Nacional de Brasília, o Concerto pela Paz Mundial. Sob sua regência, a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro interpretará obras que atravessaram o tempo carregando ideais de fraternidade, esperança e união entre os povos. 

Entre elas estará o movimento final da Nona Sinfonia de Beethoven, inspirado na Ode à Alegria, de Friedrich Schiller. Uma obra monumental, concebida por um homem que já enfrentava a própria surdez e que, ainda assim, foi capaz de imaginar musicalmente uma humanidade reunida em fraternidade. Também ouviremos Imagine, de John Lennon, esse convite aparentemente simples — e profundamente revolucionário — para que tenhamos coragem de imaginar um mundo diferente.

Imaginar não é fugir da realidade. É o primeiro passo para transformá-la.

Aquela noite, no entanto, não será feita apenas de música. Entre uma obra e outra, Cláudio e eu conduziremos pequenas intervenções que chamamos de Peace Talks: breves reflexões sobre diálogo, tolerância, empatia, cooperação, pertencimento e responsabilidade coletiva.

Temas que podem parecer abstratos, mas que se manifestam nas escolhas mais concretas da vida. A paz começa na maneira como escutamos. No cuidado com as palavras. Na recusa em humilhar. Na coragem de discordar sem desumanizar. Na disposição de construir pontes justamente onde o medo e a intolerância levantaram muros. O evento é gratuito, mas é preciso retirar o ingresso no Sympla.

Uma orquestra é, por si só, uma belíssima metáfora da convivência. Cada instrumento possui uma voz, uma intensidade e uma função. Ninguém precisa deixar de ser quem é. O violino não precisa se transformar em trompete, nem o oboé silenciar para que o violoncelo seja ouvido. Mas todos precisam escutar uns aos outros. A harmonia não nasce da uniformidade. Nasce da diferença coordenada por um propósito comum.

Por isso, mais do que um espetáculo, o Concerto pela Paz Mundial pretende ser um gesto simbólico para o Brasil e para o mundo.

E, quando a última nota desaparecer no silêncio, que cada pessoa possa sair dali levando consigo uma pergunta:

Que paz sou capaz de construir, todos os dias, a partir de mim?

 


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postado em 20/09/2026 06:00
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