As belezas e novidades do ecoturismo no Mato Grosso do Sul
A visita às águas cristalinas de Bonito não é mais o único objetivo do ecoturismo no estado. Agora, o município faz parte de uma rota de passeios que mistura diferentes biomas do Brasil em uma viagem que grita natureza preservada e belezas naturais
Pôr do Sol no Rio Miranda, no Mato Grosso do Sul: beleza divina - (crédito: Ronayre Nunes/CB/D.A. Press)
Escolher o destino turístico das próximas férias não é nada difícil. Existem incontáveis opções que agradam desde os festeiros até os mais contemplativos. Quem tem um orçamento mais folgado pode até arriscar os destinos trends das redes, como Paris ou Pequim. Quem está com a grana mais curta pode escolher as diversas praias do litoral brasileiro que têm toda pinta de Caribe. A grande dúvida é: quem quer sair do óbvio vai para onde? A resposta pode ser "Mato Grosso do Sul".
O segundo mais novo estado do Brasil (instaurado oficialmente em 1979, dez anos antes da criação do mais jovem, Tocantins), Mato Grosso do Sul tem conhecidas fontes de riqueza no agronegócio. Desde a pecuária, com um dos maiores rebanhos bovinos do país até a agricultura de milho e soja. Contudo, alguns podem se surpreender com o fato de o estado conseguir balancear uma estrutura em expansão para o ecoturismo.
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Para conhecer parte dessa rota, o Correio visitou, no começo deste mês, a convite da Latam e da Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul (Fundtur), diversos locais da região e conta, em detalhes, como fazer um passeio imerso em uma das mais profundas e exuberantes naturezas que o Brasil pode apresentar.
Faça as malas
Tudo começa na viagem até o aeroporto de Bonito, município pioneiro do ecoturismo no estado e que agora forma uma espécie de cinturão de belezas naturais no sudoeste de Mato Grosso do Sul. Os voos da Latam vão e voltam entre Guarulhos (SP) e Bonito duas vezes na semana, às quartas-feiras e aos sábados. A partir de 30 de outubro, os domingos também entrarão na rotina de voos. Outras companhias aéreas também voam para Bonito de diferentes aeroportos ao longo da semana.
Aeroporto de Bonito, em Mato Grosso do Sul: porta de entrada para o ecoturismo no estado
(foto: Fotos: Ronayre Nunes/CB/D.A. Press)
Em comparação com o Aeroporto Internacional de Brasília — Presidente Juscelino Kubitschek, o espaço de pousos e decolagens de Bonito é menor, mas conta com toda a infraestrutura necessária para o visitante, como serviços de locação de veículos. Um detalhe exige a atenção dos viajantes: os passeios de ecoturismo em Mato Grosso do Sul exigem o intermédio e o planejamento logístico de uma agência de viagens.
A razão é simples: a sustentabilidade do ecoturismo depende do controle rigoroso do fluxo de visitantes. O excesso de pessoas comprometeria a preservação ambiental que fundamenta a modalidade. Assim, as agências organizam os itinerários individuais e em grupo para otimizar a experiência na região. Vale ressaltar que, para a alta temporada (férias escolares e feriados prolongados), a recomendação é efetuar as reservas com antecedência de quatro a seis meses.
Sobre a vocação do Mato Grosso do Sul para o ecoturismo, Débora Bordin, representando Fundtur, defende que não existem comparações com outros estados e que o setor é um catalisador de consciência ecológica para os visitantes. "Não é só você vir e ver bichos. Você ensina para o turista que ele precisa conservar aquela natureza, então você também dá uma aula de educação ambiental. Eu falo, sem dúvida nenhuma, que o nosso maior atrativo é a natureza e a forma como a gente trata a natureza", argumenta.
Águas cristalinas do Recanto Ecológico Rio da Prata, no Mato Grosso do Sul: natureza preservada
(foto: Ronayre Nunes/CB/D.A. Press)
Um levantamento chamado Ecoar, de 2024, realizado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), pela Associação Brasileira de Empresas de Turismo de Aventura (Abeta), pela Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) e pelo Ministério do Turismo, comprova a relevância econômica do setor. A cadeia turística em Mato Grosso do Sul movimenta entre R$ 1,8 bilhão e R$ 2 bilhões em faturamento direto anualmente, sendo o ecoturismo responsável por cerca de 70% desse montante.
A métrica de "faturamento direto" evidencia a amplitude do setor. Diferentemente de outros segmentos econômicos, o turismo dinamiza uma extensa cadeia de impactos indiretos. Ao realizar um passeio pelas águas cristalinas da Estância Mimosa, em Bonito, no sudoeste do estado, o impacto financeiro vai muito além da rede hoteleira.
A jornada envolve o agente de viagens (emissão de vouchers), o motorista (transporte), a recepção da fazenda e o guia de turismo. A atividade movimenta a indústria de equipamentos (roupas de neoprene e coletes salva-vidas), a produção agrícola local para o fornecimento do almoço e serviços operacionais para a manutenção de acessos internos. Na ponta final, a remuneração dos profissionais injeta recursos no comércio local e em serviços básicos, fortalecendo a economia regional.
Além da natureza
O itinerário de viagem da reportagem incluiu a cobertura do Festival de Inverno de Bonito, um dos principais eventos culturais do Centro-Oeste, que integra arte, música, ecologia e desenvolvimento sustentável. Realizado gratuitamente em praça pública desde os anos 2000, o evento transforma o município em um polo multicultural, com oficinas socioambientais, espetáculos de teatro e dança, feiras de artesanato, cinema e gastronomia regional, estimulando o debate sobre a conservação do Cerrado e do Pantanal.
Seu Jorge durante show no Festival de Inverno de Bonito: região expande opções de lazer além da natureza
(foto: Ronayre Nunes/CB/D.A. Press)
A programação cultural demonstra a vitalidade da vida noturna local, desmistificando a ideia de isolamento frequentemente associada ao ecoturismo. A infraestrutura atende às demandas tecnológicas atuais: os meios de hospedagem oferecem conexão Wi-Fi nos apartamentos e os veículos de transporte contam com internet via satélite Starlink.
Sustentabilidade
A reportagem se hospedou no Zagaia Eco Resort. Situado a 5km do centro de Bonito, o empreendimento opera sob diretrizes rigorosas de gestão ambiental. “A sustentabilidade compõe o modelo de negócios e direciona nossos investimentos. A atuação em um ambiente ecológico exige que a operação reflita esses mesmos princípios”, afirma Guilherme Miguel Poli, sócio do resort.
Ana Rossi, gerente geral do hotel Zagaia: projeto de expansão em sustentabilidade
(foto: Fotos: Ronayre Nunes/CB/D.A. Press)
A estrutura inclui estação de tratamento de efluentes com polímero mineral, reciclagem de mais de 12 toneladas de resíduos e usina fotovoltaica responsável pelo suprimento de 90% da demanda de energia elétrica. “A prefeitura exige o compromisso dos empresários com a preservação. O solo arenoso de Bonito requer atenção com o efluente para evitar a contaminação de lençóis freáticos e rios. Estamos estruturando uma nova unidade de tratamento projetada para atender até 24 mil pessoas”, explica Ana Rossi, gerente-geral do Zagaia.
Natureza divina
Após a estadia em Bonito, o roteiro seguiu para o Pantanal Experiência, no município de Miranda, localizado a 130km. O local ocupa as instalações de uma antiga cerâmica da década de 1950 e oferece atividades voltadas à cultura pantaneira, como cavalgadas, acompanhamento de comitivas e a prática de fly fishing (pesque e solte).
Pantanal Jungle Lodge: estadia no coração do Pantanal
(foto: Ronayre Nunes/CB/D.A. Press)
Na região de Passo do Lontra, no município de Corumbá, às margens do Rio Miranda, situa-se o Pantanal Jungle Lodge. O hotel está inserido no coração do Pantanal sul-mato-grossense e oferece acesso a passeios fluviais pelo Rio Vermelho e Rio Miranda.
Nas margens, a presença de onças-pintadas é iminente. O maior felino das Américas e toda a diversidade de animais e aves na região, contudo, não prende tanto a atenção quando a beleza quase surreal de um pôr do Sol na cabeceira do Rio Miranda. É uma daquelas experiências arrebatadoras, que farão você esquecer do corpo por alguns segundos e entrar em um estado mental além do perene, quase tocando no divino.
Pôr do Sol no Rio Miranda, no Mato Grosso do Sul: beleza divina
(foto: Ronayre Nunes/CB/D.A. Press)
Águas pantaneiras
Na sequência, a visita contemplou a Estância Mimosa, entre os municípios de Bonito e Bodoquena. A área situa-se em uma zona de ecótono — ponto de transição entre o Cerrado, o Pantanal e a Mata Atlântica. O percurso é acompanhado por guias credenciados (como todos os outros passeios) e prevê paradas para banho em cachoeiras. Com 420 hectares de área e 27 anos de operação, o local desenvolve ações de monitoramento de avifauna em parceria com o Instituto Arara Azul.
Guilherme Maciel, gestor da Estância Mimosa: aposta em negócio sustentável
(foto: Ronayre Nunes/CB/D.A. Press)
Sobre a relação entre atividade econômica e conservação, o gestor da Estância Mimosa, Guilherme Maciel, pontua: "A operação demonstra a viabilidade da integração entre negócios e preservação diária. A atividade pecuária tradicional demandaria cerca de sete trabalhadores na propriedade. Com a estruturação do ecoturismo, geramos 22 empregos diretos," compara.
Gruta e abismo
O itinerário reservou a visita à Gruta do Lago Azul e ao Abismo Anhumas. A Gruta do Lago Azul, principal cartão-postal do município, possui formações calcárias e um lago subterrâneo de águas azuis a 80 metros de profundidade, onde a incidência de luz solar gera efeitos ópticos na água (por isso a cor acentuada) — vale lembrar que o contato direto ao líquido é vedado para fins de conservação.
Gruta do Lago Azul, no Mato Grosso do Sul: ilusão de ótica por conta do calcário encanta com águas azuis
(foto: Ronayre Nunes/CB/D.A. Press)
O Abismo Anhumas é uma experiência de vida. Os visitantes descem 72 metros (o equivalente a um prédio de 24 andares) por um sistema de rapel elétrico através de uma pequena fenda na rocha. Não existe esforço físico (além de "empurrar" o corpo contra as rochas), mas o medo de altura pode ser paralisante. Lá em baixo, existe um deck sobre um lago cristalino com cerca de 80 metros de profundidade.
O local é frio (mesmo com as roupas especiais neoprene) e escuro. A água mais gelada ainda. O cenário é formado por um salão gigantesco repleto de estalactites e estalagmites — formações minerais "pontudas" criadas pelo calcário e carbonato de cálcio em cavernas. As primeiras surgem no teto das cavernas, as segundas são formadas no chão. É possível fazer um passeio de bote, flutuação com respirador ou mergulho, para quem possui certificação.
A reportagem experimentou a flutuação e o passeio de bote. Ficar no barco é mais tranquilo do que estar na água. A flutuação pode ser um pouco assustadora para os menos afeitos a adrenalina. A temperatura baixa e a sensação de profundidade dentro do ambiente já fechado pode ser um pouco assustadora e precisa de uma dose extra de paciência e convencimento dos guias.
Uma vez na água, contudo, vale tentar relaxar e contemplar. Você pode ir junto com o guia em caso de maior ansiedade. O grupo segue junto em meia volta dentro do lago. Novamente, é a sensação de estar imerso em uma natureza absoluta, onde problemas do cotidiano são supérfluos.
Abismo Anhumas no Mato Grosso do Sul: beleza gelada e radical
(foto: Ronayre Nunes/CB/D.A. Press)
Aves e peixes
A programação encerrou-se com visitas ao Buraco das Araras e ao Recanto Ecológico Rio da Prata, no quarto dia de viagem. O Buraco das Araras consiste em uma dolina de 100 metros de profundidade e 500 metros de circunferência localizada em Jardim, município a 70km de Bonito. Depois de ser um lixão, a área passou por processo de recuperação ambiental e serve de habitat para cerca de 120 araras catalogadas.
Buraco das Araras, no Mato Grosso do Sul: conservação para manter 120 araras preservadas
(foto: Ronayre Nunes/CB/D.A. Press)
No Recanto Ecológico Rio da Prata, também em Jardim, a principal atração é a flutuação ao longo do Rio Olho D'Água. A transparência da água decorre da concentração de calcário, que atua na decantação de impurezas.
Cachoeira na Estância Mimosa: passeio com várias quedas dágua
(foto: Fotos: Ronayre Nunes/CB/D.A. Press)
A atividade exige a utilização de roupas de neoprene, máscara, snorkel e o cumprimento de orientações ambientais, como o cuidado de não apoiar os pés no leito do rio para preservar a visibilidade da água. A descida dura cerca de 20 minutos e permite a observação de espécies nativas a centímetros, como a piraputanga.
Gastronomia
A gastronomia regional ganha os olhos pelos pratos fundamentados na história e nos insumos locais. “A base culinária une referências indígenas e a tradição pantaneira, com influências históricas da gastronomia paraguaia consolidadas após a Guerra da Tríplice Aliança”, explica o chef Sylvio Trujillo, do Restaurante Bacuri.
Piraputanga corumbaense: prato típico do restaurante Bacuri, em Bonito
(foto: Ronayre Nunes/CB/D.A. Press)
No Restaurante Juanita, a chef, homônima do nome do espaço, destaca o preparo do pacu na brasa e da língua de jacaré. “O manejo exige controle sanitário estrito, temperatura controlada para incubação dos ovos e separação dos animais até o período de abate aos três anos”, detalha a chef Juanita.
Juanita, chef do restaurante homônimo: alegria para atrair clientes com pratos exóticos
(foto: Ronayre Nunes/CB/D.A. Press)
Entre as bebidas típicas, destaca-se o consumo de suco e destilados derivados da guavira, fruta símbolo de Mato Grosso do Sul.
Preços
Os custos das atrações variam conforme o tipo de atividade, sazonalidade e contratação de transporte. A flutuação no Recanto Ecológico Rio da Prata, que inclui trilha interpretativa de 300 metros, percurso fluvial de 1.700 metros, equipamentos, almoço e acompanhamento de guia, custa R$ 695 por pessoa na alta temporada. A duração é de quatro horas para grupos de até 10 pessoas.
A atividade no Abismo Anhumas, com rapel elétrico e flutuação na caverna, tem o valor de R$ 1.598 por pessoa na alta temporada (sem transporte incluído). O valor cobre o treinamento prévio no check-point urbano para ajuste de equipamentos. O passeio dura duas horas para grupos de oito pessoas. A assessoria de receptivo local desta reportagem foi prestada pela agência Bonito Way.
Subeditor do site do jornal Correio Braziliense. Formado em "Comunicação Social - Jornalismo" pela Faculdade de Comunicação (FAC) da Universidade de Brasília (UnB). Entusiasta de automobilismo, séries e entretenimento.