Cidade Nossa

Cidade Nossa: Para Júlia, com carinho

Pioneira de Brasília e ícone do jornalismo, a repórter marcou época na cobertura política da capital com coragem, irreverência e dedicação à família

REV-2709-CRONICA -  (crédito: maurenilson)
REV-2709-CRONICA - (crédito: maurenilson)

Por Laerte Rimoli

Janduí Carneiro, médico, constituinte paraibano de 1946, e Diva Dunshee de Abranches chegaram na Brasília poeirenta e seca no início dos tempos, em 1962. Pioneiros, portanto. Traziam na bagagem seu bem mais precioso: Sonia Maria Dunshee de Abranches Carneiro, a Soninha. Nascida no Rio em 1951, carioquíssima, ela foi também brasiliense da gema e não perdeu as raízes paraibanas do pai. Isso talvez explique a personalidade múltipla e acolhedora dessa jornalista que tornou-se ícone da profissão.

Estudou no Sacré Coeur de Marie e depois no Elefante Branco. Formou-se na UnB. Todos lembram do indefectível gravador preto, um tijolão, que empunhava nos embates com os poderosos. Sonia foi a voz da Rádio JB no auge da empresa e, apesar de sobrinha da dona da marca, a condessa Pereira Carneiro — a "tia Nenê", jamais se valeu do parentesco. Trabalhou feito peão de obra para criar Terence e Daniel. Cruzava, várias vezes no dia, a Praça dos Três Poderes, sempre colada no fato relevante da República. A campana em uma porta do poder era a certeza de que a notícia estava ali. Viajou o país todo honrando o ofício de informar. Numa época em que as expressões feminismo e empoderamento da mulher nem eram usuais, exerceu esses papéis com bravura. Batalha árdua para conciliar trabalho e maternidade.

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Engraçada, riso fácil, farrista. Quantas vezes vimos o Sol nascer e se por no Arpoador. Escapadas para Ouro Preto. Idas a Jampa com o artista e cantor Tadeu Matias. A bordo do advogado Norton Makowieck, barbarizava em Floripa. Em 1988, protagonizou uma cena hilária, que consta do documentário sobre a Constituinte. O então candidato à presidência Paulo Maluf, simulando intimidade, tentou abraçá-la numa entrevista coletiva, ela se desvencilhou, fugindo sob os braços do político interesseiro. Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, os presidentes militares, os presidentes da redemocratização. Todos foram ordenhados intelectualmente pela Soninha. Não há registro de rusgas entres eles. Direta e corajosa, ela perguntou ao ex-presidente Collor, em campanha, se ele estava com aids. Tinha emagrecido muito e essa era a informação corrente.

Um Fusca azul, que chamava carinhosamente de "Velho Dunshee" em homenagem ao avô, foi nosso companheiro de juventude. Chegou a descer escadas do Setor Comercial Sul com o bólido. Tinha urgência em comboiar os amigos para o Beirute, Bar do Poeta ou Clube de Imprensa. Quanta disponibilidade para os afetos. Buscávamos a felicidade e, tenham certeza, a encontramos nos nossos anos dourados. Seguindo uma tradição de família, adorava um carteado. Herdou o hábito da mãe, dona Diva. Varamos noites, passávamos tardes no Clube de Imprensa, em torno de um "biriba". Quanto orgulho dos manos Zé Rui, Gilda, Suzana e Nino.

Nos últimos anos de vida, surgiram os netos. O afeto desmedido e abundante da nossa amiga, se potencializou. "Soninha, por que você não foi ao meu aniversário? A Júlia manda em mim, quis me levar para Pirenópolis". Retomou aulas de piano. Contava, com graça, de sua incursão pela equitação na juventude. Não perdia shows de música. Gostava de teatro. Encantou jovens com sua irreverência, conquistava adultos no primeiro contato. Mudou de balcão com a mesma dignidade, foi assessora do Senado até virar estrela. Brasília deve muito a Soninha. Não há história da jovem capital da República que possa prescindir de tipos como ela. Está imantada no jornalismo, no carinho da família e no respeito dos políticos. Bem fez a neta mais velha. Colou nesta avó cheia de histórias, de coração ancho e de personalidade marcante.

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postado em 27/09/2026 06:00
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