
Estou "embarcado" na leitura de O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, desde o início de julho. Como a meta do meu Clube do Livro é vencer a saga toda, seguiremos até dezembro acompanhando Ana Terra, Capitão Rodrigo e descendentes.
A aventura tem me feito refletir, infelizmente, sobre o que temos em 2026 e que parece vir diretamente do século 19. O próprio Rodrigo Cambará, personagem igualmente encantador e violentador de mulheres, antecipa muito do que vemos hoje nas histórias que terminam em feminicídio.
Saindo da epopeia ambientada no Rio Grande do Sul, desembarco, agora, no século 21. Deixo para trás a medicina que amputava com serrote uma perna ferida na guerra e penso em um exame de colonoscopia, necessário e invasivo. Já expressei isso aos médicos: ele não parece fora do nosso tempo?
Com tantos avanços tecnológicos, com robôs fazendo cirurgias, não me parece razoável me submeter àquele preparo vexatório. O exame, em si, passa despercebido, até porque estou anestesiado. Cada vez que penso no processo, vou adiando a marcação, mas sei que desse ano não pode passar...
- Leia também: Cidade Nossa: E vovó viu a Copa
O desconforto com a colonoscopia, no entanto, é um grão de areia perto de outro incômodo: as denúncias de trabalho escravo que pipocam pelo país. Até pouco tempo atrás, os fiscais encontravam condições precárias de trabalho na zona rural, com instalações sujas, empregados sem salário e muitas outras irregularidades. Tudo parecia fruto de má-fé e da ignorância.
O trabalho escravo, agora, migrou para as cidades. E os exploradores de mão de obra passam longe da ignorância. São membros das famílias abastadas das metrópoles, gente que teve todas as boas oportunidades. Patrões que mantêm as condições precárias não mais por uma safra, mas por décadas seguidas. Tomam a vida, principalmente, de trabalhadoras domésticas, mas utilizam com frequência a frase "como se fosse da família". Um familiar sem direito a remuneração, a educação e a herança, entre outras coisas.
Ouvindo, vendo ou lendo essas notícias, volto imediatamente à Santa Fé de O tempo e o vento. A vila onde o coronelismo imperava, os homens tinham valores diferentes dependendo do dinheiro, as mulheres eram tratadas como escravas, e os escravos não eram considerados gente.
Falando em trabalho precário, não consigo normalizar a necessidade de que duas pessoas trabalhem, faça sol ou faça chuva, no canteiro central das nossas avenidas, segurando faixas de promoções do comércio. Sempre haverá quem diga que "pelo menos eles têm um emprego". Eu não desejo essa função a ninguém. Em 2026, ainda precisamos de alguém para sustentar uma faixa na rua?
Melhor voltar à leitura da saga do século 19. Já passei de 1895. Quem sabe chego, pelo menos, ao século 20.

Revista do Correio
Revista do Correio
Revista do Correio