Fitness & nutrição

Maturidade de atleta: prática esportiva depois de adulto

Esportistas com mais de 30 anos sobem ao pódio e reforçam a importância da prática de atividades físicas para a saúde do corpo e da mente

A busca por qualidade de vida e a prevenção de doenças têm impulsionado cada vez mais brasileiros a transformar a rotina ao cruzar a barreira dos 30 anos. Deixando para trás o sedentarismo ou revivendo o entusiasmo da infância, esse público tem lotado parques, academias e arenas esportivas para estrear em modalidades que vão da corrida de rua ao ciclismo e às artes marciais.

Essa nova leva de atletas maduros descobre que nunca é tarde para superar limites, cultivar a disciplina física e encontrar na prática esportiva um aliado indispensável contra o estresse do dia a dia. Muito além do imaginário coletivo de que o sucesso de um atleta depende da sua afinidade com o esporte desde a infância, uma nova geração de esportistas tem se formado após a juventude e conquistado pódios.

David Oliveira Silva, personal trainer e nutricionista, explica que essa mudança de hábitos se deu, majoritariamente, nos últimos anos. "Principalmente depois da pandemia, percebemos um aumento impressionante no número de pessoas que passaram a buscar a atividade física na vida adulta. Muitas começaram por questões estéticas, mas também existe uma preocupação cada vez maior com saúde, qualidade de vida e envelhecimento."

Os benefícios

Nesse sentido, a prática esportiva regular impacta diversas áreas do corpo. Antes de tomar qualquer decisão, o futuro atleta deve consultar um especialista para fazer uma avaliação médica. "Aferir a pressão arterial e, quando houver indicação, realizar exames cardíacos são cuidados importantes antes de iniciar uma rotina de exercícios mais intensa. Depois disso, o ideal é começar de forma progressiva, respeitando o condicionamento atual da pessoa", explica David.

Quando feitos de maneira correta, os exercícios físicos auxiliam nas funções do coração ao melhorar a circulação e controlar a pressão arterial, além de ajudar no controle do peso ao acelerar o metabolismo e reduzir a gordura corporal. Além disso, previnem o diabetes tipo 2 e mantêm a força ao evitar a perda de massa muscular e óssea que ocorre naturalmente com a idade.

Os benefícios, no entanto, não são apenas físicos. A psicóloga Regina Vera esclarece de que forma a movimentação corporal exerce papel fundamental na regulação mental. "A atividade física regular não atua apenas no corpo: ela influencia mecanismos cerebrais relacionados ao humor, à motivação, ao sono, à atenção e à resposta ao estresse. Durante e após o exercício, há alterações na liberação e na regulação de neurotransmissores e de outras substâncias associadas à sensação de bem-estar."

Além disso, a prática regular pode ajudar o cérebro a desenvolver uma resposta mais adaptativa ao estresse. "Quando uma pessoa começa a perceber que consegue estabelecer uma meta, cumprir uma rotina e observar sua própria evolução, ela passa a construir uma percepção mais positiva de sua capacidade de agir sobre a própria vida", explica Regina, a respeito dos impactos psicológicos, como a sensação de autoeficácia.

Ela ressalta que, apesar das vantagens, a prática esportiva "não é uma solução universal para todos os quadros de ansiedade ou sofrimento psicológico". Nesse sentido, não é recomendada a prática como uma bengala de suporte emocional, o que desencadeia culpa e frustração.

"A culpa excessiva frequentemente paralisa e transforma um episódio pontual em uma avaliação negativa sobre quem a pessoa é." A psicóloga afirma que é mais saudável trabalhar com a consistência possível, e não com a perfeição. "A pergunta pode deixar de ser 'quantos treinos eu deveria ter feito?' e passar a ser 'dentro da minha realidade atual, qual é o próximo passo possível?'", reflete.

O movimento 

Sair do sedentarismo, no entanto, não é fácil. Problemas físicos, falta de tempo e desânimo afetam a performance dos atletas. Nilo Marques, de 67 anos, tornou-se atleta após um longo período sem se exercitar. "Quando era jovem, jogava bola e me lesionei. Dos 24 aos 38 anos, fiquei parado e me tornei sedentário. Até o dia em que recebi uma proposta para nadar no Defer, com os colegas de trabalho. Todos acabaram desistindo, mas eu sigo até hoje."

O Departamento de Educação Física, Esportes e Recreação (Defer) do Distrito Federal oferece atividades esportivas e aquáticas, como natação, no Complexo Aquático Cláudio Coutinho, e também competições para todas as idades, incluindo a categoria Master. Foi em uma dessas que Nilo iniciou sua carreira como atleta. "Na minha primeira competição, subestimei os 400 metros que precisaria nadar e foi uma maratona para conseguir acabar. No fim, peguei gosto pela natação. Este ano, em novembro, completo 30 anos nessa jornada."

Ele relembra que, inicialmente, seu objetivo era ter mais saúde, mas, atualmente, almeja o pódio em provas nas piscinas e em águas abertas. "Competir naturalmente traz saúde, e a parte estética também é consequência, mas estar entre os melhores e levar a medalha é uma ótima sensação."

Agora aposentado, ele consegue se dedicar completamente ao esporte e não deixa a idade frear seus sonhos. "Acho que a maioria das pessoas sonha com a travessia do Canal da Mancha e eu também, mas é distante por causa do custo e da temperatura da água. Tenho vontade também de completar a prova do Leme ao Pontal, no Rio de Janeiro, com a distância de 36 quilômetros. Já tentei fazê-la, mas no quilômetro 30 sofri com a temperatura da água e desisti. Mas um dia vou completá-la."

O início

Nessa ótica, para as pessoas que desejam sair do sedentarismo, como Nilo, para adentrar o mundo esportivo, David lembra que o processo deve ser gradual. "A musculação é uma das modalidades mais seguras e completas. O grande diferencial é que conseguimos controlar carga, intensidade e amplitude dos movimentos, além de adaptar os exercícios para diferentes idades e limitações. Quando bem orientada, ela fortalece músculos, articulações e ossos e pode contribuir muito para a prevenção de lesões e para a qualidade de vida."

Essa transição reanima os músculos e permite uma memória motora que facilita a execução de vários esportes. "No início, é comum existir mais dificuldade de coordenação e controle dos exercícios. As principais regiões que costumam apresentar queixas são joelhos, ombros e a região lombar. Para evitar lesões, é fundamental procurar a orientação de um profissional, aprender a técnica correta e evoluir carga e intensidade de forma gradual", finaliza David.

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

 


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