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A luta para além do tatame: prática da autodefesa por mulheres

Mulheres lutam contra o preconceito dentro e fora das academias de artes marciais e derrubam o mito de sexo frágil

Em meio à insegurança dentro e fora de casa, muitas mulheres têm optado pela defesa pessoal como uma forma de reforçar sua integridade em certas situações. Com isso, dojos e tatames estão repletos de presença feminina — uma demonstração de força e autonomia. A decisão de usar as faixas e vestir as luvas vai além do desejo de praticar uma atividade física: trata-se de uma resposta direta à sensação constante de vulnerabilidade.

Quem vivencia essa realidade no dia a dia é a mestra 7º grau de jiu-jitsu, psicóloga e assistente social Yvone Duarte, que explica como a percepção do perigo transformou a relação da mulher com o próprio corpo: "As mulheres estão cada vez mais conscientes de que a violência não é um episódio isolado, mas uma realidade estrutural e cotidiana. Esse contato constante com a violência desperta a necessidade de buscar a autodefesa, inicialmente como proteção física. Quando uma mulher aprende a sustentar seu corpo, levantar com o quadril um corpo masculino três vezes mais pesado ou sair de uma tentativa de estrangulamento, o impacto disso em sua subjetividade ultrapassa o campo físico pensado como frágil."

Yvone elucida que a autodefesa não se refere somente ao impacto na saúde, mas também a uma questão social. "Vejo como essa ruptura tem contribuído para tornar as mulheres mais independentes, seguras e confiantes em todos os sentidos."

Em situações de ameaça, os sentidos devem estar atentos aos sinais. "Trabalhamos técnicas físicas, postura corporal, georreferenciamento ambiental — a leitura do ambiente — e estratégias de proteção e fuga. É preciso estar atenta: o corpo precisa deixar de ser passivo e passar a ser ativo diante da ameaça", afirma a mestra.

Técnica se sobrepõe

A preocupação de parte das mulheres, no entanto, ainda é pelo receio da 'falta de força' ou pela inexperiência. "Em aulas de luta, muitas vezes, a técnica se sobrepõe ao vigor físico. Alavancas, técnica e inteligência corporal são ensinadas às alunas. Para além disso, estudos mostram que mulheres que praticam autodefesa têm muito mais chances de responder às agressões, porque o treino destra mecanismos de reação e evita que o corpo congele diante da violência", explica Yvone.

Nessa ótica, os músculos são utilizados de maneira distinta nas artes marciais quando comparados à musculação tradicional, por exemplo, na qual o foco é na hipertrofia e no ganho de força. A educadora física e personal trainer Eliz Vessoni detalha esses benefícios: "Nas artes marciais, o tronco exerce papel fundamental na estabilização e na transmissão de potência entre diferentes segmentos do corpo. Há uma ativação antecipada da musculatura do tronco para preparar o corpo para movimentos rápidos e explosivos, contribuindo para maior estabilidade e menor desperdício de energia."

Segundo Eliz, há também a combinação de força, potência, velocidade, resistência e precisão de movimentos para o controle da intensidade, direção e agilidade de acordo com cada situação — o que trabalha todo o sistema musculoesquelético de forma integrada.

Além da memória muscular desenvolvida, a autodefesa atua como um exercício de presença e reconstrução da autoconfiança. "Há o fortalecimento das funções cognitivas, como foco, planejamento e autocontrole. Trabalhamos, também, a gestão do estresse em situações simuladas de pressão. A mulher aprende a respirar, a controlar o ritmo cardíaco e a transformar a adrenalina em ação. Esse processo não elimina o medo, mas o ressignifica: ele deixa de ser paralisante e passa a ser combustível para a reação", ressalta Yvone.

O ambiente específico para os treinos de combate tem regras, limites e objetivos. Nesse sentido, são exigidos disciplina e autocontrole para que a canalização da tensão e das emoções seja feita de maneira segura para todos. "Em vez de simplesmente extravasar agressividade, o praticante aprende a direcionar sua energia para uma atividade controlada. Existe também a necessidade de uma concentração maior, o que interrompe temporariamente ciclos de preocupação e ruminação", explica a educadora física.

Treinos mistos

Embora algumas academias já ofereçam turmas exclusivas para mulheres, a maioria dos tatames ainda opera com aulas mistas — um ambiente que, apesar de desafiador no início, acaba se tornando um espaço real de teste de técnicas, superação e fortalecimento coletivo.

Larissa Oliveira, estudante de economia de 19 anos, começou recentemente a frequentar aulas de boxe. "Eu me vi sedentária em meio à correria da rotina e precisava voltar a praticar exercícios. As artes marciais sempre foram um desejo meu porque, além dos benefícios físicos, gostaria de saber como me defender, ainda mais sendo mulher."

Movida por essa vontade, ela se juntou a algumas amigas e venceu a timidez inicial. As primeiras aulas, segundo ela, foram cansativas, mas a presença das colegas tornou o treino mais divertido. "Nós nos olhávamos e ríamos, porque era bem exigente. A turma conta com homens e mulheres de todas as idades e condições físicas, e o professor não pega leve com ninguém. Acho que vamos evoluir bastante", aposta a estudante.

"Quando homens e mulheres treinam juntos de maneira respeitosa, ambos têm a oportunidade de reconhecer as capacidades e limitações do outro. Uma mulher pode demonstrar maior domínio técnico que um homem fisicamente mais forte, por exemplo, assim como diferentes parceiros podem aprender a adaptar força, velocidade e intensidade às características de quem está treinando com eles", expõe Eliz. Para a educadora física, essa união fortalece os sentimentos de empatia e respeito, embora seja apenas um passo na desconstrução dos preconceitos da sociedade.

Diante desse cenário, Yvone encoraja as mulheres que desejam iniciar a prática. "Não é necessário chegar com força ou experiência: basta disposição para se reconhecer como capaz. No tatame, cada exercício físico revela que o corpo pode proteger, reagir e existir com dignidade. Essa descoberta atravessa o físico e alcança o emocional, mostrando que somos potentes e que podemos sustentar nossa própria presença no mundo."

"Cada aula é um gesto de afirmação: não se trata de virar lutadora profissional, mas de descobrir que o corpo é território de autonomia, e não de fragilidade", finaliza a mestra.

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