Saúde

Audição saudável: cuidados com a limpeza dos ouvidos

Técnicas caseiras para a limpeza do canal auditivo podem trazer prejuízos à audição. Especialistas explicam sobre a importância do cerume

A limpeza da cera do ouvido é um hábito comum, mas que frequentemente esconde riscos invisíveis à saúde auditiva. Embora a cera (ou cerume) cumpra um papel essencial de proteção, lubrificação e defesa natural do canal auditivo contra poeira e bactérias, o uso incorreto de hastes flexíveis e de outros objetos ainda lidera as causas de lesões e obstruções.

Muitas vezes tratado como sujeira por leigos, o cerume desempenha funções importantes na proteção da audição. Felipe Mauro, otorrinolaringologista e coordenador da especialidade no Hospital Albert Sabin (HAS-SP), explica quais são os papéis desse fluido corporal. “Ele é produzido pelas glândulas do canal auditivo e forma uma barreira que ajuda a reter partículas, poeira e microrganismos, além de contribuir para manter a pele do canal hidratada e protegida. O cerume também apresenta propriedades que dificultam a proliferação de alguns microrganismos.”

O especialista afirma também que, em condições normais, o ouvido possui “um mecanismo natural autolimpante, no qual o cerume migra gradualmente para a parte externa do canal e é eliminado espontaneamente”. A movimentação da mandíbula durante a mastigação ou a fala empurra a camada de cera, aos poucos, em direção à saída da orelha.

A presença de uma pequena quantidade de cera é bem-vinda para manter a saúde do canal auricular. No entanto, o otorrinolaringologista Fernando Balsalobre alerta que algumas mudanças exigem atenção: “Algumas características podem acender um sinal de alerta, como odor fétido, consistência muito fluida ou secreção amarelada/esverdeada. Nessas ocasiões, o ouvido pode estar infectado.” Na prática, a cera de ouvido raramente precisa de intervenções. A remoção só é indicada quando o canal fica bloqueado ou diante da presença de sintomas

Sintomas gerais de problemas no canal auricular

  • Sensação de ouvido tampado ou cheio

  • Diminuição da audição em um dos lados

  • Zumbido ou sensação de eco na própria voz

  • Coceira e dor leve no canal auditivo

  • Tontura (quando o bloqueio é maior)

Principais problemas no canal auditivo

  • Otopatia por tampão de cerume: ocorre quando a cera obstrui a passagem do som. Os sintomas incluem sensação de ouvido tampado, diminuição da audição, zumbido e sensação de eco na própria voz.

  • Otite externa (ou “ouvido de nadador”): infecção na pele do canal auditivo decorrente da retenção de água ou do uso de cotonetes. Dor intensa (especialmente ao puxar a orelha), coceira, vermelhidão e secreção são os sintomas mais frequentes.

  • Otite média: infecção no ouvido médio (atrás do tímpano), normalmente associada a gripes, resfriados ou alergias respiratórias. Pode causar dor profunda, febre e perda auditiva temporária.

  • Perfuração timpânica: lesão provocada por traumas (objetos inseridos no ouvido), infecções graves ou barotrauma (variação brusca de pressão em viagens de avião ou mergulhos).

  • Micose auditiva (otomicose): infecção por fungos facilitada pela umidade excessiva e pela ausência do cerume protetor.

Os perigos do uso de objetos inadequados

Hastes flexíveis podem empurrar o cerume para regiões mais profundas do canal auditivo, favorecendo a formação de uma "rolha" de cera. Além disso, a introdução de objetos pontiagudos ou rígidos pode provocar traumas na pele do canal, inflamações e infecções. Em situações mais graves, caso o cotonete seja introduzido profundamente ou ocorra um movimento brusco, pode haver lesão ou até perfuração do tímpano.

Além disso, métodos caseiros como o uso de velas (como a vela Hopi), óleos mornos e água oxigenada não são efetivos e podem causar danos irreversíveis à audição. “A utilização de medicamentos e gotas auriculares sempre deve ser orientada por um médico otorrinolaringologista”, reforça o  otorrinolaringologista Felipe Mauro.

Outro ponto importante: retirar o cerume em excesso também é prejudicial, pois elimina a proteção natural da pele do ouvido.

Como higienizar o ouvido corretamente

Para a maioria das pessoas, não é necessário limpar o interior do canal auditivo. Após o banho, o ideal é simplesmente secar a parte externa da orelha e a entrada do ouvido com uma toalha limpa, sem introduzir objetos no canal.

Se entrar água no ouvido, ela normalmente sairá de forma espontânea. Pode-se inclinar a cabeça para o lado para facilitar a saída, mas não é recomendável introduzir objetos para tentar “secar por dentro”. Para quem precisa de limpeza devido ao excesso de cerume ou a uma infecção, o procedimento deve ser realizado em consultório médico, onde o profissional remove a rolha de cera com lavagem, aspiração ou microcuretas.

Palavra do especialista

Existe alguma relação entre o uso constante de fones de ouvido (especialmente os intra-auriculares) e o aumento de problemas relacionados à cera ou a infecções?

O fone intra-auricular ocupa o conduto auditivo por várias horas e pode atrapalhar o mecanismo natural de eliminação do cerume. Além disso, ao colocar o fone repetidamente, a pessoa pode acabar empurrando a cera progressivamente para regiões mais profundas do canal. Com o tempo, isso pode contribuir para a formação de uma rolha de cerume, causando abafamento, sensação de ouvido tampado, desconforto e redução temporária da audição. Em relação às infecções, o fone isoladamente não é necessariamente o causador de uma otite. Entretanto, o uso prolongado, o excesso de umidade, a falta de higienização do equipamento e o compartilhamento de fones podem criar condições favoráveis à irritação e à proliferação de microrganismos. Por isso, além de não compartilhar fones, é importante mantê-los limpos e dar períodos de descanso para o ouvido.

Praticar natação ou esportes aquáticos com frequência altera a dinâmica da cera? A água da piscina ou do mar misturada com a cera pode causar problemas?

Depende muito de cada pessoa. Há quem nade durante anos sem ter qualquer problema e há pessoas que apresentam otites externas com muita facilidade. O conduto auditivo funciona melhor quando permanece relativamente seco. A permanência frequente de água e umidade pode alterar a barreira natural da pele do ouvido e facilitar irritações e infecções. Além disso, quando uma pessoa já possui um acúmulo de cerume, a entrada de água faz com que a cera absorva essa umidade e aumente de volume. É aquela situação bastante comum em que a pessoa entra na piscina ou no mar e sai sentindo o ouvido completamente tampado. Para quem pratica natação e já tem histórico de problemas recorrentes, podem ser indicadas medidas adicionais de proteção, como tampões próprios para natação e touca — sempre sob orientação médica. Depois da atividade, o ideal é secar somente a parte externa do ouvido, sem introduzir objetos no canal.

Stênio Ponte é otorrinolaringologista do Grupo OtorrinoDF

 *Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

Mais Lidas