
Dividir o quarto com um irmão ou uma irmã envolve mais do que compartilhar a cama, o armário ou a área de estudos. À medida que as crianças crescem, o ambiente precisa acompanhar as mudanças de rotina, os interesses pessoais e a necessidade de ter um espaço próprio. Na arquitetura de interiores, o desafio é conciliar convivência e individualidade sem comprometer a funcionalidade do cômodo.
Para a arquiteta e urbanista Julia Rosa Cabral, especialista em neuroarquitetura, a divisão do espaço não deve se limitar à disposição dos móveis. Com mais de 10 anos de atuação no mercado de Brasília, ela explica que criar territórios individuais dentro de um mesmo ambiente contribui para que cada criança desenvolva uma relação de pertencimento com o lugar onde vive. "Mais importante do que dividir o quarto fisicamente ao meio é conseguir garantir que cada criança se reconheça naquele ambiente", afirma.
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Julia recorre ao conceito de territorialidade, relacionado à necessidade de reconhecer determinados espaços como próprios, o que contribui para a sensação de segurança e autonomia. Uma forma de aplicá-lo é reservar prateleiras para cada morador, com brinquedos favoritos, lembranças e objetos pessoais. Ela também menciona a identidade de lugar, pois espaços com os quais criamos vínculos passam a participar da construção da nossa identidade. Assim, mesmo em um quarto compartilhado, escolher e organizar os próprios objetos ajuda a estabelecer uma relação particular com o espaço.
A arquiteta e urbanista Rebecca Nogueira, da Martelli Arquitetura e Interiores, concorda que o projeto precisa considerar como cada morador usa o ambiente. Para ela, "dividir um quarto não significa, simplesmente, repartir o espaço ao meio". A disposição das camas, os locais destinados aos pertences e até o controle da iluminação ajudam os moradores a reconhecer seus próprios territórios.
Unidade visual, identidades distintas
Cores, roupas de cama, cabeceiras, almofadas e objetos decorativos permitem expressar preferências individuais sem transformar o quarto em dois ambientes desconexos. "Então, para isso, a gente pode trabalhar com cores diferentes, mas que conversem entre si, utilizando uma base neutra, por exemplo, mas trazendo a personalidade de cada criança por meio dos elementos das cabeceiras, almofadas, roupa de cama, objeto decorativo", explica Julia.
A marcenaria também ajuda. Móveis contínuos, com nichos e prateleiras individuais, mantêm uma linguagem visual comum e oferecem espaço para que cada morador personalize seu canto. Segundo Julia, participar das decisões sobre organização e decoração está relacionado à percepção de controle sobre o ambiente.
Rebecca também aposta em uma base compartilhada com detalhes personalizados. Uma pintura-caixa, que se estende da parede ao teto, ou cabeceiras pintadas em cores diferentes marcam os espaços sem grandes intervenções. Na escolha das tonalidades, ela recomenda considerar a preferência dos dois moradores: "Tons análogos, que são próximos no círculo cromático, criam uma composição mais suave; já as cores complementares permitem um contraste maior, desde que exista equilíbrio no conjunto".
Privacidade para além das divisórias
Na adolescência, a necessidade de privacidade ganha importância. O jovem busca mais autonomia e pode precisar de um espaço para estudar, conversar com os amigos ou simplesmente ficar sozinho.
Julia ressalta que delimitar visualmente os territórios não significa garantir privacidade. Cores, tapetes e iluminação ajudam a criar a percepção de que cada pessoa tem uma área própria, mas não impedem todas as interferências entre os moradores. "A privacidade não significa, necessariamente, o isolamento, mas a possibilidade de regular o contato com as outras pessoas", explica.
Em um projeto do escritório, Julia utilizou um beliche com as camas orientadas para lados diferentes, criando duas áreas mais reservadas sem construir uma parede. Outras possibilidades incluem divisórias leves, painéis de marcenaria, muxarabis, estantes e cortinas. A arquiteta chama a atenção, porém, para a diferença entre privacidade visual e acústica. Uma divisória pode impedir que os irmãos se vejam o tempo todo, mas não bloqueia necessariamente o som das conversas.
Rebecca considera a disposição das camas o ponto de partida. Dependendo das dimensões do quarto, elas podem ser posicionadas em L ou paralelamente, com uma divisória leve ou uma estante baixa para criar separação visual sem bloquear a circulação. Elevar uma das camas é outra possibilidade, desde que o pé-direito e as condições de acesso e segurança permitam, e pode liberar espaço para uma bancada de estudos. A iluminação independente, nas áreas de descanso e estudo, permite que cada morador use seu espaço sem interferir na rotina do outro. "O projeto deve criar possibilidades para que os moradores compartilhem o ambiente, mas também tenham liberdade para escolher quando querem interagir e quando precisam de um momento individual", afirma.
Funcionalidade e adaptação
Em quartos pequenos, cada escolha precisa considerar a circulação e as atividades realizadas no ambiente. "Colocar duas camas, um armário e uma bancada não significa, necessariamente, que o quarto esteja bem resolvido", alerta Rebecca. É preciso avaliar o acesso aos móveis, a abertura de portas e gavetas e a iluminação.
O aproveitamento vertical amplia o armazenamento, com o uso de nichos, prateleiras e armários planejados, além de camas com baú ou gavetas. Antes de investir em uma reforma, a arquiteta recomenda avaliar o layout existente e, se necessário, reposicionar os móveis e aproveitar melhor as paredes para melhorar a funcionalidade sem grandes intervenções. A pintura, fácil de renovar, também delimita as áreas de cada morador e acompanha mudanças de preferência.
O planejamento deve considerar ainda as necessidades futuras. Rebecca recomenda armários bem dimensionados, bancadas adequadas e infraestrutura elétrica planejada, diferenciando os elementos estruturais daqueles que podem ser atualizados com facilidade. Ela cita, também, o princípio dos quartos montessorianos, que valorizam a autonomia por meio de um ambiente acessível à altura da criança, o que pode se aplicar ao mobiliário, com mesinhas de altura regulável. Evitar móveis muito temáticos também favorece a adaptação, porque uma base versátil permite renovar cores, roupas de cama e objetos conforme os gostos mudam.
Para Julia, um dos erros mais comuns é priorizar a funcionalidade sem considerar a individualidade de cada criança. Um quarto pode acomodar todos os móveis necessários e, ainda assim, não oferecer um espaço que cada morador reconheça como seu. Caso não seja possível uma grande obra, uma pintura que delimite a região de cada cama, associada a uma pequena prateleira individual, já pode ajudar.
Revista do Correio
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