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Quando a idade pesa nas patas: o envelhecimento e a mobilidade de cães e gatos

Dificuldade para pular, caminhar e levantar pode indicar problemas nas articulações e na coluna. Veterinários alertam para a importância de reconhecer os sinais e adaptar os cuidados à medida que os animais envelhecem

Drika sempre gostou de correr, pular e brincar. Aos nove anos, porém, a cachorra já não consegue fazer tudo o que costumava. A tutora Larissa Dourado, de 28 anos, farmacêutica, percebeu que os movimentos ficaram mais limitados, as caminhadas diminuíram e até ficar apoiada nas patas traseiras, como fazia para alcançar uma grade da casa, tornou-se difícil.

“Ela está com dificuldade de pular, porque gostava muito de brincar pulando, correndo. Então, hoje em dia, ela não faz mais tanto”, conta Larissa. Diante das mudanças, a tutora passou a evitar brincadeiras que exigem muito esforço e reduziu os passeios, que antes aconteciam em trajetos mais longos. Agora, as caminhadas ficam restritas à rua onde mora.

A mudança na rotina de Drika ilustra uma situação que pode ocorrer com cães e gatos ao longo da vida: a perda de mobilidade. Dificuldades para subir em móveis, levantar depois de um período de descanso ou acompanhar os tutores nos passeios podem estar relacionadas a alterações nas articulações, na coluna ou em outras estruturas do organismo. Embora o envelhecimento possa trazer mudanças físicas, nem toda limitação deve ser considerada normal ou inevitável.

O médico veterinário ortopedista Philipe Weber explica que o envelhecimento pode envolver alterações no líquido sinovial, responsável por lubrificar as articulações, e perda de massa muscular, conhecida como sarcopenia. Com menos musculatura para sustentar e estabilizar o corpo, as articulações podem ficar mais sobrecarregadas, favorecendo processos inflamatórios e o desenvolvimento de artrose.

Segundo o especialista, a identificação de um problema depende da avaliação clínica e do acompanhamento por exames de imagem, quando necessários. Isso porque sinais semelhantes podem ter causas diferentes e exigem investigação individualizada.

Os sinais que merecem atenção

Nem sempre um animal com dor demonstra desconforto de maneira evidente. Em vez de chorar ou mancar, ele pode ficar mais quieto, abandonar brincadeiras, evitar caminhadas ou passar mais tempo deitado. Também pode apresentar mudanças de humor, como maior irritabilidade, especialmente quando alguém tenta tocá-lo.

“Não querem mais caminhar ou não conseguem caminhar mais como antes, ficam para trás”, observa Philipe ao descrever comportamentos que podem indicar dificuldades articulares. Para ele, perceber essas mudanças é importante para que o responsável procure atendimento antes que a limitação comprometa ainda mais a rotina do animal.

A tutora de Zoe, a estudante de educação física Nicole Oliveira, 18, também notou alterações no comportamento da gata, que tem sete anos. Segundo Nicole, a felina passou a dormir por períodos mais longos e deixou de brincar por volta dos três anos. Além disso, começou a procurar lugares mais escondidos para ficar. “Quando ela está confortável, fica no pé ou em cima do colo, gosta muito de atenção. Mas, quando está incomodada, esconde-se embaixo das camas ou vai para fora de casa”, relata.

Alterações persistentes no nível de atividade, no comportamento ou na disposição para brincar merecem atenção, sobretudo quando representam uma diferença em relação ao padrão habitual do animal. Nos gatos, observar esses sinais pode ser especialmente importante. A redução dos saltos, a dificuldade para alcançar lugares antes frequentados e a diminuição da interação podem passar despercebidas ou ser interpretadas apenas como mudanças de temperamento. Por isso, conhecer os hábitos do animal ajuda a identificar quando algo não vai bem.

O que favorece o desgaste?

A saúde das articulações depende de diferentes estruturas que trabalham em conjunto. Ossos, músculos, tendões e ligamentos participam da sustentação e dos movimentos, enquanto o sistema nervoso coordena as ações do corpo. Alterações em qualquer uma dessas estruturas podem afetar a mobilidade. O médico veterinário ortopedista Leandro Pauli explica que a genética é um dos fatores envolvidos. Algumas predisposições, como as displasias, podem comprometer as articulações mesmo em animais jovens. Portanto, problemas de mobilidade não estão necessariamente associados à idade avançada.

O excesso de peso também merece atenção, pois aumenta a carga sobre as articulações e pode contribuir para processos inflamatórios. Já o sedentarismo favorece a perda de massa muscular, reduzindo o suporte oferecido às estruturas articulares. No sentido oposto, atividades físicas intensas, de alto impacto ou realizadas sem condicionamento adequado, também podem favorecer lesões. “O animal precisa se movimentar, mas a atividade deve respeitar a idade, o condicionamento e as limitações de cada um”, destaca Leandro.

O equilíbrio entre movimento e descanso, portanto, deve considerar as necessidades individuais. Não se trata de impedir que o animal se exercite por estar envelhecendo, mas de adequar a atividade física à sua condição e observar possíveis mudanças na execução dos movimentos.

Adaptações que fazem diferença

Com as limitações de Drika, Larissa passou a modificar os passeios e a evitar esforços que a cachorra já não consegue realizar com facilidade. A tutora também percebe que há dias em que ela demonstra mais disposição e outros em que fica desanimada. Embora associe parte dessa oscilação ao calor, as mudanças de comportamento e de mobilidade precisam ser avaliadas considerando o estado geral de saúde do animal.

A orientação veterinária é importante para definir quais atividades são adequadas e se há necessidade de tratamento. A fisioterapia, por exemplo, pode contribuir para a recuperação ou manutenção dos movimentos e para o alívio do desconforto, conforme a avaliação de cada paciente.

Dentro de casa, algumas adaptações também podem facilitar a rotina: tapetes antiderrapantes ajudam a reduzir o risco de escorregões; rampas e acessos mais baixos podem diminuir a necessidade de saltos; e camas confortáveis, comedouros e bebedouros em locais acessíveis favorecem o deslocamento.

O controle do peso e a avaliação da alimentação também fazem parte dos cuidados. Leandro ressalta, porém, que mudanças na dieta ou o uso de suplementos não devem ser feitos indiscriminadamente. É necessário considerar a condição corporal, a musculatura e a presença de outras doenças antes de definir a conduta.

Quando procurar ajuda?

Uma das principais recomendações dos especialistas é não atribuir automaticamente à idade a redução da atividade. Um animal que deixa de passear, passa a evitar movimentos ou apresenta dificuldade para se levantar pode estar sentindo dor e precisar de tratamento. “Não devemos esperar o animal parar de andar para buscar ajuda. Uma mudança na maneira de caminhar já merece atenção, e arrastar as patas pode indicar também um problema neurológico”, alerta Leandro.

O atendimento deve ser imediato quando há perda súbita da capacidade de ficar em pé ou caminhar, fraqueza importante nas patas, dor intensa ou piora rápida. Dificuldade para urinar ou perda do controle urinário associada à fraqueza também são sinais de emergência. Até a avaliação, o ideal é restringir os movimentos, evitar escadas e saltos e não administrar medicamentos por conta própria.

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

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