CONTRA VAZAMENTOS DE ÓLEO

Minigolfinho robô para salvar o mar

Engenheiros de universidade australiana criam equipamento que, controlado remotamente, opera de forma mais rápida e eficiente para remover petróleo despejado por vazamentos nos oceanos. Ideia é ter frotas dos robôs em miniatura

Engenheiros da RMIT University, na Austrália, desenvolveram um robô controlado remotamente capaz de aspirar petróleo derramado na água por meio de um sistema de filtragem. A inovação ainda conta com um detalhe charmoso: é em formato de golfinho. A tecnologia busca ajudar no combate aos derramamentos de óleo, um problema grave para o ambiente marinho. Os pesquisadores criaram um minirrobô chamado "Electronic Dolphin" (Golfinho Eletrônico) para atuar na coleta da substância oleosa na superfície da água. O objetivo é oferecer uma forma mais rápida e eficiente de reagir a derramamentos em ambientes sensíveis.

Como o nome sugere, o dispositivo tem formato semelhante ao de um golfinho e tamanho aproximado ao de um sapato, com cerca de 25 centímetros de comprimento e 14 centímetros de largura. O robô integra um filtro especialmente projetado que repele a água enquanto absorve o óleo instantaneamente, permitindo remover as manchas causadas com alta eficiência. O mecanismo foi inspirado nas estruturas microscópicas presentes em ouriços-do-mar.

Os protótipos experimentais funcionam atualmente por cerca de 15 minutos com a bateria disponível, mas a versão final deverá ter autonomia maior, dependendo do tamanho da bomba e da capacidade de armazenamento do óleo coletado. Os pesquisadores também estudam o desenvolvimento de uma plataforma maior, com cerca de 1 a 1,5 metro de comprimento, que permitiria recuperar volumes consideráveis da substância, mantendo a manobrabilidade e a segurança de operação em ambientes contaminados.

Segundo o pesquisador Ataur Rahman, o protótipo foi projetado para testes em laboratório. "O protótipo atual é intencionalmente pequeno para testes em laboratório, portanto sua capacidade é limitada a cerca de 30 mililitros de óleo. Nessa fase, o foco é validar a eficiência do filtro e a capacidade do robô de coletar, separar e transportar o óleo", explicou.

Rahman também destaca os planos para versões maiores do dispositivo. "Uma versão ampliada aumentaria substancialmente a capacidade. O sistema foi projetado para permitir que um robô aspire o óleo, retorne a uma estação base para esvaziar seu tanque, recarregue e seja reposicionado, trabalhando continuamente em ciclos até que a limpeza esteja completa."

Como funciona? 

O golfinho robô possui um filtro revestido na parte frontal e uma pequena bomba que aspira o óleo através desse filtro para uma câmara de coleta integrada. Em testes controlados, o equipamento recuperou petróleo a uma taxa de cerca de 2 mililitros por minuto, com mais de 95% de pureza, mantendo o desempenho sem que o filtro ficasse saturado.

O filtro utiliza um revestimento especial que forma minúsculas estruturas semelhantes a espículas de ouriços-do-mar. Essas estruturas fazem com que a água escorra imediatamente, enquanto o óleo adere à superfície. Dessa forma, o material consegue reter o petróleo sem absorver água. Por ser leve e reutilizável diversas vezes, o sistema pode ser prático para operações reais de limpeza.

Os pesquisadores também estudam a possibilidade de utilizar "frotas de golfinhos robôs" trabalhando de forma autônoma ou semiautônoma em áreas afetadas por derramamentos, o que poderia tornar a limpeza mais rápida e eficiente. 

Desafios 

A aplicação da tecnologia em mar aberto apresenta impasses. Entre eles, estão os movimentos das ondas, que podem afetar a estabilidade e dificultar a navegação do robô; deriva causada por ventos, que podem desviar plataformas leves de suas rotas; e as correntes marítimas, que exigem maior potencial de pulsão e sistemas avançados de controle. 

Outro fator é que a viscosidade do petróleo pode mudar ao longo do tempo. A substância pode se espalhar e sofrer processos de intemperismo no mar, onde se comporta diferente do que em condições controladas de laboratório. 

Segundo o oceanógrafo Edmo Campos, membro da Academia Brasileira de Ciências, a proposta tem potencial para contribuir com as estratégias já utilizadas para remover petróleo do mar. "Quando há um derrame por um determinado período, o óleo, por ser mais leve do que a água, fica na superfície. Normalmente, a forma tradicional de remoção é utilizar algum tipo de mecanismo que recolha ou sugue esse material", explica. 

O especialista destaca que, do ponto de vista oceanográfico, a tecnologia segue um princípio semelhante ao de métodos já utilizados, mas pode trazer vantagens operacionais. "Esse aparelho que foi desenvolvido tem naturalmente uma boa chance de contribuir, porque ele vai estar fazendo algo que já é realizado por métodos tradicionais, muitas vezes com custo maior", afirma.

Campos ressalta que a eficiência e a viabilidade da tecnologia ainda precisam ser avaliadas em comparação com outras soluções existentes. Mesmo assim, ele considera que o conceito apresenta potencial positivo. "Do ponto de vista da remoção, que é a finalidade para a qual ele foi construído, mostra um grande potencial de realmente contribuir. Ele é um instrumento que vai ficar na superfície sugando a água e filtrando o óleo, algo semelhante ao que já é feito por outros métodos, mas que pode trazer vantagens dependendo da eficiência e do custo", conclui.

A equipe da RMIT University agora trabalha no aprimoramento da tecnologia, ampliando a área de filtragem na superfície do robô, o que exigirá o uso de bombas com maior capacidade. Testes de campo e avaliações de durabilidade a longo prazo estão previstos como as próximas etapas do desenvolvimento.

*Estagiária sob a supervisão de Lourenço Flores

 

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