Cientistas do Centro de Pesquisa Técnica VTT, na Finlândia, criaram um material feito de micélio que reproduz o aspecto e as características do couro. Produzida a partir do cultivo de fungos em tanques de fermentação líquida, essa biomassa se transforma em um tecido maleável, resistente, compostável e viável para a produção industrial. O estudo, publicado na revista científica ACS Applied Bio Materials, apresenta o processo como uma alternativa para a fabricação tradicional do couro e materiais que imitam vegetais. Segundo o trabalho, opções atualmente disponíveis podem depender de recursos fósseis e enfrentar desafios relacionados ao descarte e à reciclagem.
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De acordo com Breno Tenório Ramalho de Abreu, professor do Departamento de Design e coordenador da pós-graduação em Design da Universidade de Brasília (UnB), o micélio é uma estrutura formada por uma rede de filamentos dos fungos. Esses filamentos, chamados hifas, crescem e se entrelaçam, formando grande parte da estrutura do organismo. Quando cultivado e processado de maneira controlada, o micélio pode dar origem a materiais com características semelhantes às de produtos fibrosos. Além disso, ele geralmente se desenvolve em ambientes como madeira e solo. "Ao contrário dos cogumelos que são visíveis, geralmente os micélios crescem abaixo da superfície", explica.
A pesquisa aponta que a utilização de fungos para desenvolver novos materiais não é uma ideia recente. O principal desafio, segundo o especialista, sempre foi transformar o crescimento natural do micélio em um processo industrial capaz de produzir grandes quantidades de material de forma controlada.
Tecido
A equipe liderada por Manuel Arias-Barrantes, Géza Szilvay e outros pesquisadores adotou uma estratégia diferente das técnicas tradicionais. Em vez de cultivar o fungo sobre uma superfície, os cientistas colocaram a espécie Trichoderma reesei em um meio líquido rico em nutrientes. O cultivo foi realizado em tanques semelhantes aos utilizados pela indústria de bebidas. Nesse ambiente, o fungo cresce de forma submersa e produz grandes quantidades de biomassa.
Isso se transforma em uma massa espessa, semelhante a uma polpa, e não uma folha formada diretamente pelas fibras do fungo. Essa característica é importante para o processo industrial porque a biomassa pode ser retirada dos tanques, lavada e posteriormente processada como matéria-prima.
Segundo Breno Tenório, quando o micélio é cultivado em bandejas ou tanques de fermentação, pode ser moldado e transformado em chapas ou lâminas. O material também pode reagir com determinadas substâncias, incluindo espécies de álcoois, para adquirir maior resistência e flexibilidade. Ele ressalta, porém, que o material não deve ser chamado de couro, já que o termo é reservado a materiais de origem animal. Para produtos obtidos dessa maneira, seriam mais adequadas expressões como chapa, lâmina ou material de micélio.
Desafios
A biomassa de micélio pode ser transformada em um material semelhante ao couro por meio da mistura com sorbitol e celulose. A composição pode ser adaptada para diferentes aplicações, e testes com equipamentos industriais mostraram potencial para produção em maior escala. O material apresentou resistência à tração semelhante à do couro, mas ainda precisa melhorar sua resistência ao rasgo.
Os pesquisadores também avaliaram sua decomposição, observando que o material se decompôs em 28 dias em contato com água e em cerca de seis semanas em compostagem industrial. Entretanto, esse tempo pode variar conforme a composição, espessura, revestimentos e condições ambientais. Tenório reforça que o maior desafio é sempre melhorar a qualidade do material, para que ele tenha maior resistência, e a adaptação ao volume de produção exigido pela indústria. "Por ser um material novo, ele acaba necessitando de um maquinário específico para sua produção." (Rafaela Leite)
Duas perguntas para
Breno Tenório Ramalho de Abreu, professor do Departamento de Design e coordenador da pós-graduação em design da Universidade de Brasília (UnB)
Quais as vantagens de usar couro vegetal?
O couro tem diversos problemas de produção, se destacando principalmente os malefícios trazidos pela pecuária, e as péssimas condições de trabalho dos curtumes, que utilizam sais de cromo para curtir o couro, e que tem alta toxicidade. As maiores vantagens de laminados de micélio são sua rápida produção, menor utilização de recursos naturais e com certeza a sua biodegradabilidade, tornando-se um material que pode rapidamente se decompor e retornar a natureza, tornando o ciclo de vida do produto fechado. Vale lembrar mais uma vez lembrar que os laminados de micélio não são um substituto do couro, eles são um novo material com diferentes propriedades e com certeza um material mais amigável com a natureza.
Na sua opinião, a moda é adepta aos materiais sustentáveis?
A moda sempre está aberta a novidades, principalmente em um mercado crescente de produção de materiais mais sustentáveis. Com certeza será utilizado por diferentes marcas, principalmente para apoiar seus discursos de sustentabilidade. No entanto, é importante que as marcas não parem por aí e façam escolhas mais inteligentes de materiais para os seus produtos. Outro ponto importante aqui é o preço do material (que geralmente chega ao mercado com valores elevados) e a aceitação pelo consumidor, que são coisas diferentes, mas é, de fato, o consumidor que precisa de uma maior consciência para escolher os produtos que irá consumir.
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