
Muitas vezes falamos sobre turismo sustentável, turismo responsável e experiências conscientes. Mas será que nossas escolhas como turistas realmente refletem esses conceitos? Existe um lado cruel do turismo que não podemos ignorar. Recentemente assisti a alguns vídeos que me fizeram refletir sobre um dos lados mais cruéis do turismo: a exploração de animais para entretenimento e para a busca da foto perfeita.
Em um dos vídeos, na Tailândia, um turista aparece sentado enquanto um adestrador conduz um tigre até ele. Durante toda a gravação, o animal recebe mamadeira para permanecer dócil e é incentivado a subir sobre a pessoa para a fotografia. A cena é tratada como algo comum, mas não deveria ser.
Não podemos normalizar situações em que animais são condicionados, privados de seus comportamentos naturais ou submetidos a métodos questionáveis apenas para gerar conteúdo nas redes sociais.
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O segundo vídeo mostrava a realidade de duas orcas que viviam em um parque temático na França. As orcas Wikie e Keijo permaneceram no Marineland, em Antibes, mesmo após o fechamento do parque em janeiro de 2025. Imagens divulgadas mostravam os animais nadando lentamente em tanques cobertos por algas, sem apresentações e sem perspectiva definida de destino.
O caso chama ainda mais atenção porque as duas orcas nunca viveram na natureza. Elas nasceram em cativeiro e passaram toda a vida dentro de parques aquáticos, dependendo completamente da estrutura humana para sobreviver. Após o fechamento do Marineland, o próprio governo francês reconheceu a dificuldade de encontrar uma solução para os animais, justamente porque décadas de exploração transformaram essas orcas em dependentes de um sistema criado exclusivamente para entretenimento humano.
Mais do que lamentar a situação atual desses animais, é preciso refletir sobre quem mantém esse modelo funcionando. Enquanto houver público disposto a pagar ingressos para assistir apresentações com animais selvagens confinados, empresas continuarão lucrando com esse tipo de exploração. O problema não começa quando o parque fecha, ele começa quando transformamos seres vivos em espetáculo e financiamos experiências construídas a partir do aprisionamento da fauna.
Há ainda situações mais graves. Na Índia, uma turista morreu após ser esmagada por um elefante durante um conflito entre animais. Casos como esse também nos lembram que estamos falando de seres vivos, com instintos naturais, e não de atrações criadas para atender às expectativas humanas. Por isso, não basta defender o turismo responsável em discursos ou campanhas. É preciso que essa responsabilidade esteja presente nas escolhas que fazemos durante as viagens. Frequentar locais que exploram animais para passeios, apresentações ou sessões de fotos contribui para a manutenção desse modelo.
O outro lado da situação
É importante destacar que centros de reabilitação, santuários e instituições sérias de conservação desempenham um papel fundamental na proteção da fauna. O problema está nos empreendimentos que utilizam animais como mercadoria, muitas vezes recorrendo a práticas de contenção, treinamento forçado ou medicação para garantir a interação com visitantes.
Antes de comprar um ingresso ou participar de uma atividade, pesquise sobre o local. Procure entender como os animais são tratados e qual é a finalidade daquele espaço. E, principalmente, faça uma pergunta simples a si mesmo: essa experiência realmente vale o sofrimento de um animal?
O turismo tem o poder de gerar encontros transformadores entre pessoas, culturas e natureza. Mas isso só acontece quando aprendemos a admirar a vida selvagem com respeito, e não como um cenário para nossas fotografias.
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