Ao fim do discurso no Cipriani Wall Street, em Nova York, no qual agradeceu à toda equipe, o premiado cineasta mandou na lata: 'f*** a IA'. Em outubro, del Toro já havia subido o tom ao destacar que 'preferia morrer' a utilizar IA generativa em seus filmes.
Em outra ocasião, durante entrevista ao podcast Fresh Air, da NPR, ele foi perguntado se utilizou tecnologia em sua nova versão de Frankenstein: “IA, sobretudo a generativa, não desperta meu interesse e nunca despertará. Aos 61 anos, espero continuar indiferente até o último dia da minha vida”, declarou.
“Frankenstein”, novo longa-metragem de Guillermo del Toro, entrou em cartaz nos cinemas em 23/10/2025. A produção apresenta o universo gótico e visceral que é uma marca registrada de Del Toro.
O filme, que chegou primeiro às telonas e tem previsão de entrada no catálogo da Netflix em 7 de novembro, é a realização de um sonho antigo do cineasta mexicano, que há décadas acalenta o desejo de revisitar o mito criado pela escritora Mary Shelley sob sua ótica particular.
“Frankenstein”, segundo o próprio diretor, é o filme que ele sempre quis fazer. No Festival de Veneza, onde foi ovacionado, del Toro afirmou que a sua produção tem traços autobiográficos. Entre os destaques do elenco estão ainda Mia Goth, como Elizabeth Lavenza, e Christoph Waltz no papel de Heinrich Harlander.
Nascido em 9 de outubro de 1964, em Guadalajara, no México, Guillermo del Toro Gómez cresceu entre livros de terror, histórias em quadrinhos e filmes de monstros.
Ele estudou cinema na Universidade de Guadalajara e, antes mesmo de dirigir seu primeiro longa, fundou uma empresa de efeitos especiais chamada Necropia, onde começou a desenvolver a habilidade que mais tarde se tornaria sua marca: dar vida a seres fantásticos com textura, realismo e emoção.
Em 1993, Del Toro dirigiu seu primeiro longa, “Cronos”, que foi um sucesso de crítica e venceu nove prêmios no México, além de conquistar o Grande Prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes.
O reconhecimento internacional abriu as portas de Hollywood, onde ele realizou “Mimic”, em 1997, um terror urbano sobre baratas mutantes que teve Mira Sorvino no papel principal.
Depois de retornar ao cinema de língua espanhola com “A Espinha do Diabo”, ambientado na Guerra Civil Espanhola, Del Toro consolidou o estilo que o tornaria único: uma fusão entre horror e melancolia, realismo histórico e fantasia.
Já “O Labirinto do Fauno” conquistou três Oscars - Fotografia, Direção de Arte e Maquiagem - e consagrou o diretor como um autor de voz inconfundível - alguém capaz de transformar o terror em poesia.
Entre esses dois momentos, Del Toro também se aventurou em produções de grande orçamento, mas sem abandonar seu olhar autoral. Dirigiu “Blade 2” e “Hellboy”, adaptando para o cinema o personagem das HQs de Mike Mignola.
Em “Hellboy 2: O Exército Dourado”, de 2008, ampliou essa dimensão visual e emocional, construindo mundos de beleza detalhista e criaturas de aparência assustadora, mas de alma sensível.
Nos anos seguintes, Del Toro seguiu transitando entre o épico e o íntimo. Em “Círculo de Fogo”, de 2013, prestou homenagem aos filmes de monstros japoneses e à cultura dos robôs gigantes.
A consagração definitiva viria em 2007, com “A Forma da Água”, um conto de fadas para adultos que lhe rendeu quatro Oscars, incluindo Melhor Diretor e Melhor Filme.
A história de amor entre uma mulher muda e uma criatura aquática sintetiza a visão de mundo de Del Toro: o monstro é sempre o espelho da humanidade, e o amor, sua forma mais revolucionária.
Nesse mesmo espírito, o cineasta se aventurou na animação em stop-motion com “Pinóquio”, de 2022, vencedor do Oscar de Melhor Animação, em que reinterpreta a clássica fábula sob o prisma da desobediência, da dor e da ternura.
Del Toro também tem uma sólida trajetória como produtor. Ele se consolidou como um dos grandes incentivadores do cinema fantástico contemporâneo, especialmente de novos talentos da América Latina e da Espanha.
Produziu obras marcantes como “O Orfanato”, de J. A. Bayona, que se tornou um dos maiores sucessos do terror espanhol moderno, e “Não Tenha Medo do Escuro”, de 2010, refilmagem de um clássico da década de 1970, em que atuou como roteirista e produtor.
Sua atuação nos bastidores também se estende a projetos como “Mama”, de 2013, dirigido por Andy Muschietti, e “O Conto dos Contos”, de Matteo Garrone, ambos marcados por atmosferas góticas e pela presença constante da fábula como forma de explorar o medo e a inocência.
Na vida pessoal, o diretor mexicano casou-se em 1986 com Lorenza Newton, com quem teve duas filhas. A separação do casal aconteceu em 2018. Três anos depois, casou-se com a roteirista Kim Morgan, com quem colaborou no filme “O Beco do Pesadelo”, e a união segue até hoje.