Nas paisagens alagadas do Vietnã e das Filipinas, milhões de patos transformam lavouras de arroz em cenários únicos, onde aves e plantas convivem em harmonia. Mais do que curiosidade, trata-se de um sistema agrícola sofisticado que une produtividade, sustentabilidade e redução de custos.
Por FliparEmbora tenham raízes na América do Sul, os patos se espalharam pelo mundo com os colonizadores. Hoje, são criados em diversos continentes para carne, ovos e penas, mostrando sua rusticidade e adaptação a diferentes climas.
No Brasil, por exemplo, a criação de patos atende nichos específicos ligados à gastronomia europeia. Empresas exportam cortes e produtos gourmet, mas no Sudeste Asiático o destino das aves ganhou outra função prioritária.
No Vietnã e nas Filipinas, milhões de patos entram nas lavouras de arroz não apenas como criação, mas como agentes de manejo. Eles controlam pragas, reduzem ervas daninhas e fertilizam o solo de forma natural.
Cerca de 22 dias após o plantio, quando o arroz ainda está em desenvolvimento e o solo permanece alagado, bandos de patos são soltos nos campos para iniciar seu trabalho ecológico.
As aves caminham e nadam entre as plantas, revolvendo o solo e transformando a lavoura em pasto aquático. Em vez de pesticidas, o produtor utiliza o instinto natural dos patos para buscar alimento.
Quando a cultura começa a florescer, os patos são retirados para não prejudicar a fase sensível das plantas. Esse manejo cuidadoso garante equilíbrio entre produtividade e preservação.
Ao se alimentar de insetos, os patos reduzem populações que normalmente exigiriam pesticidas. Assim, o controle biológico substitui a aplicação de químicos, trazendo benefícios ambientais.
Além dos insetos, os patos consomem plantas espontâneas que competem com o arroz. Dessa forma, diminuem a necessidade de herbicidas e mantêm o campo mais limpo.
Os dejetos das aves devolvem nutrientes diretamente ao solo e à água, funcionando como adubo orgânico. O arroz cresce em ambiente enriquecido sem depender totalmente de fertilizantes sintéticos.
Estudos mostram que lavouras com patos, mesmo usando apenas metade da adubação química, alcançam resultados próximos às convencionais. O balanço final indica vantagens econômicas e ambientais.
Ao somar produtividade, custo e redução de insumos, o modelo integrado apresentou desempenho cerca de 48% superior ao sistema puramente químico, tornando-se mais rentável para o produtor.
Com a substituição de pesticidas e diminuição de fertilizantes, os gastos com defensivos caem sensivelmente. Isso torna a lavoura mais barata e acessível, sem comprometer a produção.
Os patos, quando voltam às granjas, geram retorno em diversas frentes. Passam a receber alimentação complementar e, assim, podem ser criados para carne e ovos. O sistema, portanto, gera receita adicional além dos benefícios no campo.
Em alguns modelos, os patos permanecem nos campos por meses sem ração extra, aproveitando o que encontram. Isso reduz ainda mais os custos de criação.
Após o período no campo, os patos passam cerca de três meses botando ovos em granjas. O ciclo fecha com aproveitamento máximo do potencial produtivo das aves.
As cenas de milhões de patos atravessando rios, estradas e vilarejos impressionam. Não é apenas criação superdimensionada, mas uma estratégia pensada para múltiplas funções.
A integração entre lavoura e patos mostra que a tecnologia pode ser viva e móvel. Em tempos de busca por sustentabilidade, esse modelo inspira alternativas ao pacote clássico de químicos e máquinas.